Notícia

"Como a velocidade das mudanças, vivemos em estresse permanente", diz especialista

Especialista em medicina preventiva, Gilberto Ururahy fala sobre os riscos trazidos à saúde pelo estresse crônico. Perigos vão desde os danos emocionais até o surgimento de doenças crônicas e do câncer

"Se na pré-história o homem matava um leão por ano para sobreviver, hoje o homem moderno mata dois, três por dia. Só que os nossos genes não foram preparados para mudanças tão abruptas. Estamos hoje pagando caro por essa globalização"
"Se na pré-história o homem matava um leão por ano para sobreviver, hoje o homem moderno mata dois, três por dia. Só que os nossos genes não foram preparados para mudanças tão abruptas. Estamos hoje pagando caro por essa globalização"
Foto: Arquivo

Trabalhar, estudar, cuidar dos filhos, pagar contas, tomar decisões a cada momento. Vinte e quatro horas lidando com surpresas e desafios. Num cotidiano de inúmeras jornadas vivido por grande parte dos brasileiros, enquanto o tempo se torna cada vez mais fracionado, o estresse se multiplica. Mas será que este é, de fato, o grande vilão dos tempos modernos?

Para o médico Gilberto Ururahy, não há dúvidas de que a resposta é sim. Criador da clínica Med-Rio, no Rio de Janeiro, que é líder nacional no segmento de Medicina Preventiva, Urarahy comprovou sua tese a partir dos 100 mil check-ups realizados em pacientes ao longo de mais de 25 anos de experiência. O médico enfatiza que apesar de o estresse ser uma reação natural dos seres humanos diante das mudanças, é o estresse crônico o que mais preocupa.

Em entrevista ao jornal A GAZETA, Urarahy mostra como a aceleração do ritmo de vida pode afetar a saúde física e mental, desencadeando problemas que vão desde a depressão até o câncer. Mas, mesmo diante da impossibilidade de desacelerar o mundo, o médico mostra que há saída para sobreviver ao estresse em três passos: prevenção, manutenção de hábitos saudáveis e motivação. Confira a seguir:

Qual a diferença entre um estresse passageiro e o estresse crônico?

Se você saiu de casa, está passeando e percebe que alguém está te perseguindo, você acelera o passo, atravessa rua, tenta fugir. Nesse momento suas pupilas se dilatam para você enxergar melhor, seus brônquios se dilatam para receber mais oxigênio. A glicose que está na sua musculatura é injetada à sua corrente sanguínea para você enfrentar ou fugir do inimigo. É uma reação de luta ou fuga. Seu coração entra em taquicardia para mandar sangue para o corpo. Isso tudo é uma reação de estresse agudo, momentâneo e rapidamente o corpo se refaz.

Mas é o estresse crônico que conduz o indivíduo às mais diversas doenças de acordo com suas individualidades. Toda vez que passamos por mudanças em nossas vidas nosso corpo precisa se adaptar. Mas como a velocidade das mudanças está acelerada, vivemos em estresse permanentemente.

O estresse crônico é mais comum hoje?

Sim e a tendência é só aumentar. Como a velocidade é grande, vivemos o estresse em casa, no trânsito, no trabalho. Toda vez que estamos sob estresse, a glândula hipófise, que rege todo o sistema endócrino, produz o hormônio HCC. Ele vai atuar nas glândulas supra-renais, estimulando-as a produzir a adrenalina e o cortisol, os hormônios do estresse.

Quem produz muita adrenalina está sujeito a alterações cardiovasculares: arritmias, taquicardíacas, aumento da pressão arterial. Para começar, a adrenalina é um potente estimulante. Sob a ação dela, o indivíduo dorme mal, tem insônia e acorda cansado e sem disposição para atividades físicas. Para estar ligado, ele normalmente lança mão de produtos ricos em açúcar (outro estimulante), toma muito café (há executivos que tomam uma garrafa por dia). Aqueles que fumam - que são cada vez menos - fumam muito porque a nicotina estimula também. Antes de ir para casa, ele toma seu chope com amigos, sua dose de uísque. E depois vai dormir mal novamente, sob o efeito da adrenalina, do açúcar, da cafeína, da nicotina e do álcool. Cria-se, então, um ciclo vicioso: ele está gordo, sedentário e começa a abrir as portas de seu corpo para as doenças crônicas, como obesidade, diabetes, hipertensão arterial e até o câncer.

Já o cortisol baixa a imunidade. O indivíduo fica mais propenso a contrair gripes, infecções de repetição – as mulheres reclamam muito de infecções urinárias –, colites, diarreias. O cortisol também abre o apetite e o indivíduo passa a ter mais fome, além de reter líquido. Quando há o somatório desses dois hormônios, a longo prazo a saúde é fragilizada.

Quais os malefícios do estresse sobre o campo emocional?

Um dos grandes avanços da psiquiatria moderna foi ter relacionado o excesso de cortisol à depressão. Hoje a população vive emoções negativas o tempo todo: a tristeza, a surpresa, o desgosto, a raiva, o medo. Que alegria o brasileiro vive hoje? O Brasil hoje faz mal à população. Não há dúvidas de que se continuarmos assim, a situação irá piorar. Quantos já se suicidaram? Quantos já desenvolveram um infarto agudo do miocárdio ou um Acidente Vascular Cerebral? Não temos essas estatísticas, mas podemos imaginar que são milhares. A depressão é uma doença que está incapacitando.

