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Tragam Salomão

Todo santo dia o noticiário nos coloca cara a cara com situações que, se não fossem trágicas, seriam cômicas, como a recente decisão do Tribunal Superior Eleitoral

Caríssimos irmãos, estamos atravessando uma era no estilo ladeira abaixo de modo que a pergunta que não se cala, nem tem resposta, é: onde está o dinheirinho que estava aqui, bem no meio da minha mão? Os gatos da República levaram, não se sabe para onde. Por enquanto, só falatórios a respeito. Política é a arte do possível, dizem. A plebe rude, isto é, nós, não apita nada. Assistimos a um teatro mambembe onde mocinhos e bandidos trocam de lugar seguidamente e o serviço público e a segurança são uma piada de mau gosto.

A quantidade de assassinatos e roubos e toda espécie de delito, convenhamos, é a nossa mais vergonhosa rotina. O país inteiro se refugia na sua única paixão confiável, o futebol, ganhando ou perdendo. A desonestidade é quase a mesma, cartolas e semelhantes compram e vendem, como mercadoria de lucro, jogadores.

Sendo uma paixão do povo brasileiro, está inexoravelmente sujeito ao mais honesto e verdadeiro dos controles, a avaliação do torcedor. É o único setor da vida pública brasileira em que a massa participa diretamente e organizadamente com sua opinião. Por exemplo, pode aplaudir ou vaiar o jogador e assim estará dando o seu recado decisivo.

A paixão é o único elemento da alma humana que gruda no peito e não muda. A senhora conhece alguém que tenha mudado de time? Pode-se mudar de nome, de mulher, de marido, de país e de nacionalidade, de tudo. Menos a bandeira tremulante de um clube. As torcidas, ainda que de modo bizarro, fazem por um time de futebol – matam, brigam, sofrem, abandonam o lar, o escambau – o que são incapazes de fazer para defender sua cidadania. Essas mesmas pessoas são incapazes de se organizar para, por exemplo, sequer torcer contra o banditismo que ora invade o país.

Não suspeitam que a atual atividade do governo nacional é - pasmem - tentar livrar o presidente e seus asseclas de prisão por roubo e outros crimes. Não desconfiam os torcedores apaixonados que estão sendo derrotados diariamente por uma política perversa que usa o seu dinheiro para envolver-se impunemente com manobras que empobrecem o país e lhes impõe a miséria.

Todo santo dia o noticiário nos coloca cara a cara com situações que, se não fossem trágicas, seriam cômicas, como a recente decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no caso da absolutista absolvição da chapa da insólita dupla caipira Dilma-Temer.

Ou eu não estou entendendo nada ou estou entendendo tudo.

Valei-nos Salomão, rei de Israel.

*O autor é psicanalista, médico e jornalista

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