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Furto de madeira cresce no Espírito Santo e gera prejuízo de R$ 20 milhões

Crime tem levado o medo e a violência a localidades onde são feitos os cultivos

O furto de madeira ocorrido em áreas de florestas plantadas no Espírito Santo, além de dar um prejuízo de R$ 20 milhões a agricultores, empresas e ao Estado, que deixa de receber impostos, tem também destruído o meio ambiente e levado o medo e a violência a localidades onde são feitos os cultivos.

Relativamente novo, o crime começou há 15 anos, segundo a Federação da Agricultura do Estado (Faes), que disse estar crescendo ainda mais. Só no ano passado, a área com madeira furtada chegou a 20 mil hectares, ou seja, quase 20 mil campos de futebol. Um aumento de mais de 40% em relação ao ano anterior.

No meio de florestas de eucalipto no Norte do Estado, o clima é de tensão. Seguranças de empresas de cultivo da árvore que fiscalizam as florestas não andam armados e dizem ser ameaçados de morte pelos criminosos. Um deles já sofreu tentativa de homicídio. “Efetuaram o primeiro disparo, logo em seguida mais dois, não acertou ninguém graças a Deus, mas o clima é tenso”, disse, sem se identificar.

Para entender como agem as quadrilhas, a reportagem percorreu durante dois dias as plantações na divisa do Norte do Estado com a Bahia e encontrou diversas barreiras nas estradas que cortam as florestas de eucalipto. São troncos de árvores que impedem as passagens de carros para que as pessoas que furtam madeira ganhem tempo para fugir da fiscalização.

Durante o trajeto, a reportagem avistou pessoas abandonando trator com troncos e se escondendo em meio as plantações. Poucos aceitaram conversar com a reportagem. Com um caminhão no local, o agricultor Jorge Carvalho, em companhia do filho Robson Carvalho, reconheceu que as árvores pertencem a uma empresa, mas justifica afirmando que o pai foi enganado quando negociou a venda da terra há mais de 30 anos e não acha que não deve ser tratado como ladrão. (Com a colaboração de Kleber Amorim)

Câmeras flagram criminosos

Imagens gravadas com um câmera de monitoramento de uma empresa dona de plantação no Norte do Estado flagrou como as quadrilhas são organizadas e trabalham com equipamento pesado bem à luz do dia. As pessoas que cortam as árvores são o elo mais fraco da corrente criminosa. Os que mais trabalham e menos lucram. O trator vai e vem entre as plantações até encher cerca de 10 caminhões diariamente.

Antes da madeira ser recolhida pelo caminho, ela fica ainda alguns dias à beira da estrada e boa parte está queimada. Os criminosos colocam fogo na plantação para que a madeira não possa mais ser usada pelas empresas que fabricam celulose. E é aí que o prejuízo ambiental também acontece. É comum o incêndio se espalhar e atingir áreas de mata preservada.

A matéria prima que é furtada é usada para fazer cercas, estacas usadas na construção civil e também são levadas a carvoarias para virarem carvão.

Reportagem acompanha rota do roubo

A reportagem, durante os dias que esteve no norte do Estado, aproveitou também para conhecer a rota da madeira roubada faz. Pela Rodovia BR 101, um caminhão lotado de madeira furtada de uma área particular foi seguido. Ele saiu do município de Conceição da Barra, passou por um praça de pedágio e atravessou a divisa do Espírito Santo com a Bahia.

Durante o trajeto passou em frente a um posto da Receita Estadual e não foi parado. Mais 100 quilômetros depois o mesmo estacionou em frente a uma serraria, que realiza tratamento de madeira, na cidade de Posto da Mata, no sul da Bahia.

O mesmo caminhão, na semana seguinte, foi flagrado com madeira furtada em outra plantação.

Nos últimos anos, a polícia fez operações no Espírito Santo, na Bahia e até em Minas Gerais. A polícia do Estado indiciou mais de 300 pessoas.

A Federação da Agricultura disse que as áreas onde empresas plantam eucalipto no Norte do Estado são reconhecidas pela justiça e não há justificativa para o furto. O Ministério Público Estadual disse que apresentou várias denúncias e líderes do esquema estão na cadeia, mas que as quadrilhas sempre se reorganizam.