Notícia

Série polêmica torna-se fenômeno entre jovens e vira alerta para pais

Especialistas orientam famílias a conversar sobre o suicídio

13 reasons why
13 reasons why
Foto: Divulgação

Bullying, violência sexual, suicídio. Se estes temas já são difíceis de serem discutidos ainda que individualmente, quando todos se interligam para dar origem ao enredo de uma série de televisão voltada para jovens o impacto não só é certeiro, como também explosivo. Lançada em março deste ano pela Netflix, a série americana “13 Reasons Why” (13 Porquês) é a mais recente prova de como a ficção pode invadir a realidade, tocando seu público de diferentes modos.

Dentro de um mês a adaptação do livro de Jay Asher tornou-se fenômeno entre adolescentes e adultos pelo mundo. Aplaudida por uns e criticada por outros – que contestam a forma como o suicídio é abordado –, a série definitivamente não é motivo de consensos e o debate em torno de suas possíveis consequências está lançado. Essa semana, inclusive, a Rede Salesiana de Escolas lançou um aviso para mostrar como os pais devem lidar com a série.

Tudo começa quando uma caixa é enviada para Clay por Hannah, a amiga por quem ele nutria uma grande paixão e que havia acabado de se suicidar. Nela, há 13 fitas cassetes, nas quais a jovem lista os motivos que a levaram à morte, além de dar instruções para que elas sejam entregues aos que considera culpados. Os abusos dos quais Hannah é alvo por parte de seus colegas, bem como a negligência de sua escola, que ignora os fatos, são encadeados até culminarem na cena final, que mostra em detalhes o suicídio da estudante.

Para a psicóloga Paula Barcellos Bullerjhann, cenas explícitas como esta são um erro da série. “O que preocupa é que ela coloca o suicídio com um certo nível de glamour, quando se trata de um problema mental. A personagem parece tratar o suicídio como uma forma de vingança e essa ênfase pode ser perigosa, pois pessoas com algum problema psicológico podem encará-lo como uma solução”, avalia ela, que também critica o fato de a série não apontar uma possibilidade de resolver o problema que não seja dar fim à vida.

“A série não mostra soluções, a Hannah não as encontra. E na verdade há saída, há sempre uma ajuda possível e profissionais capazes”, argumenta.

Hannah é a personagem principal da série "13 Reasons Why"  (13 Porquês)
Hannah é a personagem principal da série "13 Reasons Why" (13 Porquês)
Foto: Divulgação

O roteiro da série, aliás, segue direção oposta às normas apontadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Sociedade Americana para Prevenção do Suicídio, que se opõem, por exemplo, à veiculação de informações acerca dos detalhes dos atos e do modo como são praticados, além da divulgação de cartas deixadas. As recomendações são baseadas em estudos, que apontam que a veiculação de tais informações pode influenciar outras pessoas a repetirem os atos.

Tabus à tona

Apesar de reconhecer que as cenas chocantes da série são capazes de disparar gatilhos emocionais em pessoas mais fragilizadas, a conselheira do Conselho Regional de Psicologia, Tammy Andrade Motta, considera a trama “excelente” por evidenciar temas tabus, bem como o papel da escola diante de todos eles.

Para a psicóloga, a série demonstra como a construção de uma hierarquia de gênero resulta em violência. “Desde o começo se vê uma diferença do que é ser mulher adolescente num ambiente onde os homens são supervalorizados e reforçam relações de poder. Isso nos mostra a importância de discutir gênero nas escolas, de capacitar os profissionais, em especial os de saúde, para essas demandas, sobretudo para as demandas de suicídio”, reflete.

Num mundo em que adolescentes têm acesso fácil às informações, enquanto os pais nem sempre conseguem acompanhar o mesmo ritmo, Tammy acredita que não se trata de proibir a série, mas sim de encará-la como uma janela aberta para o debate de temas polêmicos, mas necessários.

É preciso falar

Quando o normal é se falar sobre vida, discutir a morte é sempre um incômodo. Por isso, a presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Carmita Abdo, considera que um dos acertos da série é jogar luz sobre o tema. Segundo ela, o Brasil é o oitavo país em que o suicídio mais acontece. Dados mundiais dão conta de que, do total da população que possui quadros depressivos, o número de crianças que tentam o suicídio chega a ser três vezes maior do que outras faixas etárias.

“O melhor aspecto que a série traz é para que tenhamos cuidado com o que fazemos, pois a dimensão de nossos atos pode chegar ampliada no outro”.

Deu no Facebook

Maria Celeste Lima “Minha filha de 14 anos assistiu essa série e comentou comigo. Agora estou assistindo. É válido, até para conversarmos com nossos filhos e eles perceberem que damos importância ao que assistem e assim fazer até uma discussão do assunto. Com isso, sabemos a sua opinião. Recomendo.”

