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Hospitais infantis: famílias sofrem em busca de atendimento

Problemas vão de superlotação a demora para as consultas

"Temos que esperar o ônibus  na rua para voltar para casa. Não há lugar para  quem vem do interior" - Ana Cláudia Fernandes, dona de casa de Jaguaré
"Temos que esperar o ônibus na rua para voltar para casa. Não há lugar para quem vem do interior" - Ana Cláudia Fernandes, dona de casa de Jaguaré
Foto: Carlos Alberto Silva

Jaguaré, 2h da madrugada. O relógio desperta. É hora de a dona de casa Ana Cláudia Fernandes, 32, acordar a filha Antônia, de 2 anos, para o dia de tratamento no Hospital Infantil, em Vitória. A pequena sofre de hiperplasia congênita suprarrenal – doença que afeta a produção de hormônios. O dia será longo; a volta pra casa adentrará a noite.

“A consulta é rápida, por volta das 7h30 já somos liberadas. Mas dependemos do ônibus da prefeitura para voltarmos e ele só vem lá pelas 17h”, conta a mãe, que espera pelo transporte na rua, já que o hospital não dispõe de um local para acolher quem vem do interior.

A dificuldade de acesso ao transporte – no caso de quem percorre longas distâncias em busca de tratamento – dá início a uma vasta lista de insatisfações por parte de quem busca tratamento no local. Basta uma visita ao Hospital Infantil de Vitória para ouvir relatos de superlotação, infraestrutura precária, demora na triagem e adiamento de exames. Como reclama e lamenta Maria de Fátima de Andrade, 51 anos.

“No último dia 8 minha filha deveria ter feito um raio X e não fez. Ninguém deu uma justificativa, só remarcaram para o dia 31 de julho”, diz ela.

Atravessando a Terceira Ponte, a situação se repete no Hospital Estadual Infantil e Maternidade de Vila Velha (Himaba). Lá, mães queixam-se da superlotação, de internações em corredores, da carência de pediatras no pronto-socorro e do adiamento de cirurgias por falta de material hospitalar.

HISTÓRICO

As dificuldades enfrentadas diariamente por crianças, adolescentes e familiares nos hospitais estaduais é tão preocupante quanto antiga. Em maio deste ano, uma série de reportagens de A GAZETA já relatava a falta de leitos no Hospital Infantil de Vitória para pacientes que lutam contra o câncer. Além de atrasos de até 30 dias para o início de quimioterapias e da falta de médicos oncologistas no plantão dos fins de semana.

Cerca de um mês antes, uma carta divulgada pela Prefeitura de Vila Velha acusava o Estado de se recusar a atender crianças no Himaba, “acarretando reflexos graves para o pronto atendimento nas unidades pediátricas das cidades, notadamente, no Pronto Atendimento (PA) da Glória”. Por sua vez, o secretário de Estado de Saúde, Ricardo Oliveira, rebateu as acusações, atribuindo a superlotação dos PAs às deficiências na rede primária de saúde, ofertada pelos municípios.

Diante da demora para a chegada de soluções, órgãos como o Ministério Público e a Defensoria Pública Estadual tentam intervir para mudar essa situação. Conforme explica o defensor público do Núcleo de Infância e Juventude de Vitória, Renzo Gama, a demanda proveniente dos dois hospitais é frequente. Na maioria dos casos, pais e responsáveis processam o Estado para garantir a realização de procedimentos como cirurgias.

“Nós ajuizamos ações individuais visando a garantia dos direitos das crianças, mas também já entramos com uma ação civil pública contra o Hospital Infantil de Vitória em 2014, quando um gerador não funcionou após um apagão, desligando vários aparelhos”, diz Renzo.

Segundo o defensor, o gerador foi trocado em 2016, mas os problemas estruturais persistem. “A última visita que fizemos foi em abril e constatamos que o atendimento ainda é precário principalmente no pronto-socorro e na emergência. Pais ficavam por dias em cadeiras de plástico, enquanto crianças eram medicadas em cadeiras, quando deveriam estar em leitos”, afirma.

Cirurgias canceladas e falta de material são problemas comuns

 A vendedora Scarlatt Costa Moura, 25, foi ao Himaba buscar atendimento para o filho. Lá recebeu a  informação de que não havia pediatra no pronto-socorro.
A vendedora Scarlatt Costa Moura, 25, foi ao Himaba buscar atendimento para o filho. Lá recebeu a informação de que não havia pediatra no pronto-socorro.
Foto: Carlos Alberto Silva

“Não ter um pediatra no pronto-socorro de um hospital infantil é uma negligência.” A fala carregada de revolta é da auxiliar administrativa Flávia Freire, de 26 anos. Na semana passada, ela buscou atendimento para o filho no pronto-socorro do Himaba - Hospital Infantil em Vila Velha -, e foi surpreendida pela falta de médico.

“É uma situação ruim. A gente paga os nossos impostos em dia e quando precisamos não temos retorno nenhum. Meu filho quebrou a perna e foi atendido por um ortopedista, mas e se ele tivesse sofrido algo mais grave?”, desabafa.

Segundo Flávia, a unidade está frequentemente superlotada. “Há várias crianças internadas no corredor, tem até um recém-nascido, de 15 dias, no corredor no colo da mãe. O pronto-socorro está superlotado”, lamenta.

A vendedora Scarlatt Costa Moura, 25, levou o filho à unidade no último dia 9 e saiu sem atendimento. “Perdi um dia de trabalho e perdi a viagem”, lamenta.

CIRURGIAS ADIADAS

Outro problema enfrentado pelas famílias que buscam atendimento no Hospital Infantil de Vila Velha é o adiamento de cirurgias devido a falta de material hospitalar. A estudante Alícia Vitória Ferreira Pereira, 10, que quebrou o fêmur e rompeu o ligamento do joelho, teve a cirurgia cancelada duas vezes.

