Notícia

André Stein: "Estou me colocando entre os grandes do vôlei de praia"

Campeão da Copa do Mundo aos 22 anos, o atleta mantém a dinastia capixaba na elite do esporte

Se há um esporte em que o Espírito Santo reina absoluto, este é o vôlei de praia. Ao longo de décadas, grandes lendas como Loiola, Fábio Luiz, Larissa, e mais recentemente os campeões olímpicos Alison e Bruno Schmidt (esse brasiliense, mas radicado há anos por aqui), levaram o Estado para o lugar mais alto do pódio ao redor do mundo.

André Stein chegou ao lugar mais alto do pódio da Copa do Mundo de Vôlei de Praia com apenas 22 anos
André Stein chegou ao lugar mais alto do pódio da Copa do Mundo de Vôlei de Praia com apenas 22 anos
Foto: Divulgação/FIVB

Agora mais um capixaba pede passagem. Ao lado do parceiro carioca Evandro, e do alto dos 2,01 metros de altura que possui, André Stein, de Vila Velha, conquistou a Copa do Mundo da modalidade, no último domingo, em Viena, na Áustria. Uma conquista inédita, que apenas perde em importância para os Jogos Olímpicos. Para o jovem de 22 anos, o recado foi dado aos rivais: André está aí e veio para ficar. Não fosse, porém, a insistência das pessoas que o descobriram, o prodígio, talvez, não chegasse onde chegou tão rapidamente. 

Quando você começou a jogar vôlei?

Lá pelos meus 12 anos eu gostava de jogar basquete, mas depois parei por um tempo. Até que em 2009, então com 15 anos, eu estava perto da minha igreja, em Guaranhuns, em Vila Velha, e o técnico do projeto social Vôlei Vida, Robson Rodrigues, passou de bicicleta e me viu. Como eu era alto, já tinha mais de 1,90 de altura, ele parou, me abordou e me convidou. Na verdade ele ficou no meu pé e me convenceu. Só fui porque um amigo da igreja estava lá. Eu era muito tímido. Ele se encantou comigo, disse que eu tinha talento, conversou com meus pais e segui no projeto. Eu o considero como meu segundo pai e eles me tratam como filho até hoje. Sempre que vou ao Estado (mora no Rio atualmente), faço questão de ir lá. De lá cheguei à seleção capixaba e fui jogar em São Caetano, em agosto de 2012. Em São paulo fiz várias peneiras e acertei de jogar pelo Mauá. Passando férias no ES, o Robinho (Robson), conseguiu um teste na praia para mim com o (Leandro) Brachola, mas eu não me interessava pela praia. Fiz o teste em janeiro de 2013, o Brachola gostou do meu rendimento e me convidou para ficar. Balancei, mas eu já tinha fechado com o clube em São Paulo e queria aproveitar essa chance. Só que meus pais reclamavam que eu não estava na faculdade, aqui teria chance, tinha a questão da saudade também. O Brachola novamente veio falar comigo, conseguiu uma bolsa integral para eu cursar Direito e levantou minha bola. Não fosse o Brachola, talvez eu nem fosse para o vôlei de praia. O Robinho e o Brachola dão valor ao atleta, querem ver meu sucesso. São pessoas do bem e que sempre acreditaram em mim. Eu era moleque e o Brachola me colocava para treinar com Alison e Bruno. Ele sabia que eu iria longe.

André começou na modalidade, ainda na quadra, no projeto social Vôlei Vida, de Vila Velha. Depois migrou para a areia
André começou na modalidade, ainda na quadra, no projeto social Vôlei Vida, de Vila Velha. Depois migrou para a areia
Foto: Vitor Jubini

Qual a importância dos seus primeiros parceiros de praia?

Tenho que falar do Índio e do Marquinho. Com o Índio joguei no sub-21 e foram minhas primeiras etapas. No adulto, iniciei com o Marcus Borlini. Sou muito grato aos dois, passamos muitos perrengues juntos (risos). Tive outros parceiros até chegar no Ricardo, que me convidou para formar a dupla após a aposentadoria do Emanuel, e com ele rodei meu primeiro ano de Circuito Mundial. Todos o respeitavam. Ele me ensinou muita coisa. É uma lenda.

