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"O zika hoje, depois da violência, é talvez um dos mais graves problemas de saúde pública no Brasil"

     

03/01/2016 - 07h44 - Atualizado em 03/01/2016 - 17h55
Autor: Maíra Mendonça | [email protected]

Diretor da Fiocruz do Mato Grosso do Sul estima que até dezembro tenhamos 15 mil casos de microcefalia e 40 mil de outros tipos de malformações

Gripe Espanhola, Tuberculose, Malária, Aids. Ao longo dos últimos cem anos estas e outras epidemias foram responsáveis pelo sofrimento e pela morte de milhões de pessoas em todo o mundo. Enquanto algumas já foram superadas, outras permanecem deixando sua marca na história. Para o médico infectologista e diretor da Fiocruz do Mato Grosso do Sul, Rivaldo Venâncio, os inúmeros avanços em Saúde e em qualidade de vida possibilitaram a redução dos impactos de tais doenças, mas ainda assim o risco de novas epidemias é sempre iminente.
Foto: Divulgação

"Das doenças infeciosas, hoje a zika em crianças talvez seja a maior ameaça para as próximas décadas se não houver um aporte tecnológico"

Prova disso é a explosão dos casos suspeitos de infecção por zika vírus em diferentes regiões do país, bem como de quadros de microcefalia em bebês, que já somam 2.782. A situação leva Rivaldo a classificar o zika como um dos problemas mais graves de saúde pública da atualidade. O pesquisador defende que o vírus seja encarado como uma doença congênita - transmitida de mãe para filho - e calcula que até o final de 2016 sejam contabilizados cerca de 15 mil casos de microcefalia e 40 mil casos de outros tipos de malformações por ele também provocadas. Vencer mais essa batalha e avançar rumo a um futuro melhor depende, segundo ele, da união entre a ciência, o poder público e a sociedade civil, a fim de descobrir métodos de prevenção e tratamento da infecção, além de novas ferramentas para o combate ao Aedes aegypt. A entrevista completa o leitor confere a seguir.
Quais as principais epidemias que afetaram o mundo nos últimos anos?
Nos últimos 100 anos tivemos epidemias marcantes, que merecem ser destacadas. Uma das primeiras é a Tuberculose, que só do século XIX para o XX matou algo em torno de 800 milhões a um bilhão de pessoas em todo o mundo. É uma doença transmitida por uma bactéria através da respiração, que acomete principalmente os pulmões e que na atualidade ainda mata em todo o mundo cerca de dois a três milhões a de pessoas todos os anos. Outra que eu citaria foi a Varíola, que do final do seculo XIX até os anos 70, quando os últimos casos foram registrados, matou cerca de 300 milhões de pessoas. Se houvesse uma epidemia de varíola hoje, provavelmente ela não mataria como matou naquela época, pois teríamos instrumentos para diminuir, por exemplo, a gravidade da infecção secundária das bolhas.
A gripe espanhola, provocada pelo vírus H1N1, que matou cerca de 50 milhões de pessoas no mundo principalmente em decorrência de complicações pulmonares. É preciso lembrar que em 2009 houve o início de uma outra epidemia causada pelo H1N1, conhecida como gripe suína. Houve um pânico no mundo todo porque as pessoas se lembravam da gripe espanhola. Mas o desenvolvimento tecnológico possibilitou uma vacina rápida, além do próprio medicamento contra o vírus, que não existia na outra época: o Tamiflu.
Outra doença muito grave no início do seculo XX foi o Tifo, transmitido por pulgas, piolhos e carrapatos. A bactéria gênero Rickettsias se espalhou devido a aglomeração das pessoas na Segunda Guerra Mundial e na Revolução Industrial, matando milhões. Um gravíssimo problema de saúde pública que já foi mais grave, mas que mesmo hoje existem relatos de 350 a 400 milhões de casos por ano mundo é a Malária. Chegamos a registrar no Brasil mais ou menos um milhão de casos entre as décadas de 1960 e 1980. Já a febre amarela gerou pânico até pelos problemas no comércio, pois cidades portuárias ficaram impedidas de comercializar pelo risco de que os navios chegassem com a doença em seus porões.
Uma epidemia mais recente é a da Aids, que em 30 anos já matou 35 milhões de pessoas, sendo o HIV transmitido por sangue e secreções. Outra doença grave pelas marcas sociais que deixou foi a Poliomielite. Ela não matava na mesma proporção que Tuberculose ou Malária, mas suas sequelas - alteração neurológica e problemas de desenvolvimento nas pernas - deixaram muitas pessoas com dificuldades de andar e em alguns casos cadeirantes.
