Notícia

Decisão de Trump

A revolta dos artesãos não impediu a industrialização, como a revolta dos excluídos pelo fim do ciclo da economia do passado não deterá a economia do futuro

Nos últimos dias, protestos varreram o mundo contra a decisão do presidente Trump de tirar os EUA do Acordo de Paris. Eu mesmo protestei em intensidade ativista, por achar a decisão pecaminosa.

Dito isso, o que significa o Trump? Algúem que se apossou do poder, ou um presidente eleito? Reconhecer que Trump não é a causa, mas o efeito, é o primeiro passo para entender a decisão.

Quando a Grã-Bretanha votou pelo Brexit, o “The Economist” fez uma análise insuspeita de que apesar da globalização ter beneficiado largamente o país, tinha também criado uma legião de perdedores sociais, que sem o apoio de políticas compensatórias, sentiram-se abandonados e viraram presas fáceis de qualquer populismo que lhes acenasse com saídas, como o Brexit lhes foi “vendido”.

Estenda-se a análise ao Uber. Sou pró-Uber, que veio para ficar, mas o que fazer com os taxistas que não conseguem competir? Quem se preocupa em fazer algo por eles, não com medidas populistas como proibir o Uber, mas ajudá-los a concorrer, como vários aplicativos começam a fazer? E o que fazer com os milhões de motoristas profissionais, que no futuro perderão seus empregos para os veículos inteligentes? Suas profissões se tornarão disfuncionais, mas eles continuarão a existir e engrossar a massa dos desiludidos.

O que aconteceu nos EUA vai nessa linha. Nova York e a Califórnia são o paraíso das finanças, entretenimento e tecnologia, mas existe também o meio Oeste, arrasado por uma economia ancorada no passado, e que, no desespero, vota em quem lhe lance um olhar e prometa soluções miraculosas, mesmo falsas, pois seu declínio provém de outras causas.

Em um balanço geral, o saldo é positivo, os avanços tecnológicos gerarão empregos, mas demandarão pessoas com outros conhecimentos e habilidades, e não aproveitarão a maioria dos desempregados da antiga economia.

Não tenho as respostas, o mundo não as tem mas deveria empenhar-se em encontrá-las, pois os “perdedores sociais” serão os eleitores dos Trumps de ocasião.

Mas sou moderadamente otimista. A revolta dos artesãos não impediu a industrialização, como a revolta dos excluídos pelo fim do ciclo da economia do passado não deterá a economia do futuro, de baixo carbono e sustentável. Mas a estabilidade e ritmo do avanço dependerão do quanto entendermos e tratarmos todas as questões com um olhar social. Atacar o Trump é o que está à mão, mas como sociedade nos frustraremos se não tentarmos ir além.

*O autor é membro do Grupo Executivo da Coalizão Brasil Clima Agricultura e Florestas

Ver comentários