Notícia

Era para ser solução. Virou problema

Enquanto hoje motoristas e comerciantes contam os dias para o fim das obras de ampliação da Avenida Leitão da Silva, em Vitória, o canal que corta os dois sentidos da via usufrui de seus últimos meses com luz solar e ventilação disponível.

Data: 26/05/2017 - ES - Vitória - Avenida Leitão da Silva, em Vitória - Pauta especial sobre os rios urbanos
Data: 26/05/2017 - ES - Vitória - Avenida Leitão da Silva, em Vitória - Pauta especial sobre os rios urbanos
Foto: Fernando Madeira

O curso d’água mais visível da Capital é um resquício do fechamento do mangue que existia na região. Em breve, ele vai dar lugar a mais uma pista para veículos e uma ciclovia, passando por cima das águas que tornaram-se viscosas pela poluição, e do mau cheiro característico de um dos mais importantes eixos viários da cidade.

Construído na década de 1970, o canal da Leitão da Silva era um braço de mar que foi aberto artificialmente para fazer a drenagem das águas da região, muito sujeita a alagamentos por ser área de mangue, propícia à ação das marés. Localizado em um vale, ele funciona também como um receptor de águas que descem dos morros e deságua na Baía de Vitória nas duas pontas: no bairro Andorinhas e na Ilha da Fumaça, próximo à Avenida Beira-Mar.

OCUPAÇÃO

Foi graças ao canal da Leitão da Silva que foi possível a ocupação dos 15 bairros de seu entorno. “A avenida foi projetada por Saturnino de Brito no final do século XIX e se chamava Norte-Sul. Mas foi somente com o grande fluxo migratório da década de 70, quando chegaram as indústrias da Capital, que os aterros planejados foram concretizados. Mas com eles houve uma onda de ocupações irregulares”, narra o geógrafo Vinícius André Netto, que fez um estudo sobre a via.

Em sua pesquisa sobre a história da Avenida Leitão da Silva, Vinícius Netto observou que os projetos para a via sempre se restringiram à questão viária. “Os manguezais eram malvistos. Agora, não se pensa em recuperar a água do canal”, frisa.
Em sua pesquisa sobre a história da Avenida Leitão da Silva, Vinícius Netto observou que os projetos para a via sempre se restringiram à questão viária. “Os manguezais eram malvistos. Agora, não se pensa em recuperar a água do canal”, frisa.
Foto: Fernando Madeira

Enquanto a leste da Leitão da Silva há ruas largas e ocupação mais planejada, a oeste predomina a ocupação não projetada, inclusive em áreas de encosta. A maior complexidade de construção de rede de esgoto nesses locais faz com que 22% dos 20.097 imóveis da área abrangida pelo canal ainda não possuam rede de esgoto disponível para fazer a ligação. Outros 16% dos imóveis da região possuem rede, mas não se ligaram a ela e 62% estão ligados, segundo dados da Cesan.

A cobertura do canal da Leitão da Silva, apesar de ser uma demanda de parte da população, não é unanimidade entre especialistas. “Ao mesmo tempo em que várias cidades do mundo estão tentando aumentar a permeabilidade, temos Vitória impermeabilizando área e impedindo o escoamento natural das águas”, aponta o pós-doutor em engenharia sanitária Ricardo Franci. “É um erro. Na China, por exemplo, estão investindo para transformar as cidades em esponjas para reter água de chuva e usá-la no ambiente urbano. É o oposto que estamos fazendo”, destaca.

“Independentemente de estar coberto, tem água lá”, lembra o doutor em ciência ambiental Luiz Fernando Schettino.