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Ilha do Fato: família vive há 40 anos sem água e energia em ilha na Praia de Camburi

     

14/03/2015 - 16h50 - Atualizado em 29/12/2015 - 08h40
Autor: Danilo R Meirelles | [email protected]

"Custei a sair de casa com medo da água", conta moradora da ilha

"Aqui a pessoa não passa fome e nem necessidade. Só se tiver preguiça! A gente vai ali no mar e pesca um peixe, e se quiser vende; pega marisco e já está encomendado. É isso que não me tira daqui. Às vezes vai para um lugar distante como Cariacica ou Serra e passa dificuldade", conta, empolgada, a zeladora Vera Lúcia Araújo. Mesmo sem água encanada e acesso à rede de energia, ela vive há 40 anos com a família numa ilha isolada de Vitória, que parece ter parado no tempo.
Localizada a 120 metros do Píer de Iemanjá, na Praia de Camburi, a Ilha do Fato destaca-se no horizonte pela grandiosidade e vegetação abundante. Porém, para perceber algo diferente é preciso atenção: no meio dos coqueiros, uma pequena casa de 4 cômodos e paredes azuis quase se confunde com o céu. Confira no vídeo abaixo como foi a nossa visita à Ilha do Fato:
A dificuldade fez surgir a ilha como moradia. A zeladora conta que se mudou junto com o marido e os filhos em 1975, após problemas financeiros. "Meu marido atravessava as pessoas de barco pelo Porto de Vitória e, numa época de desemprego, um dos passageiros conhecidos ofereceu de morar na ilha como zeladora", revela.
No começo, Vera Lúcia teve dificuldades de encarar o mar e lembra da fase em que os filhos estudavam. "Custei a sair de casa com medo da água. Mas mesmo assim, todos os dias a gente levava os filhos na escola Irmã Maria Horta, na Praia do Canto. Todos eles estudaram", orgulha-se.

Meu marido deixou um lote em Campo Grande antes de morrer. Mas se aqui é tranquilo, para que vou para um lugar criar meus netos com medo da violência?

Vera Lúcia Araújo

A ida à cidade é encarada apenas como uma necessidade para resolver questões do dia-a-dia, como bancos e médicos. Religiosa e tomando seis remédios para controlar a pressão, Vera Lúcia não dispensa as idas à igreja. "Eu frequento uma igreja evangélica e me desloco daqui até Santo Antônio apenas para isso", comenta.
Parados no tempo
O dia começa cedo para "Dona Vera", como é conhecida pelos pescadores. Ela revela que acorda todos os dias às 4 horas, mas que levanta apenas às 6h para arrumar a casa, preparar o almoço e cuidar dos animais que ficam soltos. "Não tem muito o que fazer aqui", diz ela, antes de soltar uma gargalhada.
E quem visita a ilha percebe isso. A ausência de água encanada e rede elétrica faz com que a família Araújo viva de maneira bem pacata. Os poucos sinais de tecnologia "moderna" estão no telefone celular, que não acessa internet, na televisão com a velha antena interna e um aparelho DVD, alimentados por um gerador que não é ligado todos os dias.
Geladeira? Não tem. A pequena neta Verônica Correia Rangel, de 5 anos, conta que adora comer o arroz, feijão e o macarrão da avó Vera. "Aqui a gente come de tudo. Criamos os animais, e o meu filho gosta de comer do bom e do melhor, ele só gosta de filé mignon", provoca a zeladora com risadas.

Observar a paisagem é uma das principais distrações na Ilha do Fato. De lá, é possível ver uma porção razoável de Vitória que não está à vista da maioria da população no dia-a-dia. Observa-se algumas praias desertas, a orla de Camburi inteira e até o Convento da Penha numa visão de tirar o fôlego que mistura, ainda, a Terceira Ponte e a Ilha do Frade.
O neto mais velho, Lucas Lauriano da Silva, de 20 anos, nos leva para conhecer o outro lado da ilha e revela que, durante as noites de Lua cheia, a paisagem é especial. "Quando a Lua está grande e sobre o mar, nas costas da ilha o visual é fantástico. A gente vem para cá ficar olhando o reflexo no mar", afirma.

As pessoas não acreditam que a gente mora em uma ilha

Lucas Lauriano da Silva

Nascida na Ilha
Poucas são as pessoas no mundo que podem afirmar que nasceram numa ilha própria. Este é o caso da pequena neta Vitória Correia Rangel, de apenas um ano. Vera Lúcia conta que a filha, grávida de gêmeas, de forma inesperada entrou em trabalho de parto na Ilha. Uma das netas faleceu no parto, mas Vitória veio para ficar. "O Samu e o Corpo de Bombeiros vieram até aqui para ajudar e levaram minha filha após o parto para o hospital. A Vitória nasceu aqui e tem muita saúde", comemora.
Outra Vitória
Foto: Arquivo/A Gazeta

Praia do Canto e ao fundo a Praia de Camburi no começo do desenvolvimento e aterros durante a década de 1950. Clique na imagem para ampliar

 
A capital do Estado viveu um processo de mudanças drásticas desde os aterros até a recente reforma do calçadão de Camburi e ampliação da avenida Dante Michelini. E Dona Vera assistiu a tudo isso de camarote na Ilha do Fato. "Quando me mudei, era tudo mato. Não havia píer e o vento quando batia carregava a areia toda pela praia. O que tinha era uma mercearia lá embaixo (aponta para o fim de Camburi)".
E quem pensa que ela é tomada pela nostalgia comete um erro. Na opinião dela, tudo está melhor. "Eu vi construir tudo isso. Agora está muito mais bonito".
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