Juliana Valença

“Para quem está deprê, principalmente adolescentes, a série pode aflorar sentimentos ruins sobre o assunto, além do encorajamento através de culpar terceiros pela decisão do suicídio e a falta de outra saída. Os filhos vão assistir, o melhor a fazer é conversar muito sobre a anormalidade dessa decisão.”

Gabryella Carmo

“ Esse seriado abriu a mente de muitas pessoas. Às vezes seu amigo está implorando ajuda, e você não percebe. Vamos ficar atentos com as coisas. Só julgar é fácil.”

Lidia Sylmara

“O que se passou nessa série é verdade! Infelizmente, já passei por isso! Mas graças a Deus não cometi o suicídio! Mas a história me comoveu bastante. Fui infeliz por anos, me sentia que nem a protagonista e não tive ajuda da minha família e nem dos amigos. A depressão mata sim! Galera, olhem mais para a sua família! Cuidem, tomem iniciativas, para que essa longa tristeza, não acabe em tragédia!”

A personagem principal lista os motivos que a levaram a tirar a própria vida
A personagem principal lista os motivos que a levaram a tirar a própria vida
Foto: Divulgação

Análise da série

Pontos positivos apontados por especialistas

Abordagem de temas polêmicos

- Para a psicóloga Tammy Motta, a série deu destaque a temas importantes, como o bullying; o suicídio e a morte; a violência estrutural; as relações familiares e o papel da escola diante de tudo isso.

- Tammy também destaca a discussão sobre hierarquia e violência de gênero, mostrando como as mulheres, no caso de Hannah, por exemplo, tornam-se alvos de abuso como estupro e violação da privacidade

- A psiquiatra Carmita Abdo ressalta que a trama pode ser didática por mostrar às pessoas como seus atos, mesmo quando se tratam de brincadeiras, podem afetar o outro de diferentes formas, tonando-as mais conscientes em relação às consequências do que fazem

-A Netflix tenta dar conta da demanda exibindo um documentário de 30 minutos, após a série, alertando sobre os perigos e impactos psicológicos dos temas retratados. No começo dos episódios com conteúdo de violência ou abuso sexual, uma mensagem é exibida recomendando a discrição do espectador.

Pontos negativos apontados por especialistas

Abordagem indiscriminada

Todos os psicólogos e psiquiatras ouvidos nesta reportagem afirmam que a forma como o suicídio é abordado, incluindo a cena explícita e rica em detalhes da personagem principal se suicidando, pode desencadear gatilhos emocionais em pessoas que já possuem problemas psicológicos e pensam sobre o assunto. No entanto, é preciso podenderar que cada espectador pode ser afetado de maneiras diferentes

Sem soluções

A psicóloga Barcellos Bullerjhann também aponta o fato de a série não mostrar possíveis soluções para que o suicídio seja evitado. Segundo ela, trata-se de uma questão saúde mental que pode ser evitada, como uma rede de apoio formada por família, amigos e profissionais qualificados.

Indicações

Quem deve assistir

Para a psicóloga Daniela Reis, é difícil contraindicar a série para alguém, pois ela é realidade. Mas crianças e adolescentes não deveriam assistí-la, já que contém cenas impactantes. No entanto, ela pondera que, na contemporaneidade, grande parte dos pais não acompanha seu filho de perto para saber o que ele faz na tela do celular, do tablet, do computador ou dos jogos eletrônicos. Além disso, tudo o que é proibido se torna alvo de desejo.

Oportunidade para discutir

Daniela Reis enfatiza que é preciso ter disponibilidade para discutir os temas suscitados, em diferentes instâncias. Nas famílias, nas escolas, nos consultórios, nas redes sociais, de forma instrutiva, de compartilhamento de conhecimento, dando a oportunidade para que crianças e adolescentes possam aprender a pedir ajuda sempre que necessário. Adultos precisam estar preparados para e conversar sem tabus ou preconceitos.

Entenda para ajudar e onde buscar apoio

1,5

Milhão de mortes

É o número de suicídios que a OMS estima que aconteçam em 2020.

13 Reasons Why

Dicas

- A série tem classificação indicativa de 18 anos. Menores, se forem assisti-la, devem estar acompanhados dos pais ou responsáveis. Caso seu filho esteja assistindo, é essencial que você o acompanhe.

- É importante conversar com os jovens e aprofundar as questões abordadas. Quais são as generalizações da série? Qual outra alternativa a protagonista poderia ter escolhido? Como ajudar um colega que sofre agressões?

- A depressão é uma doença passível de tratamento e cura.

Cuidados

Família, escola, poder público e sociedade devem dar atenção aos grupos vulneráveis, sobretudo adolescentes com histórico de depressão, tentativas de suicídio e outros sofrimentos psicológicos graves. Não se deve minimizar ou subestimar o que eles falam. Diante de sinais de angústia e sofrimento, converse com um profissional, que saberá indicar o tratamento.

