Notícia

"Dendê", "Cocada" e "Bola": as senhas dos políticos capixabas para sacar caixa 2

Delatores contaram à força-tarefa da Lava Jato que os responsáveis por buscar dinheiro tinham que falar palavras-chave para o operador da Odebrecht

Os intermediários responsáveis por buscar dinheiro ilegal a mando de políticos tinham que falar uma senha para o operador da Odebrecht que entregaria os recursos. Sem a senha, nada feito. Foi o que os ex-executivos do grupo contaram aos investigadores da Operação Lava Jato.

Hilberto Mascarenhas, que era responsável pelo setor do operações estruturadas - o "departamento de propina" da empresa - contou que havia até o medo de assaltos, com tanto dinheiro em espécie circulando à margem da lei. E se a quantia fosse surrupiada por outra pessoa que não o destinatário combinado, não seria possível nem chamar a polícia, diante da falta de explicações plausíveis.

O Anexo 46-B liga o codinome Baianinho, referente a Hartung, a quatro pagamentos realizados em 2010, cada um no valor de R$ 250 mil
O Anexo 46-B liga o codinome Baianinho, referente a Hartung, a quatro pagamentos realizados em 2010, cada um no valor de R$ 250 mil
Foto: Carlos Alberto Silva Arquivo

O próprio Mascarenhas exemplificou. Se a senha fosse "chocolate", o enviado teria que dizer algo como "vim pegar meu chocolate". A mesma estratégia foi adotada quanto a repasses feitos a pedido de políticos do Espírito Santo, de acordo com  documentos anexados aos depoimentos. Entre as senhas estão "Cocada", "Rede", "Dendê" e "Bola".

O delator Benedicto Júnior, ex-presidente da Odebrecht Infraestrutura, conhecido como BJ, afirmou que a empresa fez repasses, via caixa dois, a pedido do governador Paulo Hartung (PMDB) e do ex-governador Renato Casagrande (PSB). Em planilhas entregues para reforçar as declarações prestadas em delação premiada, ele informa as senhas utilizadas nos repasses requisitados pelo peemedebista e pelo socialista.

O Anexo 46-B liga o codinome Baianinho, referente a Hartung, a quatro pagamentos realizados em 2010, cada um no valor de R$ 250 mil. As senhas são referências à cultura do Estado da Bahia. No dia 14/09/2010, por exemplo, a senha a ser dita por quem foi buscar o dinheiro foi "Balaio". Já em 21/09/2010, a palavra escolhida foi "Cocada" e mais R$ 250 mil teriam sido entregues. A planilha registra outro repasse na mesma data: R$ 250 mil sob a senha "Tabuleiro". O último registro referente ao codinome no anexo é a senha "Dendê", relacionada a R$ 250 mil em 29/09/2010.

A planilha não informa, mas BJ disse na delação que quem foi encarregado, por Paulo Hartung, de buscar o dinheiro foi o então secretário de Estado de Transportes e Obras Públicas Neivaldo Bragato. Em 2010, Hartung era o governador. As entregas teriam sido feitas, ainda segundo o delator, em hotéis no Rio de Janeiro.

FUTEBOL

Outro anexo, o 47.A, traz dados sobre o codinome Centroavante, apelido dado pela Odebrecht a Renato Casagrande. As senhas, neste caso, são, em sua maioria, referências ao futebol. Ao todo, nove repasses estão listados. Em 20/07/2010, o valor de R$ 250 mil, segundo a tabela, foi pago após a menção à senha "Rede". Em 22/07/2010 a senha foi "Bola", também referente a outros R$ 250 mil. Em 27/07/2010, foi a vez de "Ataque", senha utilizada para o repasse de mais R$ 250 mil. Em 29/07/2010, mesmo valor e nova senha: "Goleiro".

Renato Casagrande recebeu o codinome Centroavante
Renato Casagrande recebeu o codinome Centroavante
Foto: Ricardo Medeiros Arquivo

A planilha registra que quem buscou essas parcelas foi o economista Gradiston Coelho da Silva, em um hotel de Belo Horizonte. Gradiston já foi diretor financeiro do Rio Branco Atlético Clube.

Já em 17/08/2010 o repasse de R$ 250 mil, também relativo a Casagrande, aparece sob a senha "Chuteira", mas não há o nome de quem foi o receptor e sim uma observação: "Foi pago 200, falta 50".

Em 26/08/2010, mais um valor de R$ 250 mil para Centroavante foi registrado. A senha, "Trave", mas também sem o nome de quem recebeu a quantia. Apenas a observação "falta pagar 200".

Em 14/09/2010, mostra a planilha, houve um repasse de R$ 250 mil, com a senha "Canário". E a observação: "Pagando 300, sendo R$ 250 da senha Canário e 50 de BJH c/a senha...? Q estava com TUTA"

Ainda na tabela, sempre referente ao codinome Centroavante, há o valor de R$ 50 mil em R$ 16/09/2010 com uma senha dupla, "Cutia/Canário", também sem o nome de quem teria recebido a quantia.

Outro repasse, desta vez do ano de 2012, foi registrado apenas como R$ 500 mil em 19 de outubro daquele ano, sem senha ou o nome do recebedor. No campo "operador", aparece a menção "direto".

O OUTRO LADO

Procurado pela reportagem, o governador Paulo Hartung não se manifestou.

Neivaldo Bragato, que agora é membro do conselho de administração do Banestes, reafirmou o que havia dito em nota anteriormente:

"Com 35 anos de vida pública no Espírito Santo, asseguro que é absurda e descabida a informação de que a empresa Odebrecht supostamente teria repassado, por meu intermédio, recursos para as campanhas eleitorais de 2010 e 2012. Não recebi nenhum recurso e sequer tive participação nas referidas campanhas. Estou convicto de que a verdade prevalecerá ao final do processo."

O ex-governador Renato Casagrande, por meio de nota, afirmou que as delações referentes a ele são "inconsistentes", uma vez que os delatores se contradizem em seus depoimentos e que pediu apenas doações legais.

"O ex governador Renato Casagrande esclarece que as delações referentes a sua participação nesse episódio são inconsistentes, uma vez que os dois delatores se contradizem em várias situações, demonstrando claramente uma tentativa de reverter os efeitos de uma provável condenação. Esclarece ainda que buscou recursos junto às empresas para a campanha conforme previa a legislação e jamais tratou pessoalmente de valores ou repasses. Confia que a justiça fará a separação de quem, como ele, usou recursos para campanha dos que desviaram para enriquecimento ilícito."

Gradiston Coelho da Silva não quis conceder entrevista. "Tudo que eu tinha para falar falei no meu depoimento (à Polícia Federal) lá em setembro", afirmou.