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Gerente sabia de riscos e não impediu empregados de entrarem em local da explosão

     

16/12/2015 - 21h58 - Atualizado em 17/12/2015 - 10h35
Autor: Beatriz Seixas e Mikaella Campos |

Gestor da embarcação foi indiciado por homicídio doloso. Ele pode pegar até 25 anos de cadeia. Outros três funcionários da BW foram acusados por homicídio culposo

Foto: Marinha do Brasil

Imagens divulgadas pela Marinha do Brasil mostram o navio-plataforma Cidade de São Mateus, atingido por uma explosão na tarde de quarta-feira (11)

O risco de explosão iminente não foi capaz de impedir que o gerente do navio-plataforma Cidade de São Mateus, segundo a Polícia Federal, tomasse decisões equivocadas e em desacordo com as normas de segurança. Medidas essas que resultaram na morte de nove pessoas e deixaram 26 feridas em 11 de fevereiro deste ano, no campo de Camarupim, no litoral de Aracruz.
Mais de 10 meses depois da pior tragédia no setor de petróleo e gás do Espírito Santo e uma das mais graves do país, a Polícia Federal informou ontem que concluiu o inquérito que investigava o acidente e anunciou o indiciamento do gerente da embarcação e de outros três funcionários da norueguesa BW Offshore, terceirizada da Petrobras e operadora do navio.
O chefe da Delegacia de Defesa Institucional da PF, Leonardo Rabello, explicou que os trabalhadores, todos estrangeiros, foram indiciados por homicídio doloso, culposo e lesão corporal grave, e que podem pegar até 25 anos de prisão se somadas as penas. Segundo ele, as provas coletadas vão ser encaminhadas hoje ao Ministério Público Federal (MPF) para que o órgão decida se apresentará à Justiça a denúncia criminal.
A autoridade policial desconfia que os gestores do navio pressionavam os trabalhadores com o objetivo de manter produtividade. Possivelmente, de acordo com as investigações, os funcionários da plataforma, que morreram, eram ameaçados a fazer tarefas mesmo em momento de risco sob a ameaça de perderem seus empregos.
Para Rabello, ficou claro que houve uma sucessão de erros em relação à transferência de fluidos de um tanque para o outro, além do fato dos responsáveis pela gestão do navio terem subestimado o vazamento de gás na casa de bombas, enviando equipes para o local mesmo com a detecção de um alto risco de explosão.
A confirmação do elevado nível de explosividade foi feita depois que a Polícia Civil encontrou em um dos corpos das vítimas um detector portátil de gás. Esse aparelho registrou os índices de gás no dia do acidente e possibilitou a análise de dados e gráficos que indicaram a iminência para acontecer um acidente.
Foto: Divulgação/Polícia Federal