Ainda criança, André Stein tietou Ricardo, que anos mais tarde viria a se tornar parceiro dele nas quadras
Ainda criança, André Stein tietou Ricardo, que anos mais tarde viria a se tornar parceiro dele nas quadras
Foto: Arquivo Pessoal

Como surgiu a dupla com o Evandro?

Correndo o circuito Mundial, conheci muitos atletas e o Brachola, ainda meu técnico, conversou com o treinador do Evandro e começaram a afinar uma parceria entre nós. No fim do ano passado, o Evandro e o Pedro, já não estavam tão bem e saíram em busca de novos parceiros. Em dezembro veio o convite.

Como foi a preparação para a Copa do Mundo na Áustria?

Traçamos uma estratégia. Seriam seis semanas na Europa, onde disputaríamos quatro torneios, entre eles o Mundial. Definimos que em dois deles teríamos que ir muito bem. Em Porec (Croácia) ficamos em nono. Em Gstaad (Suíça), ficamos em quarto, um bom resultado. Mas na Polônia fomos os últimos, nada deu certo. Na sequência veio a Copa do Mundo. E no mais importante de todos eles acabamos em primeiro lugar. Melhor impossível.

2017 é o ano da sua consolidação no vôlei de praia?

Desde janeiro quando formamos a dupla e fomos finalistas nos EUA já assustou a galera, viram que tinha um menino novo na área. Mas confesso que ainda estou impressionado com a repercussão. A ficha ainda não caiu. Agora somos o time a ser batido, irão nos estudar mais nos próximos torneios. Mas eu fico mesmo é feliz com tudo isso. Estou me colocando entre os grandes.

Ao lado de Evandro, André Stein repetiu o feito de Alison e Bruno Schmidt, em 2015, ao ser campeão da Copa do Mundo
Ao lado de Evandro, André Stein repetiu o feito de Alison e Bruno Schmidt, em 2015, ao ser campeão da Copa do Mundo
Foto: Divulgação/FIVB

O Espírito Santo é um celeiro de craques do vôlei de praia?

É fato. Desde o início do esporte os capixabas estão no topo do pódio, desde o Loiola, Fábio Luiz, Alison, Larissa, Lili, Luana, Elize Maia, entre tantos outros. Vejo esse sucesso todo como fruto do trabalho do Brachola. Desde o Loiola, mesmo ainda novo, já trabalhava com o vôlei de praia. Todos os atletas que passaram por ele tiveram destaque.

Em 2015, você viu pela TV Alison e Bruno conquistarem o mesmo título alcançado por ti no último domingo. Como foi viver essa transformação em menos de dois anos?

É impressionante. Eu converso bastante com minha namorada e ela me lembra de tudo. Há dois anos eu estava jogando um challenger em Vitória ao lado do Benjamin e acabei em último. Saímos da etapa e fomos de ônibus para a casa de uma amiga onde assistimos aos jogos. Torci demais para eles, vi aquela final. Eu treinava com eles, o Evandro, hoje meu parceiro, ficou em terceiro. Eu via essas caras jogando e pensava se um dia eu chegaria nesse patamar, de viver isso, encarar um mundial. Só não sabia que seria tão rápido (risos). Há dois anos eu só tinha jogado uma etapa do Circuito Mundial e não passava de um sonho. Realmente foi algo muito especial. Aliás, continua sendo.

Na Áustria, contra uma dupla local e em uma arena toda jogando contra. Como foi o clima dessa final?

Foi tenso no começo, muito difícil. É característico da torcida austríaca. Eles são apaixonados pelo vôlei de praia. O que eles fazem no país com o esporte impressiona. A promoção do evento, tudo o que envolveu a Copa do Mundo. É espetacular. Dentro de quadra, no início, isso foi intimidador. Dez mil pessoas gritando, colocando pressão sobre nós, ainda mais que assim como eu e o Evandro, eles (Clemens Dopller/Alexander Horst), não tinham resultados expressivos no ano. Foram no calor da torcida mesmo. Estava tão tenso no começo que não dava para nos comunicar em quadra. O barulho era muito alto. Mas nessa hora apareceu a experiência do Evandro, me passou tranquilidade. Acabou que fez muita diferença, pois o torneio inteiro enfrentamos placares adversos. Estávamos com a cabeça boa, sempre acreditamos na nossa capacidade. Ganhamos o jogo na sequência de aces (três) do Evandro. Abalamos os suíços, a torcida se calou e no segundo set passamos a dominar. Atingimos um nível de concentração tão alto que sequer escutava mais a torcida. O foco era todo no que ocorria em quadra.

