Notícia

Internação compulsória: solução para quem?

No lugar de proibir o uso das substâncias é preciso trabalhar para construir saídas das situações de risco

A ação recente da Prefeitura de São Paulo na região que é pejorativamente conhecida como “Cracolândia” disparou uma série de notícias e informações que exigem mais reflexão da sociedade. Via decisão judicial, a prefeitura realizou internações compulsórias em massa de pessoas que fazem uso abusivo de drogas – que neste texto chamaremos de substâncias psicoativas lícitas e ilícitas.

As internações compulsórias são intervenções determinadas pela Justiça e custeadas, obrigatoriamente, pelo Poder Público. Sua ação, embora pareça resolver um problema crônico, não age sobre as causas desse problema, mas apenas sobre as suas consequências, tendo um caráter segregativo e impositivo, isolando a pessoa do convívio social e comunitário.

Aquele que se encontra em uso abusivo de substâncias psicoativas geralmente está passando por sofrimento psíquico extremo e as relações estabelecidas com as drogas são múltiplas. Essa condição implica a necessidade de se avaliar, caso a caso, o que está acontecendo com a pessoa. É importante lembrar que essas substâncias também podem ser medicamentos vendidos em drogarias e farmácias, como antidepressivos ou benzodiazepínicos (conhecidos como calmantes).

O cuidado multiprofissional à pessoa que está passando por qualquer tipo de sofrimento psíquico sempre deve ser oferecido. No lugar de proibir o uso das substâncias é preciso trabalhar para construir saídas das situações de vulnerabilidade ou de risco, estas sim, parte das causas do problema. Este é um contexto complexo, sem solução única, por isso, é fundamental o atendimento na rede de saúde com trabalho multiprofissional que ofereça cuidado em liberdade. A partir daí, deve ser traçado, junto com quem está em sofrimento psíquico, um projeto terapêutico mais efetivo, considerando sua singularidade.

Aqui no Estado, essa discussão tem sido realizada pelo Conselho Regional de Psicologia do Espírito Santo (CRP-ES), que está aberto à sociedade e à categoria profissional para dialogar sobre o assunto.

*Os autores são psicólogos e, respectivamente, conselheira do Conselho Regional de Psicologia do ES; mestre em Psicologia Institucional; e psicanalista e mestre em Psicologia

Ver comentários