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Via Láctea pode ter 100 bilhões ou mais de estrelas fracassadas

Até agora, os cientistas já detectaram alguns milhares destes objetos, a grande maioria a distâncias de até 1,5 mil anos-luz da Terra, já que eles são muito tênues e difíceis de serem observados

Com uma grande densidade de estrelas mais maciças, o RCW 38 apresenta condições bem diferentes das regiões observadas antes
Com uma grande densidade de estrelas mais maciças, o RCW 38 apresenta condições bem diferentes das regiões observadas antes
Foto: Kiko Fairbairn

A Via Láctea pode abrigar 100 bilhões ou mesmo mais anãs marrons, objetos celestes também conhecidos como "estrelas fracassadas", aponta estudo apresentado nesta quinta-feira durante o Encontro Nacional de Astronomia, promovido esta semana pela Real Sociedade Astronômica do Reino Unido. Com uma massa intermediária entre planetas e estrelas propriamente ditas, as anãs marrons não foram capazes de dar início às reações de fusão nuclear em seus centros que fazem brilhar astros como nosso Sol.

Desde que as primeiras anãs marrons foram descobertas em 1995, os cientistas logo perceberam que elas são um subproduto natural dos processos que levam à formação das estrelas e seus eventuais sistemas planetários. Até agora, os cientistas já detectaram alguns milhares destes objetos, a grande maioria a distâncias de até 1,5 mil anos-luz da Terra, já que eles são muito tênues e difíceis de serem observados.

Para descobrir o quão comum as anãs marrons são, no entanto, uma equipe de astrônomos liderada por Koraljka Muzic, da Universidade de Lisboa, Portugal, e Aleks Scholz, da Universidade de St. Andrews, na Escócia, começou, em 2006, a estudar cinco regiões de formação de estrelas relativamente próximas da Terra. Entre elas estava o aglomerado estelar NGC 1333, a cerca de mil anos-luz na direção da constelação de Perseu, e o levantamento revelou que lá existiam anãs marrons numa proporção de aproximadamente a metade das estrelas que brilhavam nele, a maior vista até então.

Assim, para determinar se a proporção de anãs marrons no NGC 1333 era incomum ou não, em 2016 os cientistas voltaram seus olhos para um aglomerado ainda mais distante, designado RCW 38, na constela da Vela. Com uma grande densidade de estrelas mais maciças, o RCW 38 apresenta condições bem diferentes das regiões observadas anteriormente pela equipe.

Mas como o aglomerado está a 5,5 mil anos-luz de distância, o desafio para detectar as tênues anãs marrons também foi bem maior. Diante disso, os astrônomos lançaram mão de sofisticados equipamentos instalados no VLT, conjunto de telescópios que está entre os observatórios óticos mais poderosos do mundo, construído e operado pelo Observatório Europeu do Sul (ESO) no Chile.

Com base num total de três horas de observações do RCW 38, combinadas com seus trabalhos anteriores, os pesquisadores descobriram que o aglomerado tem uma proporção de anãs marrons equivalente à vista no NGC 1333, ou seja, cerca da metade das estrelas nele. Segundo os astrônomos, isto indica que o ambiente onde as estrelas se formam, se elas são mais maciças ou não e se estão mais ou menos aglomeradas são fatores de pouca influência na formação das anãs marrons.

"Achamos um monte de anãs marrons nestes aglomerados e, qualquer que seja o tipo de aglomerado, as anãs marrons são realmente comuns", diz Scholz. - A anãs marrons se formam lado a lado das estrelas nos aglomerados, então nosso trabalho sugere que há um enorme número de anãs marrons por aí.

A partir dos dados dos levantamento anterior, batizado Objetos Subestelares em Jovens Aglomerados Próximos (SONYC, na sigla em inglês) e nos resultados das observações do RCW 38, Scholz e Muzic estimam que nossa galáxia tem no mínimo de 25 bilhões a 100 bilhões de anãs marrons. E como também já se sabe existirem anãs marrons ainda menores e tênues que a grande maioria das observadas até agora, este número muito provavelmente subestima a verdadeira quantidade.