Delegados dão coletiva sobre o acidente

“Foi constatado que o índice de explosividade estava em 100%, o que podemos dizer é que estávamos diante de um ambiente absolutamente explosivo. Quem tomou as decisões sabia dos riscos”, observou o delegado ao complementar que prova de que o problema não estava recebendo a devida atenção foi quando um minuto antes de acontecer o desastre, as pessoas que não estavam envolvidas nos reparos haviam sido liberadas para almoçar. “Isso dava a impressão de que estava tudo bem.”
Investigações feitas por órgãos fiscalizadores apontam que a plataforma apresentava graves problemas de gestão. Num dos inquéritos, conduzidos pela Procuradoria do Trabalho no Rio de Janeiro, há a informação de que faltavam profissionais treinados e qualificados para comandar a embarcação.
Segundo as apurações, também havia ausência de superiores hierárquicos com habilitação para gerenciar o navio e os funcionários. Quando ocorreu a explosão, era apenas o terceiro embarque do filipino que respondia pela gerência do navio, aponta as análises trabalhistas. O superintendente russo tinha sido contratado há 11 dias. E, um dos cargos essenciais, de supervisor, estava vazio há meses.
À respeito da punição dos estrangeiros, ainda não há uma clareza sobre como ela vai acontecer, já que segundo o delegado Rabello é muito provável que esses profissionais não estejam no Brasil. “Se eles não retornarem ao Brasil, isso não impede que eles sejam condenados. O que pode ser realizado é a Justiça traçar uma decisão para que cumpram a pena em seus países.”
Outro lado
A BW Offshore informou por meio de nota que tomou conhecimento do resultado final das investigações da Polícia Federal e esclareceu que “a empresa continua a prestar o devido suporte a todos os envolvidos no acidente”. A companhia norueguesa confirmou que a plataforma permanece no local do acidente e que o processo de descarga do condensado foi realizado e concluído com êxito. Agora, irá continuar o processo de preparação do reboque da embarcação para um estaleiro. A Petrobras foi procurada, mas até o fechamento desta edição não se manifestou.
OS CULPADOS, SEGUNDO A POLÍCIA FEDERAL
Gerente da plataforma: O filipino assumiu risco de enviar os trabalhadores para conter vazamento. Ele foi indiciado por dolo eventual - homicídio doloso e lesão corporal dolosa.
Superintendente de marinha: Russo, ele agiu com negligência e imperícia. Foi acusado de homicídio culposo.
Superintendente de manutenção: O polonês foi acusado de negligência e de cometer homicídio culposo.
Operador de marinha: Filipino é acusado de negligência, imperícia e homicídio culposo.
Obs.: Os nomes não foram divulgados pela Polícia Federal
Punição da Petrobras será trabalhista
Um contrato de terceirização com a BW conseguiu livrar a Petrobras de responder na esfera criminal pela explosão na plataforma. Mas na área trabalhista, a empresa vai enfrentar, junto com a norueguesa BW Offshore, uma série de acusações. Há dois inquéritos em tramitação para averiguar as falhas que colocaram funcionários do navio em risco e para investigar se houve fraudes na contratação de estrangeiros.
O Ministério Público do Trabalho do Rio de Janeiro, autor das medidas, iniciou ainda outra apuração, com a intenção de verificar se o modelo de terceirização da estatal fere os direitos dos trabalhadores.
Um dos processos administrativos sobre o acidente no FPSO, conforme explica o procurador do Trabalho Rodrigo Carelli, revela que a Petrobras e a BW não respeitaram normas de segurança no gerenciamento da plataforma.
O inquérito está em fase de encerramento e contou com dados dos relatórios de fiscalização da Agência Nacional de Petróleo (ANP), Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e Marinha para concluir que havia responsabilidade solidária entre as duas companhias.
Após o acidente, o MPT, pelo Projeto Ouro Negro, embarcou em outros navios-plataforma da BW afretados à Petrobras e constatou irregularidades semelhantes as que levaram à explosão, à morte e provocaram lesões nos trabalhadores. “Poderiam ter ocorridos outros acidentes ainda mais graves. Mesmo que tenha um contrato com a BW, perante o Estado, a Petrobras é responsável. E nossa visão sobre isso é baseada no relatório da ANP que afirma ser a estatal a concessionária do campo onde ocorreu a tragédia”, acrescenta Carelli.
Para conhecer a relação trabalhista da Petrobras, BW e os funcionários estrangeiros, a Procuradoria do Trabalho solicitou as duas companhias o envio do contrato e os vistos dos empregados. O que ainda não aconteceu.
Trauma profundo
Quase um ano após o acidente, um funcionário da BW, que não quis se identificar, conta a dificuldade de vencer o trauma da explosão. Ele estava próximo ao local onde tudo aconteceu, atuando numa importante tarefa de contenção do vazamento. “Muitas pessoas, assim como eu, não voltaram ao trabalho. Nem sabemos se vamos ter uma nova chance ou se perderemos nossos empregos”, diz ao confirmar que um dos chefes, o superintendente russo, é o que tinha menos tempo de embarque.