Fonte: Psicóloga Daniela Reis, carta da Rede Salesiana e SaferNet Brasil

Análise

“É preciso romper a barreira do silêncio e do preconceito”

Muitas pessoas em crise suicida relatam a primeira ideação suicida ou até mesmo a primeira tentativa de suicídio na infância. A adolescência é uma etapa de ebulição emocional, de transição no ciclo de vida, de conquista de independência, de inúmeros desafios.

Muito foco tem sido dado aos fatores de risco para o suicídio, mas é importante conhecermos os fatores de proteção, que são apoio familiar, boa integração social, boas habilidades sociais, autoconfiança e capacidade de procurar ajuda.

O comportamento suicida pode se confundir com o comportamento adolescente, o que torna difícil a avaliação. Alguns aspectos que podem indicar sua presença são: mudança brusca de comportamento; dificuldade para se relacionar com família e amigos; irritabilidade; pessimismo; depressão ou apatia; ódio a si mesmo; sentimentos de culpa, desvalia, vergonha, solidão, impotência e desesperança; mudança de hábito de alimentação e/ou de sono; menção a concluir e doar coisas ou escrever carta de despedida; menção de morte ou de não existir.

É preciso romper a barreira do silêncio e do preconceito e compreender a complexidade da situação sem buscar por culpados ou motivos. Desenvolver empatia, conversar abertamente, aprendendo a colocar-se no lugar do outro sem julgá-lo e encaminhar para avaliação e tratamento em equipe multiprofissional devidamente capacitada. É fundamental também que os serviços públicos e privados de saúde estejam preparados para receber esta demanda galopante.

Daniela Reis e Silva, psicóloga e especialista em luto 

Procura no CVV sobe 400%

Após a estreia da série, o número de e-mails recebidos pelo Centro de Valorização da Vida (CVV) cresceu 415%. A quantidade de visitas à página da associação, que dá apoio emocional e prevenção do suicídio, mais que dobrou no período. Os dados são nacionais e, segundo o porta-voz do CVV, André Lorenzetti, tem relação direta com a atração. “O corte é exato, não tem como fazer link com outra coisa”, diz o representante.

A associação atende de forma voluntária e gratuita todas as pessoas que precisam conversar, em sigilo, por telefone (141), e-mail, chat e Skype 24 horas todos os dias.

Danyella e Emerson Richard controlam o que os filhos Thiago, de 17 anos, Nicole, de 11, e Bernardo, de 4, veem na televisão através das indicações por idade. Os pais estão sempre dispostos a dialogar sobre os temas
Danyella e Emerson Richard controlam o que os filhos Thiago, de 17 anos, Nicole, de 11, e Bernardo, de 4, veem na televisão através das indicações por idade. Os pais estão sempre dispostos a dialogar sobre os temas
Foto: Guilherme Ferrari

No Espírito Santo, o voluntário do CVV Vinicius de Almeida diz que o número de telefonemas não cresceu. “Não houve aumento nas ligações no nosso Estado, mas nacionalmente sim. Vejo as pessoas comentando mais e divulgando coisas ligadas ao suicídio.”

Segundo Almeida, a discussão sobre tema só é positiva dependendo de como os interlocutores levam o assunto. “Muita gente banaliza o suicídio, que infelizmente é uma epidemia mundial. As estatísticas relatam que o suicídio atinge mais pessoas que o número de homicídios e de pessoas mortas em acidentes automobilísticos”, destaca.

Para o integrante do Grupo de Trabalho de Prevenção do Suicídio no Espírito Santo, André Ferreira, que também é voluntário do CVV no Estado, o tema na série foi trabalhado de forma irresponsável. “As informações são apenas jogadas. Isso, para quem não está com o emocional bom, dá a falsa impressão de que tirar a própria vida vai acabar com o sofrimento.”

Onde buscar ajuda

Apoio

Grupo de Apoio a Perdas Irreparáveis (API)

[email protected] / www.redeapi.org.br

Centro de Valorização da Vida (CVV)

Telefone: 141

www.cvv.org.br

Rede Pública

É preciso procurar primeiro a Unidade Básica de Saúde. Os casos graves são encaminhados para os Centros de Atendimento Psicossocial (CAPS), destinados a acolher pacientes com transtornos mentais. Os Centros Regionais de Especialidades (CREs) oferecem consultas com psiquiatras.

Análise

Série alimenta sensação perigosa

Como obra de ficção, “13 Reasons Why” tem diversos problemas no roteiro, mas também traz atrativos como adolescentes espertos, e uma narrativa episódica que prende o espectador. É justamente por ser um produto pop tão fácil de ser consumido que merece ser discutido.

E não cabe aqui a discussão se é a série ou o livro de Jay Asher que romantiza o suicídio da jovem Hannah Baker. O que deve ser discutido é que todo o plano da protagonista funciona como uma bem-sucedida vingança contra os que lhe fizeram mal. Ao cometer o suicídio, Hannah se vinga e se torna o centro das atenções na cidade: uma recompensa perigosa de ser alimentada e que esconde todas as outras discussões importantes (depressão, assédio, bullying, etc.) trazidos pela série.

Rafael Braz, editor do Caderno 2