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Febre amarela: uma morte a cada dois dias no Espírito Santo

Tendência é que número de casos caia, em razão da vacinação

Depois de um início de ano tomado pelo medo da febre amarela e pela corrida para garantir a vacina, o Espírito Santo chega à metade de 2017 com o triste dado de 85 mortes por causa da doença, segundo a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa).

Dez notificações de morte estão sob investigação se, de fato, foram causadas pela doença. Desde janeiro, foram notificados 795 casos no Estado. Estão confirmados 284. E estão ainda sob investigação 87. O restante foi descartado.

Todos esses casos são do tipo febre amarela silvestre, em que a transmissão ocorreu em área de mata ou rural por mosquitos que só vivem nesses tipos de locais.

A febre amarela atingiu 37 municípios. Em 27 dessas cidades houve mortes por febre amarela.

Após a campanha de vacinação no Estado, especialistas dizem que a tendência é de que as infecções caiam mais. “Temos uma cobertura que não é de 100% de vacinação, mas é muito boa. Desde janeiro que a vacina fez um bloqueio da doença”, diz Gilton Almada, coordenador do Centro de Emergência em Saúde Pública da Secretaria de Estado de Saúde (Sesa).

“Mas não conseguimos fazer uma previsão segura de quando vai terminar”, reconhece o infectologista Aloísio Falqueto, que crê que a doença chegou ao Estado pelo nordeste de Minas Gerais, que também sofreu e sofre com a doença.

Em Minas, 151 mortes pela doença foram confirmadas. Houve 1.139 notificações de casos. Desses, 554 foram descartados; outros 427, confirmados. E os números podem ser maiores, já que o último boletim epidemiológico divulgado pelo governo de Minas Gerais é de 26 de abril.

“Alguém sem vacina migrou da mata da Amazônia para lá com a doença, que se espalhou pela região e veio descendo pelo vale do Rio Doce até chegar ao Espírito Santo. Entrou na mata aqui também e começou a transmissão silvestre”, diz Aloísio Falqueto.

Ele explica que em 60% dos casos de infecção da doença ou os sintomas não se manifestam ou são leves, a ponto de a pessoa não desconfiar que teve a doença. Por isso, quem foi infectado no Norte do país pode ter repassado a doença sem saber que foi infectado.

O infectologista Crispim Cerutti Júnior acrescenta que uma mutação no vírus facilitou sua transmissão. E cita também fatores climáticos. “Tem a questão do aquecimento global, que facilitou o aumento no mundo inteiro de vetores (mosquitos) de doenças, não só da febre amarela, mas também da dengue e da malária”, acrescentou o infectologista.

Falqueto reforça a necessidade de as pessoas que ainda não se vacinaram de buscarem os postos de saúde. “Hoje é continuar chamando a atenção para a necessidade de vacinar”, diz.

“Os casos que ainda são notificados são daqueles que relutam em buscar a vacina”, completa Almada.

Um exemplo disso é a crediarista Edivani Souza de Oliveira, 31 anos. Ela foi a única da sua família a não tomar vacina. “Não tomei vacina por falta de tempo. A gente pensa que nunca vai acontecer com a gente”, reconhece.

Ela é moradora de Vitória e acredita que foi infectada durante uma viagem a Biriricas, interior de Domingos Martins. “Comecei a passar mal, muita dor no corpo, calafrio. O médico achou que era anemia”, relata. Com a continuidade dos sintomas, ela buscou de novo ajuda e finalmente desconfiaram da doença. Ela ficou 11 dias internada. Hoje seu caso é um dos em investigação.

87% da população capixaba já está vacinada contra a febre amarela

Doses da vacina contra a febre amarela  distribuída pela Sesa em todo o Estado
Doses da vacina contra a febre amarela distribuída pela Sesa em todo o Estado
Foto: Fred Loureiro/Secom-ES

Em todo o Estado, a cobertura vacinal atingiu 84,67% da população. Embora o percentual seja alto, especialistas reforçam a necessidade de quem ainda não foi imunizado garantir a vacina. Ao todo, 3.029.495 pessoas foram vacinadas no Espírito Santo, segundo a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa).

A cidade com maior cobertura vacinal é a Serra, onde 98% da população da cidade já foi vacinada. A cidade oferece as vacinas nas unidades de saúde, de segunda a sexta-feira, de acordo com o estoque e cronograma local. Quem tem mais de 60 anos ou está em algum grupo de risco deve apresentar laudo de que pode ser imunizado.

Em Vila Velha 76% (321.999) da população já foi imunizada. Além de disponibilizar vacinas em 17 unidades, de segunda a sexta, das 8h às 12h e das 13h às 16h, o município foi até a casa dos cidadãos até o último dia 10. A cidade fez o chamado “Monitoramento Rápido de Coberturas” (MRC), em que equipes de Vigilância Epidemiológica em conjunto com Unidades de Saúde fazem as visitas.

A Prefeitura de Cariacica vacinou 239.010 habitantes, ou 70%. A cidade faz também a vacinação porta a porta, com o apoio da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). A ação vai ser feita até imunizar 100% da população, segundo a prefeitura. A vacinação continua nas unidades de saúde, das 8h às 15h.

Na Capital, 97,2% das pessoas foram imunizadas (ou 324 mil). A meta é chegar a 333.162. As 28 salas de vacinação da cidade estão imunizando contra a febre amarela. Elas funcionam de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h,

A cidade também foi às casas das famílias para vacinar, entre 11 de maio e 5 de junho, com meta de atender 6.700 pessoas em 134 pontos do município. Vitória orienta a quem não foi vacinado ainda a buscar imunização nos pontos de saúde.

Chegada do inverno deve reduzir número de mosquitos

Com a proximidade do inverno, a expectativa é de que os casos infecção por febre amarela caiam. Com temperaturas mais baixas, a tendência é de que diminua também a população dos mosquitos vetores da doença, embora essa seja mais acentuada nas áreas urbanas.

Por enquanto, não há registros de febre amarela no Estado do tipo urbano, que é transmitido pelo Aedes aegypti, o mesmo que propaga a dengue, a zika e a chikungunya.

Edivani ficou 11 dias internada, com suspeita de febre amarela. O problema afetou fígado e rins, como é típico da versão grave da doença
Edivani ficou 11 dias internada, com suspeita de febre amarela. O problema afetou fígado e rins, como é típico da versão grave da doença
Foto: Carlos Alberto Silva

Só há registros no Estado de febre amarela silvestre, que é transmitida no meio rural ou área de mata, por mosquitos que só vivem nesses locais.

“A tendência é de que tenha uma população menor de mosquitos, embora o impacto na mata não seja igual ao na área urbana”, reconhece o infectologista Crispim Cerutti Júnior.

A maior parte das infecções por febre amarela ocorreram em municípios com grande cobertura de mata. A cidade com mais casos confirmados é Santa Leopoldina (44), segundo o último boletim divulgado pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa). Em segundo lugar vem Ibatiba, com 23 casos.