Notícia

História da torta capixaba: surgimento do preparo à degustação na Semana Santa

O prato foi criado ao receber influências da cultura portuguesa, indígena e africana, além da fartura de peixes no litoral do Espírito Santo

A Semana Santa é um período em que boa parte dos cristãos ficam em abstinência de carne vermelha. Mas o que representa este sacrifício acaba sendo compensado pela tradição de apreciar a torta capixaba - prato praticamente obrigatório na mesa de todas as famílias do Espírito Santo. A origem do prato ultrapassa 400 anos, e ele é fruto, principalmente, das tradições de comunidades litorâneas e das vilas de pescadores que viviam à beira das praias e dos manguezais.



O prato foi criado ao receber influências da cultura portuguesa, indígena e africana, povos mais antigos do território capixaba. Preparado unicamente no Espírito Santo, a torta é considerada o prato mais nobre da culinária capixaba, como avalia o escritor e jornalista Cacau Monjardim.



“Ela começou, inclusive, no nosso litoral. Porque devido à grande fartura de peixes, à qualidade do litoral piscoso do nosso país, a gente tinha acesso a isso. Com a influência religiosa que impedia e sugeria que fosse mantido um jejum de carne durante a Quaresma, a torta foi nascendo, ao lado da nossa tradicional moqueca. Ela é uma espécie de pão do mar”, disse à Rádio CBN Vitória.



Cacau aponta que a tradição de preparar a moqueca teve mais força em Vitória, e principalmente na Ilha das Caieiras, devido à proximidade tanto do mar quanto do mangue. No bairro, inclusive, é realizado o Festival da Torta Capixaba, durante o feriado da Semana Santa.



Dona Tânia Maria Gomes da Silva, de 69 anos, é uma das cozinheiras tradicionais no preparo da torta capixaba

Entre as cozinheiras e desfiadeiras mais antigas, há várias versões sobre como a receita da torta capixaba foi criada. A cozinheira Tânia Maria Gomes da Silva, de 69 anos, conta que tudo começou com os mariscos, e só um tempo depois é que o bacalhau foi incorporado.



“É que antigamente eles tiravam a puã do caranguejo para fazer o mexido. Aí foram desfiando, os mais velhos, aí com o siri desfiado, o camarão, o palmito, foram só acrescentando e se formou a torta capixaba”, disse à Rádio CBN.



Já dona Euza Correia, de 79 anos, conheceu primeiro a outra versão da torta.



“A minha mãe fazia, quando eu era pequena, e eu me lembro, e era só palmito e bacalhau. Onde a gente morava, em Santa Leopoldina, não existia mariscos. Então ela veio de lá para cá, em teve aqui, e aí de um certo tempo para cá a gente começou a usar o marisco, mais ou menos uns 40 anos, por aí”, lembrou.



Quando a região passou a ser mais fortemente habitada, se consolidou o hábito de preparar a torta durante a Semana Santa. Além disso, os moradores trocavam pedaços do prato, provando suas mais variadas versões, como conta a desfiadeira Cristiane Barbosa, de 40 anos.



“Antigamente, quando não tinha esse festival de torta que tem agora, os pais da gente faziam a torta em casa e a gente trocava os pedaços. Cada um levava um pedaço para um vizinho, cada um experimentava a torta um do outro. Aí com o festival de torta, a gente vem para as ruas vender a torta agora”, disse à CBN.



Agora, há 11 anos envolvidos com os trabalhos de venda da torta para o festival, esse é o período em que a comunidade aproveita para difundir o prato para os turistas e faturar dinheiro extra. O quilo da torta capixaba está sendo vendido este ano a R$ 90 para a versão com mariscos, e a R$ 100 para a que possui só bacalhau e palmito. Mas porções pequenas podem ser encontradas a partir de R$ 5.

Ver comentários