A hepatite é uma epidemia?
No caso das hepatites B e C, há uma grande quantidade de casos que ainda persistem. Estima-se que no mundo existam cerca de 400 milhões de pessoas portadoras crônicas dessas doenças, sendo que um percentual razoável poderá caminhar para a cirrose ou para o câncer de fígado.
Por que ainda não conseguimos eliminar a dengue no Brasil?
No Brasil já são 30 anos ininterruptos de dengue. Nesses 30 anos há algo como 15 milhões de casos da doença. É um número alto, até porque há muitos casos que não foram notificados. Estamos colhendo frutos de um modelo de desenvolvimento excludente que vem sendo implantado no país há anos. Há um crescimento desordenado das cidades sem o devido cuidado com a qualidade de vida das pessoas. Para combater o Aedes é necessário saneamento adequado, reestruturar muitos espaços de moradia, garantir água para consumo doméstico de forma regular e reduzir a violência urbana em muitos desses espaços, pois se em algumas comunidades os policiais só entram com colete, como vão entrar os agentes para combater o mosquito? Temos que refletir sobre a qualidade das cidades em que vivemos, a periferia sobretudo. Mas há uma questão cultural que também precisa ser mudada. As pessoas, das mais diversas camadas sociais, jogam lixo em qualquer local.
Com os instrumentos que temos hoje não há como controlar o Aedes, a não ser que surja um novo aporte tecnológico, que está surgindo. O uso da Wolbachia (o professor se refere a uma pesquisa que está em fase de teste desenvolvida por cientistas da Fiocruz através do programa internacional "Eliminar a Dengue, Nosso Desafio”), que é uma bactéria colocada dentro Aedes para que a fêmea perca a capacidade de transmitir vírus é uma contribuição nova que irá nos ajudar de forma marcante, mas não dá para mensurar o tempo que isso irá demorar.
A constatação que somos obrigados a fazer é que nós perdemos essa luta de 7X1 como foi o jogo da seleção brasileira contra a Alemanha na Copa do Brasil. O estilo de combater o Aedes é basicamente o mesmo que Oswaldo Cruz usou no século passado, que era bom naquele momento, mas que hoje é insuficiente para o Brasil complexo que nós temos. Isso não significa dizer que não devemos continuar com as formas clássicas utilizadas, mas que temos que fazer isso e ao mesmo tempo procurar novas ferramentas.
O zika chegou com a Copa de 2014? Como avalia a situação do vírus hoje?
Uma das hipóteses é que o zika tenha vindo com a Copa do Mundo, mas não há certeza ainda. O fato de não existir a Copa não é garantia de que não existiria zika aqui, pois o Aedes, que é o transmissor, está difundido em todo o país em larga escala. Eu diria que o zika hoje no Brasil, depois da violência, é talvez um dos mais graves problemas de saúde pública. Das doenças infeciosas, hoje a zika em crianças talvez seja a maior ameaça para as próximas décadas se não houver um aporte tecnológico. Estamos colocando de forma equivocada os holofotes quase que exclusivamente na microcefalia. Ela muito provavelmente é o mais grave problema decorrente da infecção pelo zika, mas não é o único e talvez não seja o mais frequente também. Já estão ocorrendo outras complicações em decorrência do vírus nos bebês, como problemas oculares, auditivos, microcalcificações no cérebro e malformações osteo-musculares, que vão provocar repercussões no desenvolvimento neuropsicomotor dessas crianças.
Nem toda grávida com zika passará o vírus para o bebê e nem todo bebê que receber o vírus vai ter microcefalia, pois a complicação vai depender da semana de gestação e da quantidade de vírus que se multiplicam nessa mulher, além de outros fatores que ainda não conhecemos. Não se trata de uma epidemia de microcefalia e sim de uma epidemia de zika congênita.
É preciso haver medidas de proteção individual para as grávidas e aquelas mulheres que têm condições de esperar para engravidar, que esperem. Qualquer ponto que possa se transformar em potencial criadouro do Aedes merece atenção. Estamos diante talvez de um dos mais graves problemas de saúde pública transmitidos por um mosquito nos últimos cem anos.
Quais as perspectivas futuras?
