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Galpão da Fábrica 747 vira sala de cinema para o 15º Vitória Cine Vídeo

18/11/2008 - 19h26 (Vitor Graize - Da Redação Multimídia)

foto: Sergio Cardoso
Montagem do cinema no interior da Fábrica 747 em Jucutuquara - 18/11/08
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Há quase cem anos, quando o apito da Companhia União Manufatora de Tecidos anunciava o início da jornada de trabalho, os operários não eram recebidos com tapete vermelho e pipoca. O que ainda resta daquela época, a estrutura gigantesca e a tradição da fábrica que deu origem a um dos primeiros bairros operários da América Latina, terá outro objetivo a partir da próxima segunda-feira (24).

Pela primeira vez em 12 edições, a Mostra Competitiva Nacional do Vitória Cine Vídeo será transferida do Teatro Glória, atualmente em reforma, para o número 747 da Avenida Vitória. O cinema chega pela primeira vez onde, por décadas, foram produzidos botões e juta, shows de rock e bailes funk.

Como não poderia deixar de ser, na fábrica tudo está sendo preparado por operários. "Montar, pintar... Aqui a gente faz tudo", conta Joarez Batista, 33, enquanto usa tinta preta para transformar o espaço em uma impecável sala escura.

O galpão principal, que tem cerca de 1.600 metros quadrados, vai abrigar uma tela de seis metros de altura e 13 de largura. Do antigo lar, o festival traz as cadeiras vermelhas: 1.220 peças retiradas durante dois dias por 18 homens.

As cadeiras foram doadas pelo Centro Cultural Sesc-Glória para o festival. "Estavam muito bem parafusadas. Nós tivemos que usar um pé de cabra para conseguir tirar algumas", conta Manoel da Silva Cruz, 49, que, apesar do apelido, Doido, consegue dar conta de uma equipe que trabalha contra o relógio. "A gente faz muita coisa. Tem que ser louco, porque normal não consegue. Trabalhamos desde a montagem da portaria até o último cenário", diz.

O experiente Doido - desde os 19 anos, quando começou a trabalhar nesse ramo, já montou a estrutura de exposições de arte e de show da cantora Ivete Sangalo - admira a grandiosidade da antiga fábrica. "Esse galpão é especial, só precisa de alguns ajustes para melhorar a acústica", analisa.

Trabalho temporário

Diariamente, além de orientar a montagem da estrutura, ele deve se preocupar com a alimentação da equipe ("Tem que buscar o almoço, se não eles brigam comigo") e com os homens que o procuram em busca de um emprego temporário. São pessoas como Eliaquim Pereira Rocha, 46, que gosta de ver filmes em casa ("No cinema, fui poucas vezes") e ouviu dizer, na pracinha do bairro, que precisavam de gente. "Vou fazer um bico. Já trabalhei na área de montagem", diz.

"Desde quinta-feira, já vieram uns cinco ou seis. É bom porque sempre há trabalho a ser feito", afirma Manoel, que depois pede para Eliaquim voltar no dia seguinte às 7h30, já "fantasiado". "Aqui o trabalho é duro".

A jornada diária de trabalho deve se estender até a noite, por volta das oito horas, para que tudo fique pronto a tempo. A previsão é que no domingo todas as cadeiras estejam no lugar, os oitos banheiros hidráulicos estejam prontos e as paredes estejam cobertas por tecidos, que vão servir para decorar e melhorar a acústica. "Também tem que ter o pipoqueiro e o baleiro para ficar um cinema de verdade", garante o Doido, que do adjetivo aparenta apenas os movimentos enérgicos.

Além da sala de projeção, o espaço deve ganhar uma sala de convivência com um bar e um pequeno palco para apresentações culturais após as sessões.

Diferente do apito, que durante várias décadas do século passado marcou a rotina do bairro, em seis noites a fábrica vai ecoar as imagens e o som do cinema brasileiro, construído por diretores, atores, técnicos e operários loucos.


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