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Quem são os professores da Ufes que atuam no governo Bolsonaro

Quem são os professores da Ufes que atuam no governo Bolsonaro

Angélica Espinosa e Ricardo da Costa fazem parte da equipe técnica do governo federal, no Ministério da Saúde e no Ministério da Educação, respectivamente

Publicado em 3 de agosto de 2019 às 22:55

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Após posse de Bolsonaro, professores da Ufes foram chamados para atuar em sua gestão. (Antonio Cruz/ Agência Brasil | Arquivo)

Dois professores da Ufes fazem parte da equipe técnica do governo de Jair Bolsonaro (PSL), em áreas importantes. Ambos têm alta formação e também perfis diferentes.

Angélica Espinosa é médica, especialista em saúde pública e em infecções sexualmente transmissíveis. Doutora, era pró-reitora de Extensão até aceitar, em abril, assumir uma coordenadoria dedicada ao tema no Ministério da Saúde.

Por ela, passam campanhas de conscientização de jovens contra DSTs e políticas públicas amplas para prevenção e tratamento dessas infecções.

O outro docente da Ufes no governo é Ricardo da Costa. Pós-doutor em História Medieval e Filosofia Medieval, foi levado ao Ministério da Educação para ser assessor especial do então ministro Ricardo Vélez, demitido da pasta após atritos entre militares e a ala ligada ao escritor, de direita, Olavo de Carvalho.

O atual ministro, Abraham Weintraub, foi o sucessor da pasta, e Ricardo da Costa foi mantido como assessor do ministério. Ele atua dentro do gabinete ministerial.

CONSERVADOR

Entre as atribuições dele, uma que traz as primeiras evidências sobre a diferença dos perfis dos dois professores da federal capixaba na gestão Bolsonaro. Cabe a ele receber "denúncias de assédio moral sofrido por professores federais que não coadunam com qualquer espectro de esquerda, participação em informes a respeito das estruturas acadêmicas e institucionais, consultoria histórica, pequenas contribuições com arrazoados processuais".

Ricardo tem em alta estima aquele que é considerado um dos maiores influenciadores da política educacional do governo, Olavo de Carvalho. Para o assessor, o escritor tem trabalhos brilhantes e é o "principal responsável por formar essa 'nova direita', formadora de opinião que, de algum modo, influenciou a eleição de 2018. Goste-se dele ou não, isso também me parece um fato inconteste. Sua percepção política é aguda, ainda que algumas vezes enfática em excesso".

As características dos dois ministros que passaram pelo MEC deram à pasta o verniz de trincheira dos ideólogos do bolsonarismo.

"O resultado das eleições de 2018 foi o da substituição de uma ideologia por outra. Isso é fato inconteste. Haverá alguns reflexos na educação, naturalmente, pois as percepções dos processos educacionais são distintas, tanto pedagógica quanto metodologicamente. Por exemplo, nunca defenderemos qualquer politização da educação conforme apregoou Paulo Freire", disse Ricardo da Costa.

A coordenadoria de Angélica não fica na Esplanada dos Ministérios, mas em um prédio da Asa Norte de Brasília. Seja pela distância física ou não, ela garante que seu setor passa completamente ao largo de todas as crises políticas que o governo vem enfrentando.

"Quando se está de longe, vê tanta confusão que parece que ninguém consegue trabalhar. Aqui se trabalha normalmente, sem focarmos nesses tipos de assunto. As demandas vêm como um rolo compressor. A questão política não aparece", contou.

Angélica define-se como alguém que nunca foi tão engajada politicamente. Essa característica a fez, em algumas ocasiões, ser considerada uma pessoa de direita. Ela diz que não é para tanto. Nem "Lula Livre" nem armas para todos, resume.

Prevenir doenças transmitidas por sexo envolve lidar com informações e, em alguns meios, derrubar tabus. A pesquisadora garante que o perfil religioso e conservador do presidente Bolsonaro e do movimento que o levou ao comando do país não impacta nas ações que ela julga necessárias.

"Nunca fui uma pessoa muito engajada politicamente. Quando trabalhava com o Reinaldo (Centoducatte, reitor da Ufes), ele até brincava perguntando como eu poderia estar na equipe dele. Aí me dizem que sou mais de direita exatamente por falar isso (risos). Sempre fui profissional liberal, funcionária pública, mas sempre quis o melhor para a universidade, para o governo, para o país. Não sou pró-Lula Livre, mas também não sou por armar a população inteira. Não tenho problema de trabalhar em nenhum governo, desde que eu possa fazer o que sei", disse.

VEJA O QUE ELES PENSAM

Ricardo da Costa, assessor do Ministério da Educação

Ricardo da Costa, professor da Ufes, atua no governo Bolsonaro. (Facebook Ricardo da Costa)
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Não penso que a ideologia de gênero deva ser tema escola

Ricardo da Costa, assessor especial do Ministério da Educação
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Professor da Ufes desde 2000, Ricardo da Costa é pós-doutor em História Medieval e Filosofia Medieval. Está atuando como assessor do Ministério da Educação, desde Ricardo Vélez.

Como foi a reação dos seus colegas de Ufes quando nomeado?

Tem colegas que fazem campanha difamatória contra mim há muitos anos. Houve alguns dizendo que eu ia "trabalhar para o Bozo". O mais impactante foi o sindicato dos professores, que emitiu nota de repúdio a declarações que concedi à "Folha de S. Paulo".

Há uma presença forte da esquerda na Ufes.

