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Anônima intimidade

Quanto parece caminhar a uma confissão espontânea, Temer dá o xeque-mate: "Esta é obra de ficção. Qualquer semelhança comigo ou terceiros é mera coincidência"

Nesta véspera de Dia dos Pais, tomo a liberdade de propor às famílias um irreverente presente que deixará seu lar ainda mais culto, sensível e humano: é a obra “Anônima Intimidade”, livro de poesias de ninguém menos que Michel Temer.

Publicado em 2012, a coletânea reúne escritos feitos em folhas de guardanapos e blocos de notas entre reuniões, viagens e afazeres políticos. Suas páginas, além de curiosas, são, por vezes, um convite ao inusitado.

O poema “Fuga”, por exemplo, dá o tom do desabafo: “Está/cada dia mais difícil/fugir de mim”. Vivendo um aparente dilema, o então vice-presidente registra em “Trajetória”: “Se eu pudesse/não continuaria”. São angústias que não cabem em delações...

Com a habilidade típica dos gênios que vivem à frente de seu tempo, Temer parecia anunciar em 2012 a histórica carta-ilustrativa a Dilma no poema “A Carta”: “Leu/Releu/Não entendeu/Mas compreendeu/Tanto escreveu/Só para dizer/‘Adeus’”.

Já o poema “Compreensão tardia” emociona: “Se eu soubesse que a vida era assim/Não teria vindo ao mundo”. Convicto de suas ideologias, o autor é incisivo: “Um homem sem causa/Nada causa”. O raciocínio lógico também é seu forte sob o título “Passou”: “Quando parei/para pensar/todos os pensamentos/já haviam acontecido”.

Escrito em tempos de amor petista, o livro revela o aprendizado deixado por Lula com o título “Saber”: “Eu não sabia/Eu juro que não sabia”. A chapa com Dilma parece ser definida, ainda, nas lindas linhas de “Embarque”: “Embarquei na tua nau/Sem rumo. Eu e tu/Tu, porque não sabias/para onde querias ir/Eu, porque já tomei muitos rumos/Sem chegar a lugar algum”.

Mas o melhor vem no sincero poema intitulado “Eu”: “Desfigurado/Desencantado/Desanimado/Desconstruído/Derruído/Destruído”. E quanto tudo parece caminhar para uma confissão espontânea, Temer, então, dá o xeque-mate ao fim: “Esta é obra de ficção. Qualquer semelhança comigo ou com terceiros é mera coincidência”. Uma prova de que Temer, além de presidente e poeta, ainda tem um impecável senso de humor.

*O autor é graduado em História e Filosofia, e pós-graduado em Sociologia

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