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Saúde na UTI: O caos no principal Pronto Atendimento de Cariacica

Espera, lotação e falta de médicos viram rotina em Alto Lage

Crislayne foi duas vezes ao PA tentar atendimento para a filha, Dalilla, que tinha pneumonia
Crislayne foi duas vezes ao PA tentar atendimento para a filha, Dalilla, que tinha pneumonia
Foto: Guilherme Ferrari

No colo da mãe, a pequena Dalilla Azevedo, de um ano, aguardava por atendimento. Cinco horas já haviam se passado desde que ela e a mãe, Crislayne Azevedo, 23, chegaram ao Pronto-Atendimento do Trevo, em Alto Lage, Cariacica. E já era a segunda vez que iam ao local em busca de uma solução para a pneumonia da garotinha.

No domingo anterior, dia de plantão da unidade, Crislayne aguardou até à meia-noite pelo resultado de um exame que não saiu. “Só ficaria pronto à 1h30 e não pude esperar. Sem dinheiro para o táxi, fomos a pé até o ponto de ônibus, que é distante, com medo dos bandidos”, relata.

Por mês, o número de pessoas que buscam atendimento já supera em muito o limite da unidade, que é de 15 mil. Só no último mês de maio, segundo dados da própria secretária de Saúde do município, entre adultos e crianças, foram atendidas quase 23 mil pessoas. Por dia são quase 489 atendimentos e destes, oito são de emergência.

Números que se refletem na recepção, lotada, onde adultos e crianças disputam espaço em cadeiras que se transformam em camas para os que se cansam da longa espera por atendimento. No local não faltam reclamações não só da longa espera, mas também da falta de médicos e até de triagem.

Que o diga a doméstica Maria José da Silva, 47, que chegou ao PA às 7h30, só foi atendida por volta de 17h, mas ainda aguardaria até às 21h pelo resultado do exame: “E estou com fortes dores abdominais e gripe.”

Enquanto aguardava, relatou à reportagem que viu pacientes desmaiando à espera de atendimento e pessoas que desistiram, preferindo ir embora para casa. “A gente perde o dia de trabalho e ninguém acredita”, desabafa. E para piorar a situação, relata a doméstica, só haviam quatro médicos atendendo: “Idosos e deficientes físicos não têm prioridade.”

Procura

De acordo com Eduardo Siqueira, líder comunitário de Alto Lage, por ser nova e oferecer até a realização de exames, a unidade é muito procurada pela comunidade, até por pessoas de outros municípios. Um dos problemas da longa espera, conta, é a demora para liberar o resultado dos exames: “Você espera o dia todo, o que é um absurdo, já que lá tem laboratório.”

Mas a situação se agrava, acrescenta ele, quando há falta de médicos. “Muitos, a gente vê, não cumprem a carga horária. Estão no plantão, saem para o descanso e vão embora”, conta.

Outro problema é a falta de triagem, conta a dona de casa Maria das Graças Silva, 58, que frequentemente vai à unidade em busca de atendimento para a mãe, uma idosa de 86 anos que sofre de incontinência urinária. “Nem ela sendo idosa eles dão prioridade. A recepção está sempre cheia, às vezes não temos nem onde esperar. Já vi gente desmaiar aqui por falta de atendimento. É uma falta de respeito muito grande”, assinala.

"É penitência", afirma mãe de paciente

Sabrina e a filha, Valentina, já tiveram que esperar atendimento sentadas no chão
Sabrina e a filha, Valentina, já tiveram que esperar atendimento sentadas no chão
Foto: Fernando Madeira

Penitência. É assim que a doméstica Sabrina Dionísio Caldeira Alvarenga, 29, classifica o atendimento no Pronto-Atendimento do Trevo de Alto Lage, em Cariacica. A principal queixa dela: a falta de pediatras.

Ela conta que a recepção fica tão cheia, que ela já chegou a esperar atendimento para a filha no chão. O fato ocorreu no último mês.

