Notícia

"Uma coisa que aprendi com a experiência foi a parar de tentar assistir ao mundo através da CNN"

Em seu primeiro livro, o documentarista carioca Raphael Erichsen narra a jornada em que percorreu um terço da superfície da Terra, além de abrir o jogo de como a viagem modificou sua forma de enxergar o mundo à volta

Durante a aventura do Rally Mongol, Raphael passou por lugares como Tsagaannuur, na Mongólia.
Durante a aventura do Rally Mongol, Raphael passou por lugares como Tsagaannuur, na Mongólia.
Foto: Brazil Nuts/Divulgação

Você, leitor, provavelmente não conhece o carioca Raphael Erichsen. E se algum dia tiver a oportunidade de conhecê-lo, aposto que achará que ele é um louco. Afinal, quem em sã consciência percorreria quase um 1/3 da superfície terrestre a bordo de um carro comprado às cegas pelo EBay? Pois então, ele fez isso ao lado de outros três amigos em 2012.

A viagem, no caso, foi o Rally Mongol, uma competição automotiva que sai de Londres, na Inglaterra, e parte rumo a Ulan Bator, capital da Mongólia. Raphael, os amigos e outras mil pessoas também participaram da aventura. Detalhe: todos com carros velhos, fantasiados e cheios de frufrus – veículos, esses, que foram doados para uma ONG que cuida de crianças residentes no país asiático.

Antes de ser aventureiro ao lado de ralliers de todo mundo, Raphael já era documentarista. Foi das mãos dele, ao lado de Tarso Araújo, que nasceu “Ilegal” (2014), documentário que fez barulho ao mostrar luta de pacientes pela maconha medicinal no país.

No caso do rali, o cineasta filmou toda a viagem. A jornada da Europa à Ásia – passando pela Bulgária, Cazaquistão e o deserto Mongol – virou série e foi exibida em 2012 pelo canal Multishow.

Mas só o registro em vídeo não bastou: Erichsen, anos depois, transpôs todos os perrengues do Rally para um livro. O resultado disso é “Tudo Errado”, sua primeira incursão literária.

O livro foi bancado via financiamento coletivo. Nele, quem tiver a oportunidade de tê-lo em mãos, encontrará muito mais do que já foi mostrado na série. Há profundidade na escrita de Raphael. E através dela nós conhecemos seus medos, dúvidas e – por que não – alegrias.

Primeiro de tudo eu gostaria de entender uma coisa: como essa viagem modificou a sua forma de enxergar o mundo?

Acho que em vários aspectos. Um: que o mundo é maior do que a gente pensa. E, por outro lado, muito menor. Uma coisa que aprendi é parar de tentar assistir ao mundo através das lentes da CNN. Exemplo: os conflitos na Síria estão muito mais do nosso lado do que a gente pensa. E temos pouca empatia com essa situação. E uma vez que a gente vai lá, consegue ver que esse tipo de coisa poderia acontecer com os nossos amigos.

Durante o rali você topou na estrada com um time de cadeirantes que fizeram a viagem...

Havia uma equipe no rali composta só por cadeirantes. Eles eram conhecidos porque todo mundo comentava que existia esse time. Nós queríamos falar com eles de qualquer maneira porque queríamos botá-los no documentário. Acabamos encontrando com eles na fronteira da Mongólia. Era mesmo de se impressionar: um time com dois caras e uma mulher, todos nos seus 40 e poucos anos e todos cadeirantes. Eu, que tinha passado a viagem toda com medo de seguir em adiante, me deparei com um time cheio de limitações físicas, mas que enfrentava os desafios com muito mais disposição que a gente.

Como assim?

Eu, que estava sempre com tanto medo da rota que poderíamos traçar, evitando os lugares mais conflituosos, não podia acreditar quando eles me contaram que foram pelo Iraque, passando pela bordinha da Síria e depois atravessaram o Irã subindo até o Turcomenistão. Aquilo pra mim parecia uma grande loucura. E o pior, contavam como se tivessem saído para pescar em Guarapari. Disseram que nunca foram tão bem tratados como no Iraque e que as pessoas nem sequer deixavam que eles pagassem por seu combustível de tão agradecidas que ficavam por eles se prestarem a visitar o país deles.

A viagem foi feita em 2012. Quando você escreveu o livro?

Escrevi o livro entre 2013 e 2014. Aí, em 2014 eu tinha mais ou menos o livro e comecei a conversar com as editoras do para publica-lo. Com algumas delas o papo ia evoluindo, mas o que eu entendia é que ia ter que esperar muito para o lançar e eu não tava disposto a esperar.

Você escreveu o material durante a viagem ou já no Brasil?

Ele foi escrito em dois tempos. A gente ficava dez horas no carro por dia... No tempo que eu não dirigia, não tinha o que fazer. Cada um dos integrantes da equipe arrumava um jeito de matar o tempo: a Celina lia muito. Outro era o DJ do carro. Já eu escrevia muito numa caderneta.

Mas você escreveu mais quando voltou...

