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Em 10 anos, 2.333 pessoas morreram em acidentes na BR 101

Soma é igual a 50% da população de Divino São Lourenço

Trecho da BR 101, na Serra, que aguarda para ser duplicado, próximo a um dos pontos mais perigosos do país segundo dados da PRF
Trecho da BR 101, na Serra, que aguarda para ser duplicado, próximo a um dos pontos mais perigosos do país segundo dados da PRF
Foto: Edson chagas / Arquivo
Infográfico
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Foto: Ilustração/A Gazeta

O equivalente a mais da metade da população de uma cidade capixaba foi morto nos últimos 10 anos e nove meses nos 460 quilômetros da BR 101 no Estado. Perderam a vida em acidentes entre o ano de 2007 e o último dia 27, um total de 2.333 pessoas. Isso corresponde a mais da metade dos habitantes de Divino São Lourenço (4.612), no Sul do Estado.

Neste período, a cada um dia e meio, uma pessoa perdeu a sua vida em uma acidente, segundo dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Só este ano, até o último dia 27, o número de mortes (140) já supera a estatística de todo o ano passado (131).

Icnluídas nas estatísticas, estão as duas tragédias ocorridas este ano: o acidente de Guarapari, com a morte de 23 pessoas em junho, e o de Mimoso do Sul, onde outras 11 morreram em setembro. Ambos envolveram caminhões, ônibus e outros veículos.

Na prática, porém, a estatística de vítimas pode ser ainda maior, já que a polícia contabiliza apenas as mortes que ocorreram na via. Não entra no cálculo os casos em que a pessoa morreu, após ser socorrida, mas em decorrência do acidente.

Nestes quase onze anos, foram contabilizados 28.808 feridos, entre graves e leves. Número que está próximo a população da cidade de Anchieta (28.546) ou a de Sooretama (29.038). Se esse total for somado ao de mortos, chega-se a 31.141. O que significa dizer que, em todos os dias dos últimos onze anos, oito pessoas foram vítimas em acidentes.

Outro dado que se destaca é que neste período foram registrados 47.501 acidentes. O que equivale dizer que, a cada duas horas aconteceu uma colisão ou batida em um ponto da rodovia. Algumas com mortes.

Esta mesma rodovia , segundo outro levantamento nacional da PRF, divulgado no final do ano passado, possui cinco dos 20 trechos mais perigosos do país, incluindo o que está em primeiro lugar, localizado entre os quilômetros 260 e 270 na Serra.

Desde 2013, com a sua privatização, a expectativa era de que a BR 101 se tornasse mais segura. Segundo o contrato, até maio de 2019 metade dela deve estar duplicada, mas até agora nenhum quilômetro ampliado foi entregue. A concessionária Eco101 alega dificuldades financeiras, com as licenças ambientais e com a desocupação das margens da rodovia.

Na avaliação do presidente regional da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) no Estado, Sandro Rottuno, as mortes na BR 101 refletem o que os estudos já apontam. “Temos uma epidemia de mortes no trânsito e ela está se encaminhando para ser a principal causa de mortes”, assinala.

Para o professor e coordenador do curso de Engenharia Civil da UCL, Rodrigo Machado, o que tende a reduzir o alto número de mortes é a adequação do projeto geométrico da rodovia. “A BR 101 não está preparada para o tráfego de hoje”, pondera, avaliando que é preciso, por exemplo, faixas e acostamentos mais largos, que não haja grande variação entre as curvas, vias duplicadas com separação física ou espaço entre elas.

“Meu filho foi morto por um carro na contramão”

Ela sente saudade das brincadeiras, da alegria e da certeza de que ele sempre estaria presente. “Ele sempre falava: Bete, quando eu me casar você vai junto. Gostava de me chamar pelo nome, só para implicar”, conta, com a voz embargada pelas lágrimas, Elizabeth Fraga Pereira, 58 anos.

A dor é pela perda de um dos seus quatro filhos, Christian Filipe Pereira Rodrigues, 23 anos, morto em um grave acidente na BR 101 em agosto de 2014. Faltava pouco mais de um mês para o aniversário dele. “Foi morto por um carro que invadiu a contramão”, conta a mãe. No veículo também estava sua namorada, Angélica Alves Soares, 23 anos, que ficou gravemente ferida.

