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Dieta paleolítica ganha mais adeptos a cada dia e vira estilo de vida

A dieta da vez, com alimentação basicamente pautada nos costumes da era paleolítica, vira moda e estilo de vida na cidade. Consumir açúcar? Nem pensar!

Para Paulo Lessa, a dieta é altamente nutritiva, sacia mais com menos calorias e melhora a digestão de alimentos
Para Paulo Lessa, a dieta é altamente nutritiva, sacia mais com menos calorias e melhora a digestão de alimentos
Foto: Marcelo Prest

Se o ditado diz que “éramos felizes e não sabíamos”, a verdade é que de uns 15 mil anos pra cá, a nossa dieta foi só piorando, o que nos faz ter a certeza de que “éramos saudáveis e não sabíamos”. Aliás, sequer suspeitávamos! E é justamente esse resgate milenar que pretende fazer a dieta paleolítica, também conhecida como paleo, que não para de ganhar adeptos de todas as idades em todas as partes do mundo, já que não possui contraindicações.

Um dos adeptos famosos é o presidente norte-americano Donald Trump, de 70 anos. Especialistas garantem que esse novo “estilo de vida” também previne doenças imunológicas e degenerativas, e até mesmo as mais complexas, como o câncer. A ideia é que a nossa alimentação seja, basicamente, pautada pelos costumes que tínhamos no período que compreende a era paleolítica, que terminou há cerca de 15 mil anos. “A indústria pode até ter mudado nossa dieta e estilo de vida, mas não mudou nossa genética. Assim, ao invés de nos alimentarmos de frutas, carnes e verduras, damos lugar às frituras, bolos e massas”, afirma o médico Paulo Lessa. Para ele, a paleolítica propõe uma volta às nossas origens, ajudando a diminuir o contato com alimentos inflamatórios e alergênicos. “Ela é altamente nutritiva, sacia mais com menos calorias, melhora a digestão e a absorção de alimentos. Também ajuda a perder peso”, complementa.

Banha de porco e carnes

Lessa explica que na dieta devem ser escolhidas refeições ricas em gorduras saturadas, como o óleo de coco, azeite de oliva, óleo de abacate e de macadâmia, manteiga Ghee e banha de porco. “Não podemos também esquecer da proteína animal, que inclui peixes, frango, carne vermelha, ovos, porco e frutos do mar”, diz.

Para ele, é um equívoco pensar que essas gorduras promovem o desenvolvimento de doenças como o câncer. Ela, inclusive, é até adotada por pacientes que são diagnosticados com a doença. Só que alimentos como o açúcar refinado, leite, laticínios, frituras, industrializados, sucos e refrigerantes são eliminados totalmente da dieta, assim como cereais como trigo, arroz, soja, feijão e milho.

Como o homem das cavernas

Para Barakat, a dieta é semelhante ao regime do homem das cavernas, à base de carnes, frutas, raízes e vegetais
Para Barakat, a dieta é semelhante ao regime do homem das cavernas, à base de carnes, frutas, raízes e vegetais
Foto: Divulgação

Queridinho entre as celebridades, Mohamad Barakat ficou ainda mais famoso após se lançar nas redes sociais e cair nas graças do povo pelo seu estilo de vida e hábitos saudáveis. “Na Era Paleolítica, éramos cercados de hábitos extremamente rústicos, sem facilidades tecnológicas a que estamos habituados hoje. A sobrevivência era pautada na caça, pesca e extrativismo rudimentar. Pode parecer um tanto ‘bárbaro’, mas era saudável”, diz.

Para Barakat, a dieta é semelhante ao regime do homem das cavernas, à base de carnes ‘in natura’, frutas, raízes e vegetais. “A maioria das doenças que a sociedade enfrenta hoje é oriundas de uma alimentação errada, em que os industrializados são verdadeiros vilões. A dieta paleolítica faz bem justamente porque adota o consumo de produtos orgânicos, exclui os industrializados e processados e os açúcares. A proposta é que se divida o prato em 40% hortaliças, 30% carnes, peixes e frutos do mar, 20% frutas e tubérculos e 10% de oleaginosas”, pondera. O recomendado é que as carnes sejam assadas em fornos em até 220 graus.

Barakat ressalta que com o passar do tempo, o homem deixou de viver pouco por traumas, acidentes e falta de saneamento, mas, em compensação, passou a ser dependente da indústria farmacêutica. “A alimentação feita a partir apenas de refinados, processados e alto consumo de carboidratos tem gerado a acidificação dos organismos. Só pra termos uma ideia, o pH natural do ser humano está em torno de 7.4 – levemente alcalino. Com o consumo elevado de produtos de pH alto, o homem atinge até 4.0 – o que equivale ao índice de um indivíduo com câncer, por exemplo”, alerta. O médico revela que nesses casos, a pessoa se torna mais suscetível às doenças autoimunes e degenerativas.

