"Os donos do poder sapateiam sobre o cadáver da política, que é o corpo dos cidadãos"
A filósofa e romancista Marcia Tiburi lança um guia nos moldes da literatura de autoajuda para incentivar o diálogo como forma de resistência em tempos de polarização e intolerância política
A polarização política por que passa o país e os casos de violência e intolerância são registrados todas as semanas. Nesses tempos de nervos à flor da pele e agressivos embates políticos, a filósofa Marcia Tiburi lança o livro “Como Conversar Com Um Fascista” e propõe o diálogo como forma de resistir ao discurso de ódio.
Mas quem são os “fascistas” de que Marcia fala? “O pensamento fascista é a radicalização da personalidade autoritária. Aquele sujeito que não tem abertura para o outro e não quer escutar o que o outro tem a dizer, pois parte do princípio que sua visão de mundo é melhor”. Assim, de discursos preconceituosos de representantes eleitos até os comentaristas de portal, que destilam ódio pelas redes, a autora chama atenção para o perigo do esvaziamento político mascarado como direito à livre expressão.
A filósofa propõe o diálogo como forma de resistência a intolerâncias e discursos de ódio. Ela convida a pensar em uma postura para contrapor o discurso de ódio que um eventual colega de trabalho ou familiar esteja reproduzindo inadvertidamente. Para isso, Tiburi analisa notícias recentes e acontecimentos do mundo político para mostrar que é possível falar sobre temas complexos de maneira que todos compreendam.
Incentivo ao diálogo chama atenção em um contexto de polarização e crescimento do ódio. O que motivou o livro?
Quando pensei no livro, pensei que o fascismo elevado à razão de Estado, que vemos com a desconsideração de direitos e liberdades, é fruto também de relações no âmbito da cultura. Quando você vê a pessoa que você ama em casa, seu irmão, seu tio, falando asneira política, defendendo a homofobia, defendendo posições racistas e desconsiderando direitos, com discurso de ódio ao outro, dá para pensar “como eu posso interferir politicamente por uma sociedade democrática considerando a família que eu tenho, os meus colegas de trabalho, quando ainda preservo um desejo de sociedade democrática e justa?”. Quem fez o prefácio foi o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), porque eu lembrava dele enfrentando essas agressões na alta esfera de poder, lá, como deputado. Os xingamentos, tudo que ele vive lá, também é vivido por nós na microesfera. Há um tempo já eu venho escrevendo sobre os temas do autoritarismo na vida cotidiana. Hoje temos uma experiência com o ódio em escala social que se modifica de tempos em tempos, e suspeito que o ódio é um afeto manipulável por meio de um discurso, assim como o amor. Se você pegar aqueles textos lá dos anos 1940, como Adorno, que pensaram sobre o nascimento do fascismo e questionaram o antissemitismo, eles estavam falando da mesma coisa que a gente fala hoje: da persistência do ódio na cultura. Eu coloquei essa questão de como conversar com um fascista, no sentido de um experimento filosófico. Quando você conversa com pessoas que pensam como você, falam a mesma língua, é muito fácil haver concordância, o que é bacana. Mas é desafiador conversar com uma pessoa que pensa de um jeito muito diferente; eu não quero dizer nem melhor, nem pior. Do ponto de vista do fascista, o outro sempre é medido a partir do superior ou de uma inferioridade. Eu quis trabalhar justamente o posicionamento de pensamento democrático e de outro autoritário. Quem está mentalmente em um regime democrático parte do princípio de que é preciso dialogar, tentar entender, me colocar no lugar do outro, e não usar a lógica da medida, mas da escuta, para entender como o outro pensa e, a partir daí, dialogar. Por isso até brinco que esse é meu livro de “autoajuda”. Essa fascistização, essa personalidade autoritária, começa a aparecer, não só no pensamento da direita. Eu quis colocar que o fascismo é um espetáculo cotidiano do ódio ao outro, que nega e tem ódio ao outro e acredita que o outro não deveria existir. Está a priori errado, tanto na sexualidade, no modo como fala, na cor, nos hábitos. Na base dessa personalidade autoritária, do ódio profundo, existe um baita ressentimento e o diálogo diante disso é resistência. Não quer dizer que você vá conseguir manter o diálogo, mas impede que você acabe se tornando aquilo que você critica no fascista.
É um treinamento de tolerância e paciência que você propõe?
Também. Mesmo assim é necessário, se a gente não conseguir conversar com o fascista, pelo menos que a gente não se transforme em um. Pode parecer que não é grande coisa, mas já é. Se pensarmos no convite que temos hoje em nos tornarmos babacas anti-políticos, resistir a isso já é alguma coisa. Toda essa fascistização tem a ver com o vazio do pensamento. Não vejo nenhum problema na discordância ou na crítica. Isso é desejável. Não podemos supor consenso e muito menos desejar que as pessoas se tornem dóceis diante do que lhes incomoda. A questão é respeito à democracia. É estranho que na falta de evidências queiram tirar uma governante e na presença de muitas provas de crimes, outro governante não saia. A grande questão que as pessoas deveriam estar pensando é em como elas estão sendo manipuladas.
