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Ilhéus reserva destinos para quem quer conhecer fazendas de cacau

O Sul da Bahia reserva boas surpresas para quem quer fugir da rota tradicional de turismo e comer chocolate

Fundada na segunda metade do século 20 pelo coronel Adami de Sá, a Fazenda Provisão possui uma belíssima área verde e é aberta ao turista
Fundada na segunda metade do século 20 pelo coronel Adami de Sá, a Fazenda Provisão possui uma belíssima área verde e é aberta ao turista
Foto: Ana Lee/Divulgação

Muito conhecida pelos escritos de Jorge Amado e por ter sido cenário de “Gabriela, Cravo e Canela”, a cidade de Ilhéus, no Sul da Bahia, geralmente é destino dos turistas que não abrem mão de calor e de boas praias. Não é à toa, já que o município é detentor do litoral mais longo do território baiano, com quase 100 km de extensão.

O que nem todo mundo sabe, porém, é que a região viveu seu auge principalmente durante os anos 1920, época em que o cacau garantiu o enriquecimento de diversas famílias que exportavam o produto principal utilizado para a fabricação do chocolate. Após anos e anos de prosperidade, a chegada da praga chamada vassoura-de-bruxa arrasou as lavouras de cacau locais, em meados de 1989.

Moqueca baiana preparada com caçonete
Moqueca baiana preparada com caçonete
Foto: Ana Lee/Divulgação

Ainda se reerguendo e aprendendo a conviver com o problema, a cidade reserva bons destinos para quem está disposto a conhecer como funciona uma lavoura cacaueira, do plantio à secagem das amêndoas (como são chamados os “caroços” do cacau), além de descobrir diferenças entre os mais diversos tipos de cacau.

A primeira parada é em uma das fazendas abertas à visitação do público. Fundada na segunda metade do século 20 pelo coronel Adami de Sá, a Fazenda Provisão dispõe de uma belíssima área verde. Situada no km 27 da Rodovia Ilhéus-Uruçuca, às margens do Rio Almada, a propriedade hoje é administrada por herdeiros, que se dividem entre a exploração do cacau e a promoção do turismo na região.

É Roberto Novaes, que integra a sexta geração da família, quem cuida da fazenda de 400 hectares, sendo mais de 150 deles com o fruto. Roberto, que trabalhou como corretor de imóveis em Salvador por anos e depois cursou gastronomia, resolveu investir e dedicar esforços para transformar a propriedade em um destino turístico, com direito a hospedagem, visitação histórica, e um banquete baiano de encher a boca d’água, além de muito chocolate.

O casarão, datado da década de 1970, preserva o mobiliário da época, em sua maioria produzido com madeiras de lei. No almoço típico, que deve ser marcado com antecedência por telefone, entram em cena a tradicional moqueca baiana, geralmente feita com caçonete, farofa de dendê e outros bons pratos, como a galinhada. Tudo preparado cuidadosamente pelas mãos de Roberto e servido no alpendre, ao lado esquerdo do casarão. Depois, vale a pena bater perna pela área da fazenda e apreciar as barcaças onde a amêndoa do cacau passa pela secagem.

Sempre com um sorriso largo, Dadá Galdino recebe cada um dos visitantes da Fazenda Yrerê
Sempre com um sorriso largo, Dadá Galdino recebe cada um dos visitantes da Fazenda Yrerê
Foto: Ana Lee/Divulgação

Acolhimento, passeio e sabor

Logo na entrada da Fazenda Yrerê, localizada na Rodovia Jorge Amado, é o sorriso largo e a conversa mansa de Dadá Galdino que recebe – e muito bem – cada visitante. Ao lado do marido, Gerson Marques, Dadá administra a propriedade e cuida com carinho de cada detalhe. A casa aberta à visitação é a casa em que o casal mora. Com decoração colorida e extremamente aconchegante, o local faz um convite quase irrecusável a uma visita ao “mundo offline”.

Em um passeio que dura cerca de duas horas, os anfitriões apresentam uma pequena trilha à sombra da Mata Atlântica, com direito a pés de cacau pelo caminho. É Gerson quem faz questão de ressaltar cada detalhe do local durante a caminhada, da história da propriedade, que acumula mais de dois séculos, a informações sobre a qualidade e o plantio do cacau.

Com um facão, ele abre alguns frutos fresquinhos, tirados direto do pé, e permite que os convivas se esbaldem na polpa branquinha, bastante carnuda e saborosa – mas que não lembra, nem de longe, o gosto do chocolate.

Além do turismo rural, da fabricação de móveis rústicos e artesanatos, o casal apostou recentemente em uma marca própria de chocolates finos, feitos com amêndoas selecionadas. Estão disponíveis nas versões 54% e 70% cacau.

Grandes sofás macios e coloridos, bancos rústicos ou até mesmo uma rede convidam os visitantes a um descanso após a andança em meio ao verde. Para os turistas que não abrem mão de sair dos lugares sem provar uma guloseima, Dadá prepara, com suas mãos de fada, um bolo de chocolate caseiro de comer rezando. Não deixe de provar também o suco de cacau bem geladinho.

Os altos e baixos da produção do cacau

1920 a 1930

Chocolate
Chocolate
Foto: Ana Lee/Divulgação

O auge: Na época, a cidade vivia seu grande momento, quando os coronéis do cacau enriqueceram por meio da exportação da principal matéria prima do chocolate: a amêndoa da fruta. O que não faltam são histórias da época, todas temperadas pelo imaginário da população local. Alguns nativos dizem que, entre os coronéis mais abastados, havia os que viajavam ao Rio de Janeiro apenas para cortar os cabelos, como uma forma de ostentação. Outros chegavam a passar seis meses por ano em Paris, com direito a motorista particular e tudo.

1980

A decadência: Em meados da década de 1980, a produção brasileira de cacau era de cerca de 400 mil toneladas por ano. No finalzinho da década, já em 1989, com a chegada da vassoura-de-bruxa, o faturamento local caiu muito, levando várias famílias à falência. Segundo registros, mais de 300 mil pessoas ficaram desempregadas em Ilhéus e nas imediações.

Anos 2010

A recuperação: Recentemente, a Bahia voltou a participar do mercado mundial do cacau, do qual estava afastado havia mais de 20 anos. A Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), vinculada ao Ministério da Agricultura, garante estudos e levantamentos para que os produtores convivam com a praga e tenham amêndoas de alta qualidade produzidas.

Serviço

Fazenda Yrerê - Rodovia Jorge Amado, Vila Cachoeira, Ilhéus - BA. Funcionamento: Segunda a sábado, das 9h às 16h. Domingos, das 9h às 12h. Entrada: R$ 30, por pessoa (é preciso agendar as visitas). Informações: (73) 3656-5054, (73) 99998-6790 ou www.fazendayrere.blogspot.com.

Fazenda Provisão Rodovia Ilhéus – Uruçuca, km 27. Funcionamento: Segunda a sábado, das 9h às 17h. Entrada: R$ 30 por pessoa, sem almoço; R$ 60, por pessoa, com almoço. Também é preciso agendar as visitas. Informações: ou (71) 99205-4710, (71) 99624-4647 ou www.fazendaprovisao.com.br.

 

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