À época, a menina Valentina Caldeira Alvarenga, 8 meses, sofria com infecção no ouvido e na garganta. “Em um dia esperei das 15h às 21h. No outro dia retornei e esperei das 13h às 20h, pois minha filha teve reação alérgica ao remédio que a médica passou. Me sinto impotente vendo minha filha com dor e não poder fazer nada.”

Além de esperar por longas horas e sem expectativa alguma de atendimento, os pacientes se queixam de ter que esperar sem ter alimentação, e muitos, vão apenas com o dinheiro da passagem.

Para a Sabrina e tantos outros, o alívio para fome vem por meio de trabalhos humanitários realizados por algumas igrejas. “Graças a Deus o pessoal da igreja passa oferecendo lanche”, comenta.

Espera

A operadora de caixa Joanice Souza Ribeiro, 27, esteve no local com o marido também no último mês. Na ocasião ela contou que há quatro dias ele tossia muito, estava com dor no peito, falta de ar e cansaço. A suspeita era de asma.

Joanice conta que ela e o marido, o operador de empilhadeira Alison de Moura, 27, deram entrada no local às 9h, e ele só foi atendido por volta das 18h.

“Antes quando eu trabalhava tinha plano de saúde, nunca pensei em me deparar com uma situação como essa. Tem gente que vem de longe, e não tem dinheiro nem para comer. O mínimo que o prefeito deveria nos dar, não está dando. Saúde deveria vir em primeiro lugar. A gente se sente um lixo.”

Média diária na unidade é de 32 atendimentos para cada pediatra

São 84 pediatras atendendo no PA do Trevo, uma média diária de oito durante o dia e quatro à noite. Se considerar as mais de 11.700 crianças que foram a unidade em maio, cada um deles consultou, em média, pelo menos 32 pacientes por dia.

De acordo com a secretária de saúde de Cariacica, Stéfane Legran Gonçalves Vilaça Macedo, a demanda da unidade é muito expressiva e se reflete no atendimento. “Temos números muito expressivos, não só de atendimento, mas também de consumo de medicamentos. Mas não deixamos de atender ninguém que nos procura”, relata.

O município já constatou, por exemplo, que muitos dos pacientes que procuram o PA do Trevo o fazem em seu dia de folga. “Já estamos considerando até ampliar o atendimento em algumas unidades de saúde, nos bairros, até às 19h ou 20h, como alternativa para absorver parte desta demanda”, conta a secretária.

Ela relata que a secretaria enfrentou dificuldades para contratar médicos, principalmente para atendimento de adulto, e cita que dos mais de 100 convocados do último concurso, apenas um terço aceitou ser contratado. “Mas hoje já temos 52 atendendo”, explica.

Outra aposta dela é a criação de uma clínica de especialidades na antiga Unidade de Itacibá, após reforma do prédio. Também vai contribuir para absorver parte dos pacientes a inauguração da UPA de Flexal II, prevista para o início do segundo semestre. Ela deverá oferecer atendimento 24 horas para cerca de 15 mil pacientes.

Em paralelo, o município luta para resolver com a Secretaria Estadual de Saúde (Sesa) um entrave comum nas unidades de Pronto-Atendimento 24 horas: a internação de pacientes. Em geral, estas unidades precisam ter apenas leitos de observação, onde o paciente deve permanecer por até 12 horas.

Mas não é o que acontece, relata Stéfane. Por mês chegam a ficar internados cerca de 926 pessoas, quase 30 por dia. Há períodos em que pacientes chegam a ficar internados por sete dias, por falta de vagas nos hospitais. O PA do Trevo já registrou semanas com 17 internações em seus leitos. “Temos que deslocar médicos e enfermeiros para cuidar dos internados, o que não é função do PA”, destaca.

PA de Alto Lage

Números

Atendimentos médicos

Mensal - 15.172 pacientes

Média diária - 489

Internações

Mês - 926

Dia - 30,89

Tempo - Ficam por até sete dias e já teve situações de 17 leitos ocupados por pacientes que aguardavam vagas em hospitais. O local mantém leitos apenas para observação.

Outros

Emergência - 8 atendimentos por dia

Procedimentos - 8.467 por mês

Medicações administradas - 27.763 por mês

Odontologia de urgência - 1.964 por mês

 

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