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Queda da inflação ainda não é sentida e provoca sustos no supermercado

Para consumidor, preços nos supermercados continuam altos

Nas alturas! Para a aposentada Conceição Torres, mesmo fazendo pesquisa de preços e aproveitando promoções, está difícil economizar. "Os preços estão muito elevados. No supermercado você não sabe quanto vai gastar. Reduzi o consumo de carne por causa do valor alto"
Nas alturas! Para a aposentada Conceição Torres, mesmo fazendo pesquisa de preços e aproveitando promoções, está difícil economizar. "Os preços estão muito elevados. No supermercado você não sabe quanto vai gastar. Reduzi o consumo de carne por causa do valor alto"
Foto: Ricardo Medeiros

 Nos últimos meses, os capixabas viram os índices de inflação – que alcançaram dois dígitos no final de 2015 – perderem força e chegarem ao patamar negativo (-0,22%) entre maio e junho deste ano. Mesmo assim, com a inflação apresentando tendência de queda, muita gente não tem notado esse movimento nos preços dos produtos nas gôndolas dos supermercados.

Por que acontece essa contradição entre os indicadores econômicos e o que os consumidores, de fato, pagam? O economista Juliano César Gomes, que é conselheiro do Conselho Regional de Economia, explica que há uma soma de fatores.

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Em primeiro lugar, a média de preços só reduziu mesmo entre maio e junho. “Isso não deu impacto no longo prazo, foi de um mês para o outro. Durante 2017, tivemos inflação de 1,18% no primeiro semestre. Ou seja, de dezembro até junho, a média de aumento foi de 1% nos preços. Não quer dizer queda. Significa que eles não estão subindo na mesma velocidade de 2015”, analisa.

Ele observa que, do final de 2016 para agora, teve início uma desaceleração dos reajustes de preços. “Boa parte dessa desaceleração é devido à crise econômica, pois temos alto índice de desemprego e o poder de compra da população reduzido. Com menos dinheiro gasto no comércio, os estoques ficam altos, e para escoar isso os empresários têm que reduzir o valor”.

RENDA EM BAIXA

A população ainda não sente a queda nos preços de alguns produtos porque o salário está muito achatado
Paulo Cezar Ribeiro - Coordenador de Extensão da Rede Doctum

O economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV, André Braz, pondera que a taxa de desemprego muito alta e a queda na renda de quem continuou empregado é um dos principais motivos para a falta de percepção da queda na inflação.

“Além disso, alguns alimentos básicos mostram taxa positiva nos últimos 12 meses, como o feijão preto, que teve uma forte escassez ano passado, mas já tivemos safras melhores. O ovo está com 6% de alta, a carne bovina avançou 1,6% e a carne suína, aumentou 6%. Então, tem alimentos que ainda têm inflação positiva acumulada em 12 meses.”

De acordo com o coordenador de Extensão da Rede Doctum, Paulo Cezar Ribeiro, as principais quedas de preços estão nos produtos de alimentação.

“Nos últimos dois meses, o que caiu muito de preço foram algumas frutas e a parte de legumes. Por exemplo, a batata inglesa teve uma queda de mais de 40%, a laranja recuou quase 80% em dois meses. E outros itens, não. Tem produtos de material de limpeza que têm subido muito, como o sabão em pó. Quando o consumidor compra vários produtos, nem sempre ele percebe tanto a alimentação.”

Ele explica que como os preços chegaram a um patamar bem elevado, há uma expectativa de que eles caiam. “A gasolina já baixou de preço, a safra de cereais e legumes melhorou. A população ainda não sente isso porque o salário está muito achatado. Mas dificilmente o consumidor vai voltar rápido ao patamar de consumo de 2014”, pontua.

ESCALADA DOS PREÇOS

Foto: A Gazeta

 

CADA FAMÍLIA PAGA POR UM INDICADOR DIFERENTE

Para especialistas, inflação pesa mais ou menos conforme o tipo de consumo no lar

Outro fator para as famílias não perceberem tão claramente a retração da inflação está no fato de que cada pessoa tem uma inflação, ou seja, conforme os itens consumidos no domicílio, os preços dos produtos vão pesar mais ou menos no bolso do consumidor.

Nilza Buteri já sentiu queda nos preços de hortifrúti
Nilza Buteri já sentiu queda nos preços de hortifrúti
Foto: Ricardo Medeiros

De acordo com o coordenador de Extensão da Rede Doctum, Paulo Cezar Ribeiro, é possível perceber que produtos como feijão, laranja, cebola e cenoura tiveram redução nos preços. “Mas tem outros como a manteiga e o achocolatado, que o valor está resistente, se mantém alto”, explica ele, ressaltando que, por exemplo, quem compra mais manteiga sente mais a inflação do que quem não compra.

Outro exemplo, cita o economista, é para a gasolina. Se quem anda de carro percebeu que o combustível reduziu de, em média, R$ 3,60 para R$ 3,40 na bomba, quem anda de ônibus não viu redução na tarifa.

Para a aposentada Nilza Buteri, de 67 anos, os preços começaram a cair. Ela diz que consome muitos vegetais e legumes e já percebeu valores menores nos produtos de hortifrúti na última semana. “Os produtos que subiam muito mantiveram o preço e alguns estão caindo. Tenho esperança que isso ainda vai melhorar neste ano”, comenta ela.

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