Abel Corrêa dos Santos, irmão de Tiarles Corrêa dos Santos, um dos mortos na tragédia, afirma que o indiciamento de quatro funcionários da BW pode esconder os verdadeiros culpados. “Há meses meu irmão falava que havia vazamentos, que uma válvula apresentava problemas e que a qualquer hora podia ocorrer um grave acidente. Nem a BW nem a Petrobras colocaram profissionais preparados para trabalhar”.
Entenda as causas do acidente, segundo a polícia
1) Ausência da conclusão da permissão de trabalho, medida adotada para analisar os riscos da execução de alguma atividade no navio-plataforma, antes da descida da terceira equipe responsável pela limpeza e reparo do vazamento.
2) Ausência no plano de emergência para a hipótese de vazamento de gás e explosão na casa de bombas.
3) Ausência do sistema de gestão de mudanã (MOC), que tem estudos e análises necessárias para qualquer mudança operacional no navio-plataforma a fim de que pudesse ser implementada alterações sem riscos. Não havia planejamento para o novo alinhamento de transferência de fluído, que ocorria no dia do acidente, antes do vazamento, entre os tanques 6C para o 2C, através da linha de gás inerte que foi usado para transferência de condensado.
4) Não interrupção da bomba de stripping, durante a mudança de alinhamento, visto que foi fechada uma válvula na linha de descarga, havendo consequentemente um aumento de pressão na rede.
5) A raquete instalada no flange, próximo a válvula OP-68 não foi instalada através de gestão de mudança, bem como era inadequada em face da baixa espessura e por estar fora da especificação, em desacordo com a pressão do projeto original da linha.
6) Pôde-se constatar que um detector portátil encontrado pela Polícia Civil em um dos corpos, no local da explosão, havia atingido 100% de explosividade, ou seja, a situação no local de vazamento estava em iminência de explosão em virtude dos níveis elevados de inflamáveis.
7) Ausência de diagnóstico de vazamento correto, haja vista que não foi considerado a possibilidade do condesado (fluido) ter escorrido, através das aberturas no piso para o nível inferior da casa de bombas.
8) Liberação dos pontos de encontro com a emergência em andamento gerou em muitos a impressão de que a situação estava sob controle e que não haveria mais riscos.
9) Violação das normas de segurança foi um dos erros. O gerente da plataforma, responsável maior pela embarcação, não respeitou os procedimentos que preveem em caso de espaços confinados avaliação dos riscos para permitir a entrada dos trabalhadores.
LINHA DO TEMPO DO ACIDENTE
-05/ a 09/02- Iniciada operação de transferência de fluido do tanque 06C para o tanque SOLP, utilizando-se da bomba de Stripping.
-10/02/15- Redução da eficiência da transferência do fluido.
- 11/02/15- 11:14- Em função da dificuldade de bombeio foi decidido adotar uma nova estratégia, transferindo o fluido do tanque 6C para o tanque 2C, via linha de gás inerte, com auxílio da bomba de Stripping. Esta operação, entretanto, foi feita sem a devida Gestão de Mudança (MOC).
-11/02/15 – 11:22 - Fechamento da válvula de descarga (OP-084) da bomba de Stripping, mantendo esta, contudo, em funcionamento a 8% o que ocasionou elevação da pressão;
-11/02/15- 11:24- Para um novo alinhamento foram abertas as válvulas de sucção OP-048 e OP-051, mantendo-se a linha descarga bloqueada, iniciando um vazamento de fluido (água e condensado) no flange próximo da válvula OP-68 (neste ponto do vazamento é que foi instalada uma raquete de bloqueio, de baixa espessura em desacordo com a pressão do projeto original).
-11/02/15- 11:25- Neste momento denotou-se na sala de controle um aumento de pressão de descarga da bomba de Stripping, sendo comandada a sua parada e abertura da válvula OP-084, evidenciando clara falta de planejamento.
-11/02/15- 11:26- Ocorreu o disparo do primeiro alarme de gás, confirmado na casa de bombas;
- 11/02/15- 11:27- Acionamento do segundo detector de gás na casa de bombas;
-11/02/15- 11:30- É informado pelo bombeador da casa de bombas o local do vazamento em um flange próximo a válvula OP-068;
-11/02/15- 11:31- Terceiro detector de gás acionado, desencadeou no desligamento de emergência nível 2, que parou todas bombas, fechou todas válvulas, e interrompeu a ventilação.
-11/02/15- 11:46 até 11:51- Entrada da primeira equipe no local do vazamento para investigá-lo. Há a confirmação de uma poça de líquido no piso, e é reportado elevados teores de gás na Casa de Bombas, medidos pelos detectores portáteis de gás.
-11/02/15- 12:02- É enviada uma segunda equipe à casa de bombas para planejar o reparo do vazamento.
-11/02/15-12:14- Após retorno desta equipe foi estabelecida estratégia de limpar a área de vazamento com mantas absorventes e reapertar o flange identificado como fonte do vazamento.
-11/02/15- 12:26- descida de uma terceira equipe com 5 pessoas, levando chaves de boca para reaperto do flange e um martelo de borracha e mantas absorventes, tendo sido adicionalmente montada uma linha de combate à incêndio para possibilitar a lavagem com água do local;
-11/02/15-12:32- É anunciado pelo sistema de som do navio plataforma para a toda unidade que as pessoas não essenciais à contingência estavam liberadas para almoçar.
-11/02/15-12:33- Ocorre uma forte explosão na Casa de bombas atingindo praça de máquinas e casario.
Fonte: Polícia Federal


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