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Negócios sufocados por impostos e burocracia

Inovação e contratação também são desafios do empresário

Diego Lobato, diretor proprietário da Vitória Harley Davidson
Diego Lobato, diretor proprietário da Vitória Harley Davidson
Foto: Marcelo Prest

Não é de hoje que problemas como burocracia, alta carga tributária e falta de infraestrutura colocam o Brasil em patamares vexatórios frente a outras nações, inclusive da América Latina. Esses velhos conhecidos somados a outros entraves como a dificuldade de formar lideranças, de implantar uma cultura de inovação ou mesmo de monitorar processos dão o tom de por que é tão difícil empreender no país.

Pesquisa da Endeavor – organização global de fomento ao empreendedorismo – traz à tona esses desafios na visão de quem respira o negócio. O estudo identificou 10 pontos críticos que passam pela gestão de pessoas, gestão financeira, regulação, inovação, vendas, processos, estratégia, infraestrutura, crédito e governança corporativa.

A diretora de Relações Institucionais da Endeavor, Marcela Zonis, afirma que pelo fato “de a regra do jogo mudar o tempo todo” no Brasil, os empreendedores gastam muito tempo decifrando esse ambiente. Uma hora o empresário busca driblar a crise, em outra não consegue contratar mão de obra qualificada, na sequência tenta entender uma norma criada para o seu setor. É o tempo todo tentando apagar incêndio.

“Há muito tempo o Brasil é um país difícil de fazer negócios. O caminho para melhorar é ir atrás de referências positivas e tentar implementá-las, melhorar a qualidade dos empreendedores e buscar uma interface com os órgãos públicos.”

Para além da percepção de quem lida diariamente com essas amarras, os números comprovam a saga que é abrir e dar continuidade a uma empresa no Brasil, seja ela de pequeno ou de grande porte. De acordo o Relatório do Banco Mundial, o Doing Business 2017, abrir uma empresa no país leva em média 101 dias, ou seja, é 200 vezes mais demorado do que começar um negócio na Nova Zelândia, país mais bem classificado no levantamento.

Outro número que assusta é o da carga tributária. Essa conta é tão perversa que é preciso gastar 2.038 horas para organizar e pagar tributos, situação que coloca o Brasil à frente apenas dos nove países que estão na lanterna de uma lista de 190.

O diretor-secretário do Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis (Sescon-ES), Roberto Schulze, pondera que o Estado apresentou melhoras no processo de abertura de empresas, ao sair de 90 dias para 10, em média. “Mas nem tudo são flores. Empresários ainda enfrentam muitos problemas com prefeituras e Corpo de Bombeiros. Faltam critérios claros e uniformidade nas exigências, falta pessoal para dar agilidade aos processos, e ainda existem, mesmo que mais raros, casos de quem cobre por fora para que as coisas aconteçam.”

Diretor-proprietário da rede de academias Razões do Corpo, Marcus Frizzera, conhece bem a via-crúcis que é empreender. Ele, que está há 30 anos no mercado, lista alguns dos desafios: obter linhas de crédito, complexidade da legislação trabalhista e excesso de burocracia e de impostos. “Se for analisar as dificuldades, você desiste logo de cara.”

O empresário lembra de uma situação em que precisava fazer algumas alterações na área da piscina e construir o lava-pés. Para isso, seguiu as normas do órgão federal. O problema é que quando o órgão municipal fez a vistoria disse que o local estava fora dos padrões. “Tive a piscina interditada por 30 dias, foi preciso mudar as medidas e arcar com um custo extra de R$ 18 mil, e ainda fiquei sem alunos nesse período. Fiquei no meio do conflito entre dois órgãos. Foi um caos!”

Quem também relata o sofrimento com tantas exigências e taxas é uma das donas da Maria Gueixa, Grazielle Almeida. Há um ano, ela e a sócia Gabriela Pimentel tentam exportar suas coleções de roupas femininas. “O processo é muito burocrático. Enquanto buscamos os registros necessários, enviamos para fora do país por outras empresas. Mas queremos ter um alcance maior”, revela Grazielle.

Crítico ferrenho da “cultura do carimbo”, o presidente da Federação das Indústrias do Estado (Findes), Marcos Guerra, reforça o quanto esses fardos atrapalham. “Há um acúmulo de tributos em diferentes etapas da cadeia produtiva que mina a competitividade. São inúmeros fatores do famigerado custo Brasil. Se conseguirmos um setor privado mais competitivo, com menos pesos para carregar, naturalmente vamos gerar mais receitas, empregos e desenvolvimento.”

