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Carne queimada

Veja a Praça Oito especial sobre a crise do governo Temer

Foto: Beto Barata

Como bom latinista que é, Michel Temer (PMDB) com certeza conhece o significado desta frase, dita por Jesus aos apóstolos: "Spiritus promptus est caro autem infirma". Tradução: "O espírito está pronto, mas a carne é fraca". No momento, os discípulos de Temer na Esplanada dos Ministérios começam a entregar os seus cargos, um a um. São como atos preliminares da renúncia de Temer, negada (ou apenas adiada) por ele nesta tarde, mas aparentemente inevitável.

Trata-se de um governo cujo chefe tornou-se insustentável no cargo, por conta dos pecados que vieram à tona na véspera: tentativa de obstrução à Justiça, participação em esquemas de arrecadação de propina, conivência com um esquema mafioso para silenciar Eduardo Cunha no xadrez. E tudo isso não faz três meses, em pleno exercício do mandato-tampão que lhe coube.

Enquanto o país está em choque, Michel Temer está em xeque. Só ele parece não querer reconhecer o óbvio, a gravidade dos fatos atribuídos a ele e da sua própria situação: ele pode até negar a renúncia neste primeiro momento, como primeiro reflexo após o baque sofrido; pode se debater no fundo do poço enquanto ainda houver oxigênio para puxar. Com isso, só fará adiar um desfecho incontornável e agravar ainda mais a crise institucional que está posta. Ficando ele no cargo, como ficará o país? Insistindo em permanecer, o presidente não está fazendo nenhum bem, neste momento, à nação.

O que estarrece na delação da JBS, para começar, é a repetição das mesmas práticas mafiosas que já haviam sido descobertas no governo anterior. Quem não se lembra do episódio da frustrada tentativa de compra do silêncio de Nestor Cerveró, operada pelo então senador Delcídio do Amaral (ex-PT), supostamente a mando de Lula?

Cunha sabia demais e era necessário mantê-lo bem calado. O homem-bomba da República, que foi o principal responsável pelo impeachment de Dilma, logo pela ascensão de Temer ao poder, sabia de tudo e mais um pouco sobre as tramas urdidas pela quadrilha peemedebista, na qual, ao lado de Temer até 2015, o ex-deputado alcançou papel proeminente.

Segundo uma história recordada com frequência pelo colunista Merval Pereira, Cunha viria fazendo chegar ao Planalto ameaças implícitas, mas preocupantes demais para Temer e os consiglieri que sobraram de pé ao redor do capo da família, como Eliseu Padilha e Moreira Franco. "Era uma vez cinco amigos que faziam tudo juntos, viajavam, faziam negócios... então, um virou presidente, três viraram ministros e o último foi abandonado..." Sim, na cabeça de Temer, seria preciso silenciar o "quinto amigo". A ironia maior é que agora, mesmo calado, Cunha pode ser um agente preponderante para o impeachment também de Temer.

Agora, o mais revoltante é a constatação daquilo de que há muito se suspeitava: durante a Era Lula/Dilma, uma organização política criminosa se apoderou da administração pública do país para drenar recursos públicos em nome da perpetuação de um projeto de poder e do enriquecimento ilícito de muitos. Pois bem, em 2016, essa organização foi destituída e substituída no comando do país não por um governo moralizador, mas por outra quadrilha ainda pior que aquela. Uma quadrilha peemedebista, que já tinha participação na organização anterior, mas que resolveu se rebelar e tomar conta sozinha do negócio.

Parece que estamos diante de uma guerra entre facções do crime organizado, gangues que brigam pelo controle de determinada boca de fumo, como aquelas representadas em filmes como "Cidade de Deus". Tudo, logicamente, em escala muito maior e envolvendo o tesouro público. O seu, o meu, o nosso suado dinheiro, assaltado antes pelo PT e agora pelo PMDB, com apoio do PSDB.

A chapa esquentou e o presidente agora é carne queimada. Temer se segura como pode, mas o efeito manada começou. Assim como já fazem ministros e partidos da base, a tendência é que todos corram para fora da floresta a fim de escapar do incêndio e do contágio com um presidente que virou radioativo. Ninguém vai querer ficar ao lado de um governo que agora cheira pior do que carne estragada.