No último dia 7, enfim o procedimento foi realizado. A mãe dela, a comerciante Cleide Ferreira Silva, 43, teme que a filha fique com alguma sequela devido à demora.

“É um sofrimento muito grande as crianças ficarem esperando por cirurgias e quando chega a data marcada não tem o material. Graças a Deus a de Alícia saiu, mas espero que não tenham ficado sequelas”, diz.

SEM ESTRUTURA

A situação dos moradores do interior, que viajam horas para que seus filhos sejam atendidos nos hospitais é ainda pior. O drama é sentido pela lavradora Maria de Fátima de Andrade, 51. A filha dela, a estudante Viviane Andrade de Souza, 7 anos, sofre de constipação refratária (dificuldade para evacuar) e pelo menos uma vez por mês, elas vêm de Santa Leopoldina para fazer o tratamento no Hospital Infantil de Vitória.

“Quando termina o atendimento não temos um local adequado para esperar a van para voltar para casa. Sem contar que a van vem superlotada, são duas, mas uma sempre está quebrada”, afirma.

A estudante Ana Júlia Pagotto Zorzal, 16, está internada com hepatite e segundo a mãe dela, a advogada Lucibéria Pagotto Zorzal todos os exames foram feitos, mas para passar pela triagem foi uma verdadeira via-crúcis.

“Para conseguir ser atendida, passar pela médica e começar a fazer os exames, foram cerca de seis horas. Teve muito estresse e tinha gente brigando porque estava achando que o atendimento estava demorando”.

Solução é a construção de novo hospital, diz promotora

Vistorias realizadas pelo Ministério Público Estadual encontraram irregularidades no Hospital Infantil de Vitória
Vistorias realizadas pelo Ministério Público Estadual encontraram irregularidades no Hospital Infantil de Vitória
Foto: Carlos Alberto Silva

A construção de um novo Hospital Infantil em Vitória é, para o Ministério Público do Espírito Santo (MPES), a única saída para dar conta da demanda por atendimentos. Em um acordo feito com o órgão, a Secretaria de Estado de Saúde (Sesa) já se comprometeu a criar um projeto para o novo local, que deverá ser apresentado em agosto.

“Do jeito que está não há como continuar funcionando”, justifica a promotora de Justiça da Saúde de Vitória Inês Thomé Poldi Taddei. Segundo ela, os maiores problemas encontrados no local são de ordem sanitária e de infraestrutura. “O atual hospital não comporta os atendimentos. O corpo médico existente é pequeno, mas o espaço físico que existe hoje não comportaria a quantidade que precisa ser ampliada”, completa.

Antes que a solução definitiva chegue, alguns setores do Hospital Infantil serão transferidos para o Hospital da Polícia Militar (HPM). O primeiro deles será o pronto-socorro, que migrará em julho. Já em agosto será a vez do setor de Oncologia. Um projeto de melhorias no atual hospital também deverá ser mostrado ao MPES.

HIMABA

A Sesa terá até o dia 20 deste mês para apresentar um posicionamento diante das irregularidades encontradas durante vistorias no Himaba à Promotoria de Justiça Cível de Vila Velha, bem como um cronograma de ações para saná-las. Caso isso não aconteça, o MPES afirma que proporá uma nova Ação Civil Pública (ACP) contra o Estado. Outra ACP já foi ajuizada visando a realização de um concurso público para a contratação de pediatras, além da elaboração de planos de carreira.

Diretores das duas unidades reconhecem que há problemas

Vistorias realizadas pelo Ministério Público Estadual encontraram irregularidades no Himaba
Vistorias realizadas pelo Ministério Público Estadual encontraram irregularidades no Himaba
Foto: Carlos Alberto Silva

O diretor-geral do Hospital Infantil Nossa Senhora da Glória, Nélio Almeida dos Santos, reconhece os problemas de superlotação e falta de infraestrutura no pronto-socorro da unidade. Segundo ele, a situação será resolvida no próximo mês, após a transferência do pronto-socorro para o Hospital da Polícia Militar (HPM).

Quanto à demora na triagem, ele esclarece que o atendimento é priorizado conforme a gravidade do caso. A falta de alojamentos e de alimentação para quem vem do interior também foi justificada. O diretor afirma que não há portaria que prevê esses auxílios.

À respeito do raio X da paciente Viviane Andrade de Souza, 7, que segundo a mãe dela, Maria de Fátima de Andrade, deveria ter sido feito no último dia 8, o diretor afirmou que, provavelmente, a lavradora foi informada dos motivos da remarcação do exame.

“Foi agendado para a data mais próxima antes da consulta de reavaliação, com o médico que solicitou”.

HIMABA

A diretora-geral do Hospital Estadual Infantil e Maternidade Alzir Bernardino Alves (Himaba), Gisele Oliveira, admitiu a falta de pediatras. Ela afirma que o problema ocorre desde 2013, devido a falta de profissionais no mercado.

“Não temos pediatras para atender a porta. Temos dois plantonistas e um diarista para atender quem está internado ou em observação”, relata.

Em relação à superlotação, ela acredita que a quantidade de leitos que será aberta novo pronto-socorro do infantil de Vitória, no HPM, ajudará a desafogar também a demanda do Himaba.

TRANSPORTE

A prefeitura de Santa Leopoldina informou que disponibiliza quatro vans diariamente, e que não há registros de superlotação. Quanto a demora, informou que é necessária a compreensão dos usuários.

A prefeitura de Jaguaré informou que a falta de ônibus é um problema da gestão antiga, que será sanado. Não foi informado o prazo.

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