Hoje uma das maiores receitas das indústrias farmacêuticas são os antidepressivos. Dos cem mil check-ups realizados em mais de 25 anos, 25% das pessoas que examinamos convivem com insônia e 18% têm se automedicado. Os antidepressivos têm encontrado um espaço fantástico, assim como os ansiolíticos e os hipnóticos, indutores do sono. Muitos indivíduos abusam. Quem usa hipnóticos, por exemplo, ultrapassa a fase em que o sonho ocorre e quem não sonha tem lapsos de memória. Harvard afirma que 80% de todas as consultas realizadas em consultórios e hospitais do mundo tem relação com o estresse. Segundo Stanfford, 73% das mortes nos dias atuais têm relação direta com o estilo de vida conduzido pelo homem moderno.

O estresse é a doença da modernidade?

É complexa essa afirmativa, pois o estresse é defesa, é natural. O que não é fisiológico e sim patológico é o estresse crônico. Se na pré-história o homem matava um leão por ano para sobreviver, hoje o homem moderno mata dois, três por dia. Só que os nossos genes não foram preparados para mudanças tão abruptas. Estamos hoje pagando caro por essa globalização que surgiu a partir dos anos 1990 e abriu as portas para o estresse invadir nossa saúde.

Veja no campo feminino: em 1990, quando iniciamos nossas atividades, a mulher começava a ingressar no mercado de trabalho. Hoje ela tem dupla, senão tripla jornada. Comanda seus lares, cuida dos filhos, vai para seu trabalho, nos finais de semana está nos bancos das faculdades fazendo seus MBAs, viajando e tomando pílula anticoncepcional, fumando mais que o homem, bebendo igual ao homem. Em 1990, a cada nove infartos, um era em mulher. Hoje, a cada três infartos, um é em mulher. Elas se tornaram presa fácil do estresse cotidiano. As doenças cárdio e cérebro-vasculares têm as incapacitado duas vezes mais do que todos os cânceres femininos.

No mundo corporativo é pior?

O mundo corporativo demanda fazer mais por menos. Trata-se, sem dúvidas, de um ambiente extremamente estressante. Muitos moram no trabalho e dormem nos aviões. Não há tempo para um hobby, a célula familiar se desfaz de forma banal. Ser executivo hoje é uma função complexa e por isso as empresas estão investindo na saúde e na segurança de seus executivos. O check-up hoje é ferramenta de segurança empresarial. No passado era visto como um benefício. Mas quanto custa para uma empresa perder um profissional estratégico? A quebra da engrenagem empresarial custa muito caro a uma organização.

Qual a importância da prevenção?

O mais importante é saber, diante desse estresse enorme, quais são os fatores de risco à sua saúde provocados por ele. Hoje não há porquê um indivíduo se deparar com uma doença em estágio avançado. A prevenção, o conhecimento dos fatores de risco e o tratamento precoce são caminhos importantes para a longevidade com autonomia. A medicina preventiva é a especialidade que mais cresce nos grandes centros.

As doenças têm chegado mais cedo?

Se numa ponta a bioengenharia, a tecnologia está se desenvolvendo – observe que os equipamentos médicos hoje são muito menores, precisos, menos invasivos – por outro lado, o estresse que se vive é muito grande. Se em 1990 nós identificávamos isquemias do miocárdio em homens a partir dos 50 anos, hoje fazemos esse diagnóstico em pacientes de 35 anos. O câncer de próstata era identificado a partir dos 60 e hoje não são raros os casos a partir dos 45. O câncer de mama observávamos em mulheres a partir dos 40, com histórico familiar, excesso de peso, uso de pílula. Hoje não raro em mulheres a partir dos 35. O que é isso senão um estresse enorme baixando nossa imunidade?

Há uma saída?

Tudo o que pudermos fazer para nos alegrar passa a ser remédio. Coisas simples. Por exemplo, rir. Rir é um hábito inerente do indivíduo saudável. O círculo relacional é muito importante, pois com amigos se conversa, desabafa e problemas que pareciam gigantescos se tornam mais simples. Da mesma forma, é a família, esquecida por muitos que privilegiam seu trabalho.

Vou contar a história de um paciente nosso, um executivo brilhante, diretor de uma grande empresa nacional. Ele fez uma obstrução intestinal, foi operado, ao sair do centro cirúrgico ele infartou e implantamos dois stents. Dali ele foi para o CTI. Ele tinha uma doença de fundo, que era o diabetes, que liquidou a imunidade dele. Ele foi com o pensamento de que sairia rápido do hospital, pois sua mesa estava sobrecarregada de contratos que ele precisava assinar. Ao cabo de 30 dias de internação a única coisa que ele queria era voltar para casa para estar com seus filhos. A vida tem que ter um equilíbrio. Quando você coloca todas as emoções em uma cestinha só, vai faltar para outras até mais importantes.

Há como se livrar do estresse?

A questão não é se livrar do estresse, pois ele é onipresente, mas sim ter corpo preparado para enfrentá-lo. Alguns dos caminhos são a manutenção de um bom círculo relacional e a busca da motivação no cotidiano. Além disso, é importante conhecer os fatores de risco, praticar atividades físicas regulares, a partir das quais o corpo produzirá endorfina (morfinas naturais que vão atenuar as ações das adrenalinas e do cortisol), reduzir açúcar e dormir um sono de qualidade. Recentemente um jornalista entrevistou uma senhora de 114 anos no Japão e perguntou a ela qual é o segredo da longevidade. Ela respondeu: como pouco, ando muito e durmo bem. Quem faz isso no mundo atual?

Ver comentários