Depois, quando voltei pra São Paulo, comecei a transcrever as anotações e comecei a revisitar (os textos). Aí estava transcrevendo, mas, ao mesmo tempo, ia encontrando uma maneira de incluir minhas reflexões acerca daquilo tudo.

Qual o perfil da pessoa que se interessa por essa sua obra?

São dois tipos de pessoas que se sentem atraídas pelo material: aquelas que querem fazer o Rally... acho que nem precisa ser esse rally...pode ser outra aventura, pode ser ter um filho, mudar de trabalho ou viver da maneira mais criativa. Porque a gente vive uma rotina. Ela é muito massacrante. É difícil acordar e fazer com que sua vida seja diferente.

Qual o outro tipo?

O outro tipo é aquele que entende a proposta. Não que o outro não entenda. Recebo todo dia mensagem de pessoas que leram o livro. Teve uma menina que relacionou (minha trajetória) com a gestão do RH da empresa dela. Isso eu acho muito legal, quando as pessoas encontrar aquilo no seu cotidiano...

E lidar com essas mensagens é algo que você está tendo de se acostumar?

Esse é meu primeiro livro. Eu faço filmes, documentários. Sempre tive o feedback de documentário. Nos filmes, eu não sou o protagonista. Então esse retorno é mais sobre a realização.

E agora tem sido diferente...

Dessa vez é ao contrário. Como sou protagonista, é mais pessoal. Pra mim é entender que estou fazendo algo legal.

Como se tornou um documentarista?

Eu era diretor de arte. Trabalhava na “Super Interessante” até 2007. Em 2007 ia fazer 28 anos e eu tava meio cansado de trabalhar com o que eu trabalhava e queria mudar o que eu tava fazendo. Aí fui fazer um mestrado em documentário na Espanha. Fiz dois filmes, me mudei para Londres e filmei um documentário sobre o jamaicano Don Letts – que além de DJ, também é documentarista.

Você o conheceu como?

Eu fui vê-lo tocar em Londres e pedi um emprego pra ele. Todos os anos ele faz filme pra BBC. Ele falou que por causa da crise, isso em 2008, a BBC cortou o orçamento dele. Aí eu disse: “Ah é? Então deixa eu fazer um documentário sobre você!”. Nisso ele me deu um monte de material que ele tinha sobre o Clash, o Sex Pistols... O documentário se chama “Superstonic Sound” e tá inteirão no YouTube. Foi o primeiro filme meu com repercussão internacional. Ele é de 2010 e circulou muito lá fora.

E depois disso? O que mais você fez?

Depois fiz o documentário do Redson (líder da lendária banda punk brasileira Cólera, morto em 2011) e fiz a série do Rally, que foi ao ar na Multishow em 2012. Também teve um filme que fiz nesse meio tempo que se chama “Radical”. É sobre um cara chamado Dadá Figueiredo. Ele é um surfista punk rock. Um dos principais surfistas dos anos 1980. Sai no mês que vem, na Netflix.

Por que um documentário sobre ele?

Ele foi um dos primeiros caras a trazer as manobras de skate pro surf. Ele morava no subúrbio do Rio de Janeiro, na Tijuca. O Dadá era a antítese do surfe daquela época, do cara loirinho, parafinado... Ele era um tosco.

Você chegou a trabalhar e fazer um documentário com o músico capixaba Amaro Lima, né? Como o conheceu?

O Amaro eu já conhecia porque antes do Manimal, ainda adolescente, ele tocava em uma banda no Rio de Janeiro chamada A Voz do Brasil com um cara que virou meu companheiro de banda por muitos anos chamado Fábio Seidl (na banda punk rock Ack). O Amaro tinha consegui uma grana para ir gravar um disco com o Jack Endino (produtor do primeiro disco do Nirvana) em Seattle, nos EUA, e chamou o Seidl, que acabou me levando para registrar tudo e fazer um filme. Por uma super coincidência, na semana que estávamos lá era aniversário de 20 anos do “Nevermind”, disco que apresentou o Nirvana ao mundo. E nós assistimos as comemorações de camarote e ainda incluímos essa história no documentário.

Você também é conhecido pelo documentário “Ilegal” (2014), que mostra a luta pela legalização de remédios derivados da maconha. Três anos depois do filme, quais avanços você enxerga na discussão do tema?

O filme foi muito importante num momento para conseguir que as pessoas falassem de maconha de maneira menos preconceituosa. “Ilegal” chegou ao “Fanstástico”, à grande mídia... Mais do que isso, ele conseguiu uma transformação real. Ele acabou servindo de ferramenta para a Anvisa, em janeiro de 2015, reclassificar o canabidiol (substância química encontrada na maconha e muito utilizada em tratamentos médicos).

Como enxerga a influência das suas obras na vida das pessoas?

Eu não sei. Quando você tá fazendo é uma coisa de instinto. Procuro pautar meus trabalhos e minha vida de coisas que fazem sentido. Não que eu não goste de coisas estúpidas e idiotas. O Rally Mongol é um exemplo disso (risos).

Ver comentários