Você fala em usar outro tom, que não o da denúncia ou da queixa, sair da posição de vítima. Qual a postura proposta?
Existem as pessoas que realmente são vítimas e sofrem sob o discurso da homofobia, do machismo. Essas são vítimas reais. Quem inventa o discurso da heterofobia, está tentando se fazer de vítima. Essa distorção muitas vezes aparece e precisa ser combatida. Tem um capítulo inteiro no livro sobre essa estratégia de usar a condição de vítima como um poder, e é a tática mais baixa que um fascista pode utilizar. Por exemplo, em uma discussão sobre o aborto, a dizer “sou sobrevivente de um aborto”, o sujeito fala isso na tentativa de se colocar como vítima e ele está sendo sofístico (pensamento de má-fé que procura induzir ao erro). Mas é um argumento que apela à compaixão de uma pessoa. Até de quem não tem o menor conhecimento do assunto em questão e vai se compadecer, morrer de dó de uma figura que a enganou. Quis combater uma banalização da condição de vítima, inclusive quando somos vítimas reais. Queria demonstrar quais são as estratégias do discurso fascista.
Por que esse discurso tem encontrado solo tão fértil na população?
O sucesso vem da venda dessa ideia. Esse discurso é fácil, pega pelo lado afetivo. Quando uma pessoa é autorizada a odiar, ela fica muito forte. O ódio potencializa as pessoas, é um grande meio de poder. Outra coisa que eu acho importante no livro é que a experiência e a cultura política dependem da experiência com a linguagem. Se a nossa experiência com a linguagem está empobrecida, a nossa vivência política é superficial. Essas duas experiências estão juntas.
Você diz que esse fascismo moderno quer matar a política. De que forma tem feito isso? Feito as pessoas odiarem a política?
Como se faz política? Desde que ela existe, principalmente na democracia, ela se faz com a palavra. Hoje as pessoas estão se autorizando a falar merda impunemente. Existe uma espécie de elogio do discurso fecal. Esses personagens da política são produtores de discurso, assim como os meios de comunicação, mas representam alguém que lida daquela maneira no âmbito da vida cotidiana. Só que ao mesmo tempo esse sentimento nacional é construído a partir de um círculo vicioso. As pessoas ouvem esse discurso e retroalimentam o que ele prega. A questão seria descobrir onde podemos interromper esse discurso do ódio que leva a práticas como o linchamento em praça pública. Separo a política da anti-política. Aquela que é o poder como violência, como dominação, repressão. Muitas vezes, quem está exercendo o poder político tem ódio à própria política e ao cidadão. Não só no sentido do diálogo, mas os donos do poder econômico, político e patriarcal desejam que as populações se submetam às suas regras ou que morram e desapareçam. A anti-política patriarcal e machista no Brasil deixa claro que deseja que as mulheres morram. E temos morrido. A cada dia percebemos leis mais violentas contra as mulheres, anti-políticas. É tão declarado o clima de assassinato, que o Estado nega atendimento a sua cidadã, como a legalização do aborto, às mulheres aprisionadas, violentadas diariamente por estupro, às mulheres vítimas de falta de atendimento de saúde, da violência simbólica. Essa dominação masculina é sinônimo de anti-política por impedir que as pessoas desenvolvam exuberância criativa na esfera da política. Essa política que a gente conhece só sobrevive porque massacra a experiência política; afasta e não permite que as pessoas se encontrem para falar desse assunto. Ele não pode interessar, causa mal-estar. Aí os donos do poder simplesmente sapateiam sobre o cadáver da política. E esse cadáver da política é feito do corpo dos cidadãos.
Não existe responsabilização?
A gente fala, fala... Coisas irresponsáveis na esfera da vida cotidiana e pessoal e, ao mesmo tempo, isso encontra um estranho correspondente nessa facilitação da vida virtual. A gente acaba se realizando nessa pseudopolítica das mídias sociais e não faz outra coisa. O ato digital se torna muito importante para divulgar, comunicar, mas atrás do computador eu sou apenas um avatar e existe uma irresponsabilização que aumenta, porque as pessoas não precisam operar uma política de presença. Estou livre de estar presente então posso simplesmente me realizar clicando ou dizendo que eu sempre fui. Isso me desresponsabiliza e descompromete de ir para a esfera das realizações mais concretas e me descompromete das coisas que eu falo. Ali naquela esfera vou virando fascista falando todas as merdas por falar. Não quer dizer que no meu coração eu seja essa pessoa fundamentalmente fascista. Apenas me deixo levar pelos discursos dominantes. Uma tagarelice desembestada e a questão do diálogo não é colocada.