O acidente aconteceu no km 255, por volta das 22h45. A região fica próximo a um dos trechos mais perigoso da BR 101, no país, devido ao elevado número de acidentes. Christian estava em um Chevrolet Classic prata.

Ele havia buscado a namorada em uma festa de aniversário na casa de familiares, no bairro Divinópolis. Quando estava no bairro Bela Vista, também na Serra, saindo de um semáforo, teve o carro atingido por outro veículo, que invadiu a contramão. Na direção contrária, indo para Fundão, seguia uma família carioca, em um VW Polo preto.

Elizabeth e Andréia (esquerda) guardam com carinho o saxofone do músico Christian, filho e irmão, enquanto aguardam por Justiça
Elizabeth e Andréia (esquerda) guardam com carinho o saxofone do músico Christian, filho e irmão, enquanto aguardam por Justiça
Foto: Edson Chagas

De acordo com informações da polícia fornecidas no dia do acidente, ao passar pelo km 255, próximo a um posto de gasolina, o Polo invadiu a contramão, colidindo de frente com o Classic. Christian morreu no local.

Christian tinha 23 anos e deixou uma namorada
Christian tinha 23 anos e deixou uma namorada
Foto: Arquivo pessoal

Na noite daquele sábado, Elizabeth estava na casa de sua filha, a publicitária Andréia Fraga Pereira Gois, 37 anos. E a ligação que chegou, tarde da noite, mudou por completo a sua vida. “Além de ser um filho muito próximo e atencioso, ele cuidava de mim, me ajudava a pagar o aluguel. Depois de sua morte tive que entregar a casa. Hoje vivo um pouco na casa de cada filho”, desabafa.

Christian trabalhava em uma empresa de telecomunicações e em torno de uns três meses antes do acidente tinha sido promovido. “Estava muito feliz. Já fazia planos de ficar noivo e se casar”, relata a mãe. Mas o que ele mais gostava na vida era de ser músico. “Aprendeu a tocar vários instrumentos ainda criança. E adorava”, conta com orgulho a mãe que mantém guardado os instrumentos musicais do filho, com destaque para o saxofone.

A caixa com os instrumentos e a gravata que ele usava está na casa da irmã, Andréia. “Fomos nascidos e criados em Serra-sede, onde todos o conheciam. Ele tocava na Banda Estrela dos Artistas, em shows, pagodes, em casamentos”, lembra.

A família recorreu à Justiça, em um processo cível pedindo indenização por danos morais e materiais, que caminha a passos lentos, como relata o advogado deles, Jan Carlo Ferreira: “A Justiça é morosa. Até agora só tivemos uma audiência.”

Uma situação que torna a perda ainda mais difícil, conta Andréia, ao destacar que seu irmão não teve culpa no acidente: “A motorista invadiu a contramão, o matou, e continua dirigindo. O sentimento é de impunidade”, conta.

As mortes

2007

Outubro

Seis mortos e 33 desabrigados após colisão e explosão de um caminhão-tanque com outros seis veículos. Em janeiro 4 morreram e 17 ficaram feridos em colisão de carreta com ônibus.

2008

Agosto

Três mortos e 29 feridos em acidente entre ônibus e caminhão.

2009

Abril

Três mortos e 14 feridos em colisão de ônibus e caminhão. Em janeiro três turistas morreram em colisão de ônibus com um Corsa.

2010

Janeiro

Quatro mortos e seis feridos em colisão de Corsa com Tempra.

2011

Junho

Cinco morrem e nove ficaram feridas em um acidente envolvendo cinco veículos.

2012

Abril

Quatro da mesma família morrem em colisão entre carro e caminhão

2013

Outubro

Três pessoas, entre elas uma criança, morreram carbonizadas em colisão de carreta de combustível com carro de passeio.

2014

Fevereiro

Seis pessoas da mesma família morrem em colisão entre carro e carreta.

2015

Novembro

Três morrem e cinco ficam feridas

2016

Julho

Três universitários morreram em acidente

2017

34 pessoas morrem em duas tragédias.

 

 

 

 

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