Gordura natural

Estela Reginatto diz que nesse regime comemos quando estamos  com fome
Estela Reginatto diz que nesse regime comemos quando estamos com fome
Foto: Marcelo Prest

A nutricionista Estela Reginatto explica que as gorduras que devem ser ingeridas são: abacate, açaí, oleaginosas, castanhas, coco, óleo de dendê e de palmiste, manteiga e azeite. Essas, segundo ela, não desencadeiam os processos cancerígenos. Já oxidadas e poliinsaturadas, como o óleo de soja, óleo de milho, de canola, girassol e algodão podem fazem surgir processos cancerígenos.

Ao seguir a dieta paleolítica, segundo ela, há um aumento de alimentos antioxidantes e anti-inflamatórios de forma natural. “Com isso, há também uma modulação do processo inflamatório em cada célula do corpo”, diz ela, destacando que nesse estilo de vida a ingestão de probióticos também aumenta, o que melhora a microbiota intestinal, resultando numa modulação excelente dos mecanismos endócrinos, neurológicos, imunológicos e ainda favorece a melhor absorção de nutrientes. E mais: há uma modulação do hormônio GH, responsável pelo crescimento e pela renovação celular. “Nesse regime comemos quando estamos com fome, logo, proporcionamos um melhor equilíbrio da insulina, cortisol e da adrenalina, nos ajudando a ter pulsos de GH mais otimizados durante todos os dias”.

Dieta precisa ser individual

A nutricionista Roberta Larica explica que qualquer dieta precisa ser individualizada, até mesmo a paleolítica. “Para que seja ajustado o aporte ideal de proteínas, fitoquímicos e carboidratos de acordo com a necessidade do indivíduo”, explica. Ela ressalta ainda que é importante lembrar que, ao adotar uma dieta paleolítica, é preciso atenção. “Muitas vezes ao adotar este tipo de dieta, que é indicada para atletas de crossfit e pessoas que querem reduzir inflamação - porque é uma dieta que não utiliza aditivos químicos e alimentos processados - mas muitas vezes é uma dieta que tem excesso de proteínas. E se a pessoa não souber escolher as proteínas de qualidade, como por exemplo o excesso de carnes vermelhas, isso pode aumentar a inflamação. Porque as carnes vermelhas são fontes de gorduras saturadas”, explica.

A nutricionista explica ainda que se as carnes não preparadas em baixa temperatura, pode trazer alguns danos. “Pode aumentar inflamação, lesão e doenças inflamatórias e o aumento de colesterol. “É preciso ter controle na ingestão e proteínas e na qualidade delas”.

Resultado na primeira semana

“Adoro proteína, sou carnívoro. Aprendi a comer saladas e muita carne”
“Adoro proteína, sou carnívoro. Aprendi a comer saladas e muita carne”
Foto: Marcelo Prest

O jornalista Gabriel Gomes, de 40 anos, conta que quando se viu pesando 100 quilos ficou preocupado. “Vi que era hora de mudar meu estilo de vida, e logo busquei acompanhamento médico. Após algumas consultas, já entendia como funcionava cada alimento e como cada um deles age no meu organismo”, diz ele, que começou a dieta paleolítica há exatos oito meses.

As mudanças vieram na primeira semana, e o peso, segundo Gomes, começou a cair. “Meu intestino já dava sinais de regularidade, disposição, coisas que eu não sentia há tempos”, brinca. Ele também combina a dieta com suplementação. “Nos três primeiros meses a suplementação foi escolhida porque no meu exame foi constatada falta de vitaminas”, justifica.

Gabriel se sente satisfeito com o resultado. “É claro que a gente se sente melhor! Usar calça 42, vestir uma camisa tamanho médio, ter disposição para correr, malhar, sem contar que raramente sinto alguma dor de cabeça ou dor no corpo”, afirma. O jornalista também diz que tirou de letra a adaptação ao novo estio de vida. “Adoro proteína, sou carnívoro. Aprendi a comer saladas e muita carne. A questão do preço pode ser trabalhada. O caro é o industrializado, e isso eu não uso mais”, conta ele que, mesmo nesse novo estilo de vida, não teve que deixar de frequentar as festas. “Trabalho com eventos. Antes eu ficava olhando e bebendo água, hoje já não me assusto mais com isso. Não vou dizer que não como, porém de forma consciente e moderada”.

“Após três meses, estava adaptada”

“Cortei farinhas e outros produtos (...). Comer comida de verdade não é caro”
“Cortei farinhas e outros produtos (...). Comer comida de verdade não é caro”
Foto: Guilherme Ferrari

A farmacêutica Raigna Vasconcellos, de 40 anos, adotou a dieta paleolítica há quase dois anos, e foi aos poucos cortando os alimentos não permitidos, como farinhas e produtos industrializados. “Ao final de três meses eu estava bem adaptada”, diz. A primeira mudança perceptível foi o funcionamento intestinal. “Menos flatulência e sem ficar enfastiada”, completa.

