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O clima sem os EUA

Ao ignorar a tecnologia na transição para um modelo energético de baixo carbono, discurso de Trump torna-se obsoleto e prejudicial ao meio ambiente e à economia

O clima fechou há alguns dias, quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a decisão de retirar o país do Acordo de Paris, assinado em dezembro de 2015. O acordo constitui peça fundamental da política internacional sobre mudanças climáticas, além de representar a difícil consolidação de mais de 20 anos de discussões sobre o tema. Estabelece, entre outras questões: o comprometimento dos signatários em promover a redução das emissões por meio de metas determinadas individualmente por cada país.

Apesar deste pronunciamento, o presidente norte-americano já havia assinado antes um decreto suspendendo o Plano de Energia Limpa, cujo principal objetivo era promover a redução das emissões de carbono nos Estados norte-americanos para cumprir a meta nacional apresentada pelo país quando do Acordo de Paris.

A tempestuosa, porém, esperada declaração de Donald Trump retoma desgastado discurso político da década de 90, que partia da negação das repercussões das mudanças climáticas como subterfúgio para assegurar a manutenção de indústrias e políticas energéticas nacionais comprometidas apenas com o incremento do PIB.

Ao ignorar os avanços tecnológicos para promover a transição para um modelo energético de baixo carbono, o discurso presidencial se mostra, além de obsoleto, prejudicial não só para o meio ambiente, mas também para a economia, sendo no mínimo espantoso fomentar o setor de carvão em pleno 2017, como pretende o presidente.

O decreto, que desmantela o principal instrumento para implementação do acordo, seguido do anúncio de retirada do tratado, ressalta o conhecido descompromisso de Trump com a coerência, manifestado pelo repertório político formado por pós-verdades. Apesar do céu nublado resultado das ações de Trump, um lampejo para a questão climática parece surgir.

A ferrenha oposição de países europeus em relação à possibilidade de renegociação do Acordo de Paris, bem como a reafirmação do compromisso de redução entre União Europeia e China, renovam as energias do acordo e o fortificam. Assim, se há um aspecto positivo na postura de Trump, certamente é o fato dela incitar o despertar e a oposição de outros países, os quais passam a demarcar com mais veemência sua posição política, o que em muito favorece a questão das mudanças climáticas, que demanda há mais de 20 anos atenção, vontade política e definição de posições para implementar soluções de problemas ambientais em escala global.

*A autora é membro do Grupo de Pesquisa Teoria Crítica do Constitucionalismo e mestranda em Direitos e Garantias Fundamentais pela FDV