Notícia

Soldado da PM faz live da própria prisão em Cachoeiro de Itapemirim

Postagens dele no Facebook foram entendidas como atos de perturbação da ordem interna da corporação e, consequente, da ordem pública

Atualizada às 18h40

Coronel Alessandro Marin, que comanda o CPO Sul da PM, segura o braço do soldado pelas grades do portão da casa do militar
Coronel Alessandro Marin, que comanda o CPO Sul da PM, segura o braço do soldado pelas grades do portão da casa do militar
Foto: Reprodução/ Facebook

O soldado da Polícia Militar Nero Walker Soares da Silva foi preso na manhã desta sexta-feira (16) em sua casa no bairro Amarelos, em Cachoeiro de Itapemirim, no Sul do Estado. O militar fez uma transmissão ao vivo (veja vídeo abaixo) pelo Facebook da própria prisão, enquanto outros oficiais da PM o aguardavam do lado de fora da casa. O motivo da prisão, de caráter preventivo, são as postagens feitas pelo policial no Facebook, que fazem críticas à Polícia Militar e às autoridades públicas do Estado.

Com o título da transmissão "Acho que vão tentar me prender", o soldado pede para ler os mandados de prisão e de busca e apreensão antes de se entregar à polícia. Enquanto um outro PM lê a decisão judicial, o comandante do Comando de Policiamento Ostensivo (CPO) da região Sul, coronel Alessandro Marin, segura o braço de Nero Walker pelas grades do portão.

"Por que o senhor está me agredindo? Eu tô colaborando com o senhor. Quero ler o mandado primeiro", questiona o militar durante sua prisão.

De acordo com o texto lido por um dos militares que atuou na prisão de Walker, ele responde pelos artigos 254 e 255 do Código Penal Militar, em que um policial pode ser preso preventivamente diante do requerimento da justiça para "a garantia da ordem pública".

FUNDAMENTAÇÃO

Walker é apontado como um dos militares que participaram do movimento paredista da policia militar do Espírito Santo em fevereiro, atuando principalmente nas redes sociais e na gravação de vídeos. Ele administra uma página no Facebook, com temas relacionados ao dia a dia da atividade policial. Por essa razão, ele já era indiciado em um inquérito.

No entanto, de acordo com o advogado da Associação de Cabos e Soldados, Tadeu Andrade, a prisão do soldado não diz respeito à sua participação na paralisação da PM e sim às suas postagens no Facebook, que foram entendidas como atos de perturbação da ordem interna da corporação e, consequente, da ordem pública.

"Eram abordagens de fatos públicos e conhecidos, como o não cumprimento da Lei de promoções. Só que isso foi tido como um desrespeito a um superior hierárquico, já que as postagens criticavam autoridades como o governador Paulo Hartung, o secretário de segurança, André Garcia, e o comandante da PM, coronel Nylton Rodrigues. Isso segundo a PM, a defesa não assume que ele tenha postado isso", explica Tadeu, que ainda estuda qual medida será tomada para garantir a liberdade de Nero, que encontra-se preso no quartel da PM, em Maruípe.

Durante a ação dessa manhã, os militares cumpriram um mandado de busca e apreensão na casa de Walker, "focando na localização de pen drives, computadores e outros dispositivos de armazenamento de dados", de acordo com o mandado lido pelo soldado no vídeo.

Associação considera que prisão é “absurda”

A prisão de Nero Walker Soares da Silva foi classificada pela Associação de Cabos e Soldados do Estado como “equivocada” e “absurda”. Para o presidente da entidade, sargento Renato Martins, “está havendo perseguição política e repressão à liberdade de manifestação”.

“A própria Constituição diz que é livre a manifestação do pensamento”, defende Martins. De acordo com o sargento, Walker estava afastado de suas funções e passava por um tratamento psiquiátrico. “Mas isso certamente não foi considerado”, criticou.

Já o coronel Ilton Borges, da Corregedoria da PM, argumenta que não se trata de censura, mas sim de uma medida necessária para cessar as recorrentes ofensas feitas por Walker à seus superiores. “Ele incide em várias práticas criminosas. Além de criticar, difamar seus superiores hierárquicos, ele incita outros policiais à desobediência rotineiramente”, garante.

Greve da PM vira ação penal na Justiça Militar

O movimento de paralisação da PM, em fevereiro, começou a ser investigado pela Justiça Militar, que já recebeu as primeiras ações penais contra policiais acusados de insuflar os ânimos da tropa, conforme foi noticiado no último dia 11 na Coluna Victor Hugo do jornal A Gazeta. O Ministério Público ainda não ofereceu acusação de motim, o que pode ocorrer futuramente. Estão sendo processados oficiais da ativa e da reserva e praças.

No total, são nove réus em três processos. Os inquéritos foram abertos na Corregedoria Militar, que ainda está apreciando outras dezenas de processos. As investigações avançaram, o MP recebeu os inquéritos e ofereceu denúncia à Justiça Militar, que já começou a fazer audiências.

Ver comentários