Águas passadas: os rios que viraram história no cotidiano capixaba


É pau, é pedra, é lixo ... É o fim do caminho?

Canal da Costa, em frente ao Shopping Praia da Costa, em Vila Velha
Canal da Costa, em frente ao Shopping Praia da Costa, em Vila Velha
Fernando Madeira

O odor é desagradável, a cor não parece ser natural, assim como o lixo, que varia de colchões e aparelhos de TV a vasos sanitários. Para constatar o despejo de esgoto nos rios urbanos da Grande Vitória não é preciso nem mesmo localizar os canos que saem das casas em direção à água. Um breve olhar o revela. Mas esse triste cenário nem sempre foi assim. Os cursos d’água foram responsáveis pela subsistência de populações inteiras e pelo transporte de mercadorias em um passado nem tão distante. Hoje, os outrora rios, córregos e braços de mar são mais conhecidos como valões ou canais; ignorados tanto pelo poder público quanto pela própria população que convive com eles todos os dias ao morar em suas margens ou ao passar por eles. Viraram águas passadas.

Alguns desses (des)casos serão representados nesta reportagem – que se estenderá até a próxima quarta-feira – como exemplos do que foram, do que se tornaram e do que ainda podem vir a ser o Rio Marinho, que divide os municípios de Vila Velha e Cariacica; o Canal da Costa (originalmente Rio da Costa), em Vila Velha; o Canal da Avenida Leitão da Silva e o Córrego Jucutuquara, em Vitória. A Lagoa Jacuném, na Serra, que recebe o fluxo de três córregos, também será retratada. Todos tiveram seu papel na história.

“Os rios tiveram uma importância extraordinária. Eram estradas líquidas e meios de sobrevivência. Estamos destruindo nossa história mais profunda, o que tem a ver com nosso modo de vida. Capixaba é isso, gente do ambiente da água, do estuário, da foz, de coleta, pescadores, gente simples. A agressão aos rios é uma agressão à própria identidade do capixaba”, afirma o historiador Estilaque Ferreira.

Canal da Costa, em frente ao Shopping Praia da Costa, em Vila Velha
Canal da Costa, em frente ao Shopping Praia da Costa, em Vila Velha
Foto: Fernando Madeira

PANORAMA

A situação dos rios que passam em meio às cidades da Grande Vitória não é uma exclusividade. O levantamento “Observando os Rios”, da ONG SOS Mata Atlântica, com dados de fevereiro de 2017 referentes a 73 municípios de 11 Estados (inclusive o Espírito Santo), revela que somente seis entre 240 pontos de coleta de água monitorados apresentam boa qualidade. De forma geral, 70% são apenas regulares e 27,5% são ruins ou péssimos. A principal causa da degradação é o despejo de esgoto doméstico sem tratamento ou com baixa eficiência de tratamento.

“O principal problema dos nossos rios é que há muito esgoto bruto lançado neles. Tem o discurso de que a população não se liga à rede. Mas a cobertura é deficiente. Os rios urbanos cortam áreas que têm coleta e tratamento e áreas onde não tem”, destaca o pós-doutor em engenharia sanitária Ricardo Franci Gonçalves.

O desmatamento e o uso desordenado do solo também estão na lista. “Os políticos, para ganhar voto, facilitaram a ocupação irregular, as invasões”, lembra o ambientalista Eduardo Pignaton. Casas construídas quase dentro dos rios, muitas vezes de costas para eles, são um lembrete do resultado dessas ocupações.

E a relação entre eleitores e eleitos é mais uma questão primordial para garantir que tudo permaneça como está. “O legal é pedir hospital, posto de saúde, que é coisa que político adora inaugurar. Mas o que evita a doença (o saneamento básico) não faz. É enxugar gelo”, avalia o presidente do Instituto Trata Brasil, Édison Carlos.

A arquiteta Maria Cecília Barbieri Gorski, autora do livro “Rios e cidades: ruptura e reconciliação”, lembra que saneamento é um investimento que ultrapassa várias gestões.

“Ninguém cobra saneamento básico porque não vai ser resolvido em quatro anos (tempo de duração dos mandatos de prefeito e governador, por exemplo). Os políticos têm que ver que isso pode trazer votos. Mas somente se os eleitores tiverem interesse”, afirma.