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Brocas e broncas

O ES tem mantido uma relação de amor e ódio junto a organismos federais e do setor de café, recaindo sobre produtores a conta dos constantes interesses adversos

O anômetro indicava que transcorriam os primeiros anos da década de 40. Um pouco adiante de Paul, avistavam-se, às margens da antiga estrada que ligava Vitoria a Vila Velha, enormes montanhas ardendo em espertas e longas labaredas. O fogo era franco e estava solto e livre sem qualquer combate ou ação para acalma-lo. Pior ainda do que o arder das chamas indomáveis era saber que ali se incineravam montanhas de café em grão: ordem do governo central de Getúlio Vargas.

Se a providência frutificasse, quem efetivamente se beneficiaria com aquela tardia recuperação dos preços do café: produtores, comerciantes ou o governo federal? A queima dos estoques nacionais logo repercutiu no valor do produto no mercado internacional. Valorizou-se o grão que os cafeicultores produziram, porém, eles não dispunham mais do produto, pois haviam vendido na baixa do preço para pagar dívidas.

O Espírito Santo, que sempre teve no café o sustentáculo de sua economia, tem mantido ao longo do tempo uma relação de amor e ódio junto aos organismos federais e do setor, recaindo sobre os produtores a conta dos constantes interesses adversos.

Diferentemente da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), que cuidou da produção de cacau e de seus produtores, o Instituto Brasileiro do Café (IBC) foi um órgão que jamais teve razoável identidade e, na verdade, pouco se preocupou com o aprimoramento da cultura do café, e menos ainda de seus produtores.

No final da década de 50/60, o IBC comprou dos produtores (com o dinheiro deles próprios) a erradicação de todos os cafezais do Estado. Tudo virou deserto. Ao contrário daquela decisão, o órgão poderia ter incentivado a renovação dos cafezais capixabas, com variedades mais produtivas do arábica e a introdução do robusta (conilon), do qual hoje somos os maiores produtores do país, graças ao governo do Estado. O saldo foi mais de 200 mil trabalhadores desempregados.

Esta exposição vem a propósito da insistência de fantasmas do moribundo IBC, através de autoridades federais, estarem ameaçando mais uma vez abrir a importação de café, provavelmente do Vietnã. Talvez apenas esta notícia já tenha cumprido um de seus objetivos, que é o de rebaixar os preços do café no mercado interno, para preocupação dos produtores.

Tradicionalmente, o governo do Estado, por meio do secretário de Agricultura, Octaciano Neto, se esforça para contrabalançar as forças ocultas que desprotegem os cafeicultores, verbalizando um eloquente protesto contra esta extemporânea medida.

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