Raigna garante que junto à dieta repõe uma série de vitaminas. “Isso não é necessário. A dieta bem feita fornece todos os macro e micro nutrientes que o organismo precisa. Eu suplemento para diminuir a oxidação e melhorar a performance, afinal, meu ritmo de trabalho é muito desgastante”, complementa. “Atualmente eu me sinto muito satisfeita com os resultados”, comemora.

Ela também afirma que não é caro fazer essa dieta. “Comer comida de verdade não é caro”, diz aos risos. “Pra mim, o mais difícil é resistir ao pão caseiro”, brinca. Raigna também pratica regularmente exercícios físicos.

Ela explica que algumas privações são necessárias. “Me privo sim. Faço escolhas e tenho controle do que vou comer. Às vezes de forma consciente me permito uma guloseima, afinal, ninguém é de ferro. Mas se faço isso, volto pra dieta logo depois da última mordida. Não caio nessa de que já que ‘jaquei’, vou atolar os dois pés. Isso é um erro grave e o melhor é se manter no controle”, pondera.

“É um estilo de vida saudável”

“A parte mais difícil é fazer as pessoas entenderem que não é dieta, é um estilo de vida saudável”
“A parte mais difícil é fazer as pessoas entenderem que não é dieta, é um estilo de vida saudável”
Foto: Marcelo Prest

A empresária Débora Azevedo, de 37 anos, diz que começou o novo estilo de vida há um ano. “Em fevereiro de 2016 tive um problema sério na coluna, que me fez ficar de repouso por cinco meses, e a paleolítica foi a forma que eu encontrei de não ‘pirar’ de vez”, diz. Ela conta que ficou com medo de engordar e começou a estudar sobre o assunto e os benefícios para a saúde. “O que para mim também foi essencial, porque quero engravidar bem e com saúde do meu primeiro filho”, completa.

Segundo ela, ao total foram nove quilos eliminados de gordura. “Hoje tenho 1,55m e 55 quilos, sendo esse meu peso ideal. Mantenho o peso há cinco meses, e estou há um ano sem nenhum tipo de atividade física. E a cada mês que passa, emagrecemos gramas e diminuímos as medidas, além dos exames, que mostram que está tudo bem”, complementa.

Ela diz que está muito satisfeita com a mudança, e que acabou levando a família para essa onda fitness. “Acabei influenciando a minha família e amigos, que hoje se beneficiam desses resultados”. Débora também garante que não é um regime caro de se manter. “O que tem o custo maior são as oleaginosas e seus derivados”, explica. “Atualmente, a parte mais difícil é fazer as pessoas entenderem que não é dieta, é um estilo de vida saudável”.

Ela não deixou de sair. “Existe vida social. É só saber fazer suas escolhas. Bebo água com gás e limão, nos petiscos escolho queijos amarelos, ovos de codorna, azeitona e carnes, e quando tenho vontade de comer um pão, uma torta ou um doce, eu como”. No Instagram mostra suas escolhas em levar um estilo de vida saudável.

Ela segue uma vertente da paleolítica

"Já me preocupei mais com a origem dos alimentos. Mas, para quem tem uma vida normal, fica complicado"
"Já me preocupei mais com a origem dos alimentos. Mas, para quem tem uma vida normal, fica complicado"
Foto: Bernardo Coutinho

Para a servidora pública Isabela Pantaleão, de 34 anos, que é adepta de rotinas mais saudáveis desde o fim de 2014, as primeiras impressões sobre a dieta paleolítica foram positivas. Ela decidiu seguir, após experiências com regimes de baixa ingestão de carboidratos, a vertente da paleolítica chamada da Primal. Isabela se sentiu, de cara, mais desinchada, ficou com mais disposição nas tarefas diárias e ainda emagreceu “de verdade”, como a própria classifica a perda de peso. Foram sete quilos eliminados. “Tive melhora em vários outros aspectos, inclusive na minha psoríase, que é uma doença autoimune que afeta a pele”, conta.

O maior obstáculo atualmente é obedecer à regra as orientações da dieta paleolítica “original”. “Hoje me considero uns 70% paleolítica”, brinca. “Já me preocupei mais com a origem dos alimentos por exemplo, mas chega um momento que para quem tem uma vida normal, trabalha e cuida das coisas sozinha fica complicado se ater tanto a tantos detalhes”, esclarece. Ela afirma que segue uma vertente da paleolítica chamada de Primal, que, para ela, é mais próxima da realidade.

Uma das coisas mais legais que ela aprendeu com a dieta foi a ideia de sempre fazer a melhor opção dentre as possíveis. “Aprendi a não me culpar por viver dentro do possível, fazendo o melhor dentro daquilo que está ao meu alcance, sem neuras”. Ela diz que no início foi criticada e que as pessoas não entendiam a essência da paleolítica. Isabela rebate dizendo que esses mesmos colegas a procuram para tirar dúvidas sobre o novo estilo de vida. “Faço a dieta com a orientação de uma nutricionista, que me ajuda sempre a evoluir quando dou uma estacionada. Também compartilho minha rotina no Instagram”, frisa.

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