Notícia

Incertezas no horizonte

O interregno da crise presente demandará a revisão de paradigmas em diversos campos. Existem riscos no horizonte, porém, também há oportunidades

Entre os mais recentes lançamentos do mercado editorial brasileiro, merece destaque o livro “A era do imprevisto” (Companhia das Letras, 2017), do sociólogo e cientista político Sérgio Abranches. O livro, escrito em forma de ensaio, traz reflexões sobre as diversas dimensões da crise global. As incertezas dos resultados não devem imobilizar as sociedades.

Do ponto de vista das muitas imprevisibilidades, Abranches destaca as “falhas” nos paradigmas econômicos vigentes. Segundo pondera o autor, “na economia, os modelos de previsão, tanto acadêmicos quanto do mercado financeiro, têm errado muito mais que acertado”. Há problemas nas premissas dos modelos que estão baseados em automatismos de equilíbrio geral. Em um tempo global marcado pela crescente complexidade, quando as interações são mais intensas e o seu número maior, a estabilidade dos sistemas socioeconômicos não é garantida.

O princípio da precaução, usado para questões ambientais, deve ser adotado pelos formuladores de políticas públicas, pois há dispersão de matéria e energia pelos sistemas socioeconômicos que não pode, simplesmente, ser tratada como uma externalidade. A ética da responsabilidade, diria Max Weber, deve se sobrepor efetivamente às convicções pessoais no campo da política. Responsabilidade essa que precisa considerar os entrelaçamentos entre as questões ambientais, econômicas e sociais.

Existem riscos no horizonte de incertezas. Segundo afirma Abranches, “estamos sob o império das paixões, de toda sorte – religiosas, políticas, ideológicas -, em sociedades nas quais a mudança estrutural torna os interesses mais confusos e difusos. As desigualdades aumentam inevitavelmente. O resultado concreto disso é a polarização radicalizada”. De certa maneira, o passado, idealizado ou interpretado por diversas perspectivas, não se mostra o melhor guia para o futuro. A crise do regime de acumulação pós-fordista é global e a crise da representação política se manifesta intensamente em diversas sociedades, em escalas distintas.

Para Abranches, “se o futuro será virtuoso ou trágico, depende das escolhas que fizermos”. Ao longo da caminhada, erraremos e acertaremos, mas o importante é evitarmos extremismos ideológicos e aproveitarmos a crise para revigorar efetivamente as instituições democráticas. O interregno da crise presente demandará a revisão de paradigmas em diversos campos. Existem riscos no horizonte, porém, também há oportunidades.

*O autor é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes)