Notícia

Desfigurado pelo curso da história

Era o ano de 1712 quando os jesuítas realizaram a primeira obra de engenharia de transposição de águas de uma bacia hidrográfica para outra que se tem notícia no Brasil. Eles ligaram o Rio Marinho ao Rio Jucu e o Marinho passou a ser o principal canal de escoamento da Fazenda Araçatiba, de propriedade dos religiosos.

- Veja infográfico sobre a bacia do Rio Marinho

Durante os mais de 300 anos depois, o rio passou por muitas outras transformações e até mesmo um novo canal foi construído, desta vez para captação de água, na década de 1950. Mas foi nos últimos 50 anos que o Rio Marinho passou a ser atingido por seu maior algoz: o despejo de esgoto in natura.

A casa de Laura e Jair tem a frente e os fundos voltados para o Rio Marinho. No local onde há décadas eles já tomaram banho e pegaram peixes, hoje a situação é outra: A gente nem coloca a mão aí dentro. O esgoto é tirado das casas e cai todo dentro do valão, diz ele.
A casa de Laura e Jair tem a frente e os fundos voltados para o Rio Marinho. No local onde há décadas eles já tomaram banho e pegaram peixes, hoje a situação é outra: A gente nem coloca a mão aí dentro. O esgoto é tirado das casas e cai todo dentro do valão, diz ele.
Foto: Fernando Madeira

O passado de meio de transporte e fonte de água potável ficou para trás. As obras, que ainda incluíram uma ligação forçada ao Rio Formate, em Cariacica, e a ocupação desordenada das margens em meio ao processo de industrialização da Grande Vitória provocaram a morte do Rio Marinho, ao menos no imaginário coletivo, que hoje o associa a um valão poluído.

O arquiteto Juliano Motta mostra a região onde o Rio Marinho começa, em um ponto de encontro com o Rio Formate, no bairro Caçaroca, em Cariacica. Perto dali também foi feita uma obra pelos jesuítas para facilitar o escoamento da produção da Fazenda Araçatiba.
O arquiteto Juliano Motta mostra a região onde o Rio Marinho começa, em um ponto de encontro com o Rio Formate, no bairro Caçaroca, em Cariacica. Perto dali também foi feita uma obra pelos jesuítas para facilitar o escoamento da produção da Fazenda Araçatiba.
Foto: Fernando Madeira

A desfiguração pela qual o rio passou, no entanto, não ocorreu sem protestos. Ainda no século XVIII, moradores da região questionaram, sem êxito, a ação dos jesuítas na construção do canal. “Como os jesuítas eram as pessoas mais poderosas do Estado na época, a obra foi feita. E, depois dela, os próprios moradores tinham que pagar uma espécie de pedágio para atravessar o rio”, conta o historiador Estilaque Ferreira, autor do livro “Uma devassa contra os jesuítas no Espírito Santo”.

 

Foto:

Já a captação de água no Rio Marinho também remonta a tempos antigos, mas nem tão antigos assim. Para suprir a deficiência da Vila de Vitória, o rio era utilizado como fonte de abastecimento de forma primitiva, por meio de barris em canoas. Já no ano de 1956, começou a coleta de água por meio de um canal construído para este fim. “Na década de 1970 com todas essas transformações e com o Rio Formate jogando suas águas no Rio Marinho, a implantação de indústrias, o grande crescimento populacional e urbano sem planejamento adequado, com falta de esgotamento sanitário, fez com que a captação de água no Rio Marinho ficasse muito cara. Era complicado fazer o tratamento da água. Então o governo, em vez de pensar em tratar essa água e recuperar o rio, preferiu abandonar a estrutura existente e buscar água no Rio Jucu”, conta o arquiteto Juliano Motta, mestrando da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), que estuda o Rio Marinho.

Em Cobilândia, Vila Velha, hoje é possível ver os dois cursos – o rio original e o canal de 1956 – correndo paralelamente. Os dois cheios de lixo e de esgoto. O rio original está ainda mais degradado.

O aposentado Jair Lima, de 64 anos, mora há 19 anos bem no meio dos dois “valões”. “Há 52 anos que moro aqui na região, já tomei muito banho, peguei muito peixe no Rio Marinho, mas depois os moradores foram vindo, a poluição foi vindo, foram jogando esgoto, lixo, é cachorro morto, tudo”, conta. Os dejetos da casa do próprio aposentado também são jogados no rio. “Existem uns canos (de uma antiga rede de esgoto), só que entupiu tudo”, diz Lima. Mesmo longe dali é comum ver os canos que saem das casas e despejam o esgoto, sem nenhum tratamento.

 Rede de tratamento

De acordo com a Cesan, dos 71.755 imóveis existentes na bacia de contribuição do Rio Marinho (o que corresponde a 62 bairros de Vila Velha e Cariacica), 49% não estão ligados à rede de esgoto, sendo que, desses, 37% não têm mesmo como se ligar à rede porque ela ainda não foi construída e 12% dos imóveis estão em área com rede, mas ainda não se conectaram.

E ainda há quem duvide da eficiência do tratamento, quando ele está presente. Nas imediações do Rio Marinho há duas Estações de Tratamento de Esgoto (ETE), a de Jardim Botânico e a de Bandeirantes. Ex-presidente do Iema e ex-secretário de Meio Ambiente de Cariacica, o engenheiro civil Claudio Denicoli diz que já observou o efluente – o esgoto tratado – que sai da Estação de Jardim Botânico e até pediu uma análise à Cesan. O resultado, de acordo com ele, foi o pior possível.

 

Foto:

“Nessa estação o esgoto sai mais sujo do que entra”, afirma Denicoli. Integrante da ONG Guardiões do Rio Mar, o ambientalista Francisco de Morais diz que a água que sai das ETEs desperta, no mínimo, suspeitas. Procurada pela reportagem, a Cesan informou que a estação de Jardim Botânico foi transformada em uma elevatória para reversão do esgoto coletado para a ETE Bandeirantes. Já a de Bandeirantes, ainda segundo a companhia, “opera com alta eficiência, conforme demonstra o histórico de análises laboratoriais de 2016”.

Em meio a meandros desfeitos, canalizados e poluídos, o Rio Marinho original se junta ao canal artificial e deságua na Baía de Vitória entre a Segunda Ponte – que, aliás, teve seus pilares construídos no leito do rio – e a Cinco Pontes. Dados da ONG SOS Mata Atlântica de fevereiro de 2017 e do Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema) relativos a 2013 mostram que a qualidade da água do Rio Marinho é péssima.

“Tratar o esgoto é essencial, mas achar que um dia você vai beber a água do Rio Marinho é utopia. Ele pode melhorar a qualidade de vida de forma recreativa, paisagística. Mas para captação, muito difícil”, avalia o diretor de planejamento da Agência Estadual de Recursos Hídricos (Agerh), Antonio de Oliveira Junior.