Notícia

Karaokê político

Os tucanos abriram a rodada com Chitãozinho e Xororó, e declamaram para o presidente: "Quando eu digo que deixei de te amar / é porque eu te amo"

No último feriado, uma festa pra lá de eclética reuniu os grandes personagens da política brasileira. Perto da madrugada, o anfitrião Michel Temer anunciou a surpresa da noite: um karaokê para quem quisesse soltar a voz! Empolgados, então, os figurões de Brasília entraram na onda!

Os tucanos abriram a rodada com Chitãozinho e Xororó, e declamaram para o presidente: “Quando eu digo que deixei de te amar / é porque eu te amo / quando digo que eu não quero mais você / é porque eu te quero”.

Logo a base aliada se empolgou no refrão: “E nessa loucura de dizer que não te quero / vou negando as aparências / disfarçando as evidências!”.

Comovido, Temer lançou-se ao karaokê em seguida, homenageando o TSE ao som de Roberto Carlos: “Amigo, você é o mais certo das horas incertas”. Lágrimas correram nos olhos do judiciário. E logo Aécio Neves se achegou ao microfone.

Embora quisesse cantar “Maresia”, de Gabriel O Pensador, Aécio rendeu-se ao sertanejo em tom de desabafo sobre as delações: “Eu quero que risque o meu nome da sua agenda / esqueça o meu telefone / não me ligues mais”. Joesley Batista, então, fez a segunda voz: “Porque já estou cansado de ser o remédio / pra curar o seu tédio / quando seus amores não lhe satisfazem”.

No clima das delações até a Odebrecht deu uma palinha ao som de Cássia Eller: “Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar / que tudo era pra sempre sem saber / que o pra sempre / sempre acaba”.

A festa seguia tranquila até chegarem os penetras do evento: os procuradores da Lava Jato. Mesmo sem ser convidada, a nova geração do judiciário não perdeu a oportunidade de cantar Renato Russo: “Nos deram espelhos / e vimos um mundo doente”. E logo partiram.

Foi aí, então, que um cidadão comum adentrou no palácio e pediu a vez. Diante do silêncio de todos, ele escolheu Belchior na voz de Elis Regina. E vendo no que se tornou o Brasil e seu povo, exclamou em alto tom: “Minha dor é perceber que apenas de termos feito tudo o que fizemos / ainda somos os mesmos / e vivemos como nossos pais”.

*O autor é graduado em História e Filosofia, e pós-graduado em Sociologia