Fonte: Banco Mundial, consultoria PWC e Doing Business
Fonte: Banco Mundial, consultoria PWC e Doing Business
Foto: Marcelo Franco

Falta de preparo põe empresas em xeque

Se já não bastasse o ambiente de negócios hostil que o empresário se depara no dia a dia – o Brasil ocupa a 123ª posição em um ranking de 190 países que mede o grau de facilidade para fazer negócios –, um outro fator que pesa, e muito, contra quem vai empreender é a falta de preparo e de conhecimento gerencial.

A diretora de Relações Institucionais da Endeavor, Marcela Zonis, afirma que muitas pessoas têm uma falsa expectativa de que “vão dar tchau” para o chefe, abrir sua empresa e ter controle da situação, quando na realidade o ponto de partida envolve muitas dificuldades.

“E, além da falta de preparo, o brasileiro não é ambicioso e tem uma tolerância menor ao risco. Se formos comparar com empreendedores de outros países, vamos detectar que a expectativa de crescimento do negócio por aqui é muito menor. Esses são problemas culturais que precisamos enfrentar”, defende.

Para o professor de Empreendedorismo e Inovação do Ibmec/MG João Bonomo, o empresário nacional lamenta muito os desafios externos e esquece que ele também precisa correr atrás de conhecimento.

“Boa parcela dos empreendedores põe a culpa no alheio: ‘as coisas estão difíceis por causa do governo, da concorrência, da burocracia, da falta de acesso ao crédito’... Mas esquece que, se ele tivesse maior conhecimento gerencial, provavelmente teria uma performance melhor.”

Bonomo também critica a falta de inovação nos negócios nacionais e a emergência por resultados. “O empreendedor é pouco inovativo e quer sucesso em curto prazo. O que ele tem que entender é que não há lugar em que abra um empreendimento e em 24 meses esteja rico.”

Os especialistas recomendam a capacitação por meio de instituições, como o Sebrae, e enfatizam que a globalização e a tecnologia são aliadas nessa hora. “O empresário tem que por fim à inércia. Hoje, existem cursos gratuitos, é possível baixar tutoriais pela internet, conhecer outros tipos de negócios e empresários”, sugere o professor do Ibmec.

O vice-presidente do Conselho Regional de Contabilidade e diretor do Sescon-ES, Roberto Schulze, complementa que buscar esclarecimentos junto a órgãos reguladores e profissionais especializados também é uma forma de entender o que é preciso na hora de abrir um negócio e evitar surpresas.

Desafios do empreendedor

1º Gestão de pessoas. Desenvolver lideranças, contratar e formar um time capacitado e lidar com as regras trabalhistas são alguns desafios dos empreendedores na gestão de pessoas.

2º Gestão financeira. Custos aumentando acima da receita, etapas longas e confusas no processo de contabilidade, dificuldade em lidar com capital de giro e com fluxo de caixa, alta carga tributária e falta de planejamento orçamentário.

3º Jurídico e regulação. A burocracia se faz muito presente em negócios de pequeno e de grande porte: excesso de contratos, regulação tributária inconstante, insegurança jurídica, grande volume de processos, especialmente trabalhistas, elevada complexidade dos impostos

e dificuldades com licenciamentos.

4º Inovação. Dificuldades de criar e/ou melhorar produtos e processos, de implantar uma cultura de inovação na empresa, de monitorar os resultados da inovação e de realizar pesquisas.

5º Marketing e vendas. Dificuldade de reter e captar novos clientes e de avaliar a satisfação dos consumidores. Realizar a precificação é considerado um ponto de atenção e realizar a divulgação dos produtos e serviços também é considerado um desafio.

6º Operações e processos. Realizar o controle e o monitoramento dos processos e custos do negócio, lidar com a logística, gerir o estoque e a qualidade de produtos e serviços.

7º Estratégia. Dificuldade na expansão e em adotar estratégias de crescimento, falta de foco e de visão de médio e longo prazos, além do desafio na gestão e no desdobramento de metas.

8º Infraestrutura. Manter instalações da empresa funcionando adequadamente, garantir a segurança dos trabalhadores, além de ter de lidar com a falta de infraestrutura externa, com modais rodoviários, ferroviários e aeroviários precários.

9º Acesso ao crédito e/ou investimentos. Dificuldades de captar recursos públicos e ter acesso ao crédito, grande número de exigências e solicitações complexas nos pedidos de financiamentos, falta de garantias para a tomada de crédito e o desafio de convencer investidores a escolher a empresa para investir.

10° Governança corporativa. Problemas com familiares no negócio, sucessão de lideranças, problemas e conflitos com sócios, formação e gestão de conselhos e dificuldade em realizar acordos entre acionistas e investidores.

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