Como explicar um sucesso tão rápido e vitorioso ao lado do Evandro?

Desde o início da dupla nós nos demos muito bem. Não apenas eu e ele, mas a comissão técnica. Há muita sinceridade, trabalho árduo, temos uma comunicação franca, direta, não tem espaço para vaidade. O Evandro tem uma preocupação em me deixar tranquilo, até por eu ser o mais novo do que ele (27 contra 22). O segredo do nosso entrosamento é nossa comunicação, tem feito diferença. É bem verdade que ainda estamos aprendendo e ajustando nosso jogo, pois nossa dupla é recente. Nosso primeiro torneio foi em janeiro. Na Copa do Mundo encontramos um padrão de jogo e vamos seguir nessa linha.

Qual o significado de Alison e Bruno na sua carreira?

Eles são minha referência no esporte. Mais do que isso, são meus amigos, pessoas do bem, que me fazem evoluir. Sempre me passaram e ensinaram muito. Essa conquista também tem muito deles. Não se conquista nada sozinho.

A formação de atletas no Estado continua boa. Podemos esperar mais nomes em destaque em um futuro próximo?

Há sempre a necessidade de se pensar em investir no esporte, pois isso é muito precário no Brasil e no Espírito Santo não é diferente. Mas apesar de tudo isso, felizmente temos muito talento. E, nesse sentido, somos privilegiados. No próprio projeto Vôlei Vida, onde dei meus primeiros saques, vejo uns meninos excelentes, craques, altos. Na praia é fácil para eu falar porque são quase todos da minha geração. De nomes temos o Vinícius Freitas, que é de Vitória, e com quem disputei o Mundial Sub-21. É mais um que tem tudo para deslanchar muito em breve. Tive a felicidade das coisas acontecerem mais rapidamente e as portas se abriram para mim, mas são meninos muito bons. Tenho a certeza que vão dar muito trabalho no circuito.

Após todo esse turbilhão de emoções, vai dar para descansar?

Nada (risos). Agora no final do mês já tem o Finals (World Tour Finals - de 23 a 27 de agosto, em Hamburgo, na Alemanha). É uma disputa onde são reunidas as oito melhores duplas. Agora nós somos a vidraça, né. Todos os times nos estudarão e vão tentar nos derrubar. Temos que lutar para manter a boa fase, e sabemos das dificuldades. O nível do Circuito Mundial é elevadíssimo. Se jogar mal, perde. Qualquer dupla entra em condições de vencer.

Quando os capixabas poderão ver o troféu de campeão de perto, já que atualmente você mora no Rio?

Chego em Vitória na próxima sexta-feira (18) e faço aniversário no dia 19 (sábado). Vou comemorar rapidinho e já retorno no domingo cedo, pois o voo para a Alemanha é ao meio-dia. Sobre o troféu, ele nem fica com a gente. No momento está com o Evandro ainda, mas ficará de posse da Confederação. Gostaria muito, mas não sei se conseguirei levar o troféu.

E a faculdade de Direito. Como está?

Comecei em 2012, ainda antes de ir para São Paulo. Já tranquei quatro vezes. A última foi quando vim para o Rio. Atualmente estou no sétimo período. Vida de atleta é assim, mas é por uma causa nobre. Sinal que o Plano A, o vôlei de praia, vai dando muito certo. Vou fazendo quando posso.

Tóquio-2020. É a próxima meta?

Fiz parte da equipe do Alison e Bruno no Rio a convite do Brachola e pude sentir de perto um pouco como deve ser essa experiência. A corrida olímpica será muito difícil para os Jogos do Japão. O Brasil tem quatro duplas fortíssimas, fora os nomes que ainda podem surgir. Vai ser difícil, mas estamos na luta.

Uma pergunta que já deve ter ouvido dezenas de vezes na vida: você é parente do Loiola?

É mera coincidência. Onde eu vou no mundo me perguntam isso, mas eu falo que o meu Loyola é escrito com y, já o dele é com i (risos). Só que não deixa de ser uma coincidência. Sinal que estava escrito que o vôlei de praia estaria presente em minha vida.

Ver comentários