Não só na Ufes, mas nas federais, de modo geral. Temos tradição de décadas de formação de esquerda. A Ufes, por ser de médio porte, tem algumas características de "retrógrada" porque muitos discursos que escuto são quase pré-queda do Muro de Berlim. Recebi convites, me ligavam dizendo que conseguiram atingir o coração do império. Essa coisa anti-EUA é muito antiga.

O desempenho do ministro Vélez levou prejuízo à política educacional?

Não creio. Isso porque nossa estrutura educacional é bastante burocratizada, além do fato de a autonomia universitária tornar o sistema, em muitos aspectos, quase autônomo. Os processos no MEC continuaram sua tramitação regular no sistema.

O ministro Weintraub incendeia as redes com declarações duras e polêmicas, às vezes contra a esquerda. Não se corre o risco de apenas substituir uma ideologia pela outra?

O resultado das eleições de 2018 foi o da substituição de uma ideologia por outra. Isso é fato inconteste. Haverá alguns reflexos na educação, naturalmente, pois as percepções dos processos educacionais são distintas, tanto pedagógica quanto metodologicamente. Por exemplo, nunca defenderemos qualquer politização da educação conforme apregoou Paulo Freire. Mas as primeiras percepções de mudanças de nossas ênfases educacionais só serão sentidas no final da administração Bolsonaro. Quanto às declarações do ministro, a cada ação corresponde uma reação, já nos ensinou Newton.

O senhor defende mensalidade nas universidades federais?

Sim. Mas essa é uma opinião particular, ressalto, não a do MEC. No mínimo, defendo que as universidades tenham o poder de decidir, a esse respeito, o que é melhor para si, conforme seu gerenciamento financeiro. Mas não só desse ponto de vista administrativo. Defendo algum tipo de cobrança nos mesmos moldes das universidades no exterior.

O debate sobre haver ou não haver, nas escolas, o que é chamado de ideologia de gênero é relevante para a educação?

Muito. Não penso que a ideologia de gênero deva ser tema escolar. Discussões sobre sexualidade podem acontecer a posteriori, em períodos mais avançados do desenvolvimento psíquico, quando a pessoa já está na fase adulta, preferencialmente na universidade, mas nunca como agenda política. A inserção da ideologia de gênero na educação básica contribuiu para diminuir o tempo mental da infância, de sua inocência. Acelerou sua sexualização.

Angélica Espinosa Barbosa

Angélica Espinosa, professora da Ufes, integra o governo Bolsonaro. (Arquivo Pessoal)

Ninguém me proibiu de falar nada ou de fazer nada Angélica Espinosa Barbosa, coordenadora no Ministério da Saúde

Angélica Espinosa Barbosa é médica e doutora em saúde pública. Deixou a Pró-Reitoria de Extensão da Ufes para virar coordenadora-geral de Vigilância das Infecções Sexualmente Transmissíveis, no Ministério da Saúde.

Como chegou ao governo Bolsonaro?

Comecei minha carreira, no início da década de 1990, na coordenação municipal de DST/Aids da Prefeitura de Vitória. Eram poucos médicos ginecologistas que atendiam mulheres com HIV. Comecei a fazer consultoria para o Ministério da Saúde desde aquela época. Venho fazendo nesse período todo, nos governos FHC, Lula, Dilma, Temer...

É uma relação de longa data com as pessoas do meio.

É antiga, perpassa governos.

Como foi o convite?

Está tendo uma mudança total no ministério. Este governo resolveu mudar, com a alegação de que Aids hoje é doença crônica e teria que estar junto com outras. Então, criou o Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis.

Como tem sido a reação de seus colegas da Ufes por conta de sua ida ao ministério?

Não observei nenhum problema. Sou do curso de Medicina, que é mais conservador. Recebi e-mails parabenizando, gente dizendo que seria boa a visibilidade para a Ufes, para o Hospital das Clínicas. No Campus de Goiabeiras, algumas pessoas ficaram meio horrizadas de eu vir trabalhar no governo neste momento. Mas tem mais de 30 anos que trabalho com HIV e, por isso, não foi um choque tão grande. Continuo a fazer o que eu já fazia, só que agora daqui.

Qual a função da senhora, exatamente?

A Secretaria de Vigilância em Saúde faz elaboração de políticas públicas de prevenção e assistência na área de infecções sexualmente transmissíveis para diminuir o impacto dessas questões. Precisamos, por exemplo, fazer a eliminação da transmissão da mãe para a criança, durante a gravidez, da sífilis e do HIV.

Discussões sobre DSTs às vezes acabam atrapalhadas por tabus. O perfil deste governo atrapalha nesse aspecto?

Quando cheguei aqui, no primeiro dia, tive que fazer a elaboração das campanhas, o que falar para prevenir o jovem de ter DST. Ninguém me proibiu de falar nada ou de fazer nada. Não teve nenhum bloqueio político ou ideológico.

As ideologias e convicções da senhora se assemelham de alguma forma com as do presidente?

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Nunca fui uma pessoa muito engajada politicamente. Quando trabalhava com o Reinaldo (Centoducatte, reitor da Ufes), ele até brincava perguntando como eu poderia estar na equipe dele. Aí me dizem que sou mais de direita exatamente por falar isso (risos). Sempre fui profissional liberal, funcionária pública, mas sempre quis o melhor para a universidade, para o governo, para o país. Não sou pró-Lula Livre, mas também não sou por armar a população inteira. Não tenho problema de trabalhar em nenhum governo, desde que eu possa fazer o que sei.

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