A expectativa é fechar o ano de 2016 com um total acumulado de aproximadamente 15 mil casos de microcefalia. Quando ampliamos nosso olhar para além da microcefalia, projeta-se um futuro até o final do ano que vem de 40 a 50 mil casos de mal formações congênitas provocadas pelo vírus. É mais grave do que o HIV infantil. Quando paramos para fazer as projeções, a gente vê o tamanho do problema que temos diante de nós.
A gravidade do problema abre um leque gigantesco de tarefas colocadas para toda a sociedade. Para o profissional de saúde que vai atender esses casos; para as igrejas e ONGs que precisam ajudar a formar comitês de mobilização e de solidariedade para as famílias vítimas do problema, assim como fizemos no início da epidemia de Aids. Vamos ter que resolver a questão da mobilidade urbana para dar atendimento a essas famílias, o que vai desde o passe de ônibus até a concentração da atenção em um único lugar para que elas não peregrinem. Temos um grande desafio, que é desenvolver equipes para diagnóstico o mais rápido possível e temos que tentar criar uma vacina contra a infecção. Acredito que nós vamos ter um avanço muito grande não só na Medicina, mas em todo complexo industrial da saúde, assim como tivemos com a Aids em curto espaço de tempo.
Em que evoluímos até hoje no combate às epidemias no Brasil?
O conhecimento científico sobre sobre os mecanismos de transmissão, de contágio e consequentemente de prevenção dessas doenças que provocaram tanto sofrimento para a humanidade foi fundamental para que pudéssemos estabelecer alguns mecanismos preventivos ou curativos, como antiobioticoterapia, o desenvolvimento de várias vacinas e de tecnologias que permitiram chegar a essas vacinas e o saneamento básico como medida fundamental para controlar determinadas doenças, como Cólera e Tifo. No entanto, novas doenças vão continuar surgindo. Isso faz parte do desenvolvimento da humanidade. Algumas epidemias são previsíveis, outras não. Na década de 1960 mais ou menos, os epidemiologistas previam que haveria uma explosão de algumas das doenças sexualmente transmissíveis como gonorreia e cífilis, por conta da liberdade sexual e do surgimento do anticoncepcional. Só que aí surgiu um novo vírus, que era o HIV. Da mesma forma, se nós temos hoje os mosquitos e as condições ambientais que favoreçam sua proliferação, há de prever que as doenças por eles transmitidas aumentem em número e gravidade, assim como o uso indiscriminado de antibióticos nos faz prever problemas futuros, já que bactérias tendem a criar resistência a eles.
Doenças erradicadas podem voltar?
Sim. Não voltam na magnitude anterior porque temos instrumentos para controlá-las. Mas um descuido de parcela da população e de certa forma de alguns gestores da área da saúde com relação às coberturas vacinais para determinadas doenças faz com que tenhamos a ameça de um reinício de novas epidemias. Mas se elas forem preveníveis por vacinas isso rapidamente pode ser controlado. O problema são as doenças novas, que são desconhecidas.
Há risco de que a febre chikungunya se transforme em epidemia?
Toda e qualquer localidade brasileira onde exista Aedes aegypti poderá ter em algum momento uma epidemia de dengue, zika ou chikungunya. Esse vírus está muito focado na região Norte, no Amapá, e no Nordeste, em especial na Bahia, caminhando para Pernambuco e Rio Grande do Norte, mas há uma tendência de que ele possa ir paulatinamente para outros estados do país. É um problema pelo potencial do vírus em persistir de forma crônica no organismo da pessoa, por meses ou até um ano. Imagine uma dengue muito mais grave do ponto de vista de intensidade das dores nas articulações e dores musculares.
Qual o impacto social das epidemias?
O impacto de uma epidemia sobre uma sociedade depende muito do tipo de clínica que ela apresenta. Uma epidemia de dengue é aguda, mas dependendo da localidade e do país, interfere, pela quantidade de pessoas doentes, na rede escolar, pois as pessoas não estudam por estarem doentes; na rede de saúde por causa da sobrecarga; no comércio e no turismo, pois as pessoas se afastam de onde há epidemia. Mas cada caso é um caso. São impactos diferenciados, mas que sempre causam sofrimento para a população e prejuízo amplo e estrito para a sociedade que vai além do financeiro. A epidemia de zika congênita traz um sofrimento muito grande do ponto de vista financeiro, mas para além dele há uma dor individual, familiar, que é indiscutível. Esse sofrimento subjetivo não tem preço.


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