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"Estava muito assustado", diz mulher que socorreu menino em acidente

A dona de casa Rafaela Marques, 34 anos, passava com a família pela Rodovia do Sol quando viu as vítimas de atropelamento caídas no chão

Carro que atropelou e matou duas pessoas na Rodovia do Sol
Carro que atropelou e matou duas pessoas na Rodovia do Sol
Foto: Guilherme Ferrari

"Ela gritava 'ai, ai, ai' e olhava para o chão. Falei com o meu esposo: 'Acho que tem um neném no chão'. Pedi para ele voltar. Mais à frente, ele viu duas pessoas mortas". Essas foram as primeiras cenas que a dona de casa Rafaela Marques, 34 anos, e o marido presenciaram logo após o acidente, que matou duas pessoas e deixou uma criança gravemente ferida na altura de Interlagos, na Rodovia do Sol, em Vila Velha, neste domingo (16). O motorista do carro admitiu ter ingerido bebida alcoólica e acabou preso. A criança, de 2 anos, foi encaminhada ao Hospital Infantil de Vitória e avó levada para o Hospital São Lucas, também na Capital. 

Pela manhã, por volta das 11h, Rafaela seguia de carro para o Balneário Ponta da Fruta, no mesmo município, para continuar as comemorações do noivado do irmão, com o esposo e as duas filhas, quando, por volta das 11h, viu uma mulher em pé à beira da pista.

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Um pouco mais à frente, ao parar, o marido da dona de casa desceu do veículo. Ela permaneceu com as filhas, de 5 anos e 1 ano e oito meses de idade dentro do carro. "Na hora que meu marido voltou, eu desci com a minha filha no colo. Ele me disse para voltar, porque tinha visto os dois corpos e já tinha muita gente lá. Mas falei com ele do bebê. Entreguei a minha filha menor e fui olhar o que tinha acontecido. Primeiro vi um homem branco com o pé virado e, mais à frente, um homem negro de bruços. Aí fui em direção à mulher. Cheguei junto com o resgate da Rodosol."

Foto de arquivo mostra Rafaela com a família. Eles passaram de carro pela Rodovia do Sol logo após o acidente
Foto de arquivo mostra Rafaela com a família. Eles passaram de carro pela Rodovia do Sol logo após o acidente
Foto: Reprodução/Facebook

Nesse momento, segundo Rafaela, a mulher já estava mais afastada da criança. "Ela gritava pelo marido. Como o neném estava no chão, quase no meio-fio, o pessoal do resgate colocou os equipamentos deles no chão também. Eu vi que tinha muita formiga. Perguntei se podia retirá-las. Eu batia no material para tirar as formigas e o neném deitado do lado. Comecei a tentar acalmá-lo. Um dos socorristas estava bem sentido. Ele dizia que tinha visto esse pessoal, acho que atravessando. Comecei a conversar com o neném."

Logo em seguida, um homem, que se apresentou como coronel do Corpo de Bombeiros, chegou para ajudar. "O bebê estava muito assustado. Perguntava o nome dele, que respondia: 'neném, neném'. Eu segurava a mãozinha dele, dizendo que a titia estava aqui. O susto era tão grande que ele não conseguia chorar muito. Ele gritava baixo. Estava muito assustado e com medo. Comecei a cantar música do Patati Patatá e da Galinha Pintadinha. A perna dele parecia quebrada. Ele estava de roupa de frio e calça jeans. Não parecia que os braços estavam machucados. Ele queria colo e, por isso, esticava os braços. O coronel avisou que ele não podia mexer os braços. Expliquei que segurava o cotovelo para ele não se levantar."

No local, alguém pegou os documentos da vítima e viu o nome Davi na certidão de nascimento do menino. "O rapaz do resgate tentava distraí-lo, falando que ia levá-lo para passear. Meu esposo me ligou contando que as minhas filhas estavam chorando no carro e era para eu voltar. Quando o neném entrou na ambulância, eu fui embora. Passei pela avó, que estava com outras pessoas, e tentei acalmá-la. Ela peguntava pelo marido e pelo filho, se eles tinham morrido. Eu falei que o Davi estava bem. Ela disse: o David? Aí entendi porque ele não me respondia quando o chamava de Davi. Corri na ambulância e falei o nome certo."

Na hora que viu a criança, Rafaela só pensava em ajudá-lo. "Não tive medo, não fiquei nervosa, nem em pânico. Só queria saber se ele estava bem. Fiquei agradecida por ter passado pelo local e poder ter ficado com ele. Tinha muita gente, foi preciso cortar a roupa dele... Tentei não deixar ele ver tudo que estava acontecendo, distraí-lo para não ouvir que tinha quebrado a perna."

Um fato chamou a atenção da dona de casa: as pessoas paravam para olhar, mas ela não viu ninguém filmando ou tirando foto.

As tragédias nas rodovias do Espírito Santo parecem não ter fim. Um dos homens que morreu seguia para o chá-de-bebê do filho. E, em apenas 1 mês, 51 mortes foram registradas nas estradas do Estado.