Animação brasileira completa 100 anos: relembre desenhos marcantes
Relembre a trajetória do primeiro desenho animado, "Kaiser" (1917), ao longa indicado ao Oscar "O Menino e o Mundo" (2016)
Quando se trata de animação, muitas vezes a mente do leitor irá automaticamente se lembrar das produções norte-americanas de sucesso nas telonas e na TV. É normal e não há problema algum nisso, mas estamos aqui para lembrar também a importância da animação brasileira no cenário cinematográfico e televisivo. Afinal, 2017 marca os 100 anos em que a arte está presente no país.
Foi em 1917 que estreou o considerado primeiro desenho animado brasileiro: “Kaiser”, curta de Seth (pseudônimo do cartunista Álvaro Martins). “A animação brasileira foi precoce. Em 1917, poucos países tinham se aventurado a descobrir a animação. Era coisa nova na época. Pouca gente dominava e sabia fazer”, comentou Cesar Coelho, diretor de animação e um dos criadores do Anima Mundi, em entrevista ao C2.
De “Kaiser” quase nada sobrou: apenas um fotograma a partir do qual o curta foi recriado no documentário “Luz, Anima, Ação” (2013) pelas mãos de oito animadores, entre eles Marcelo Marão, que esteve presente no painel sobre os 100 anos da animação brasileira durante o Max – Minas Gerais Audiovisual Expo. O evento foi realizado entre os dias 23 e 25 de agosto na capital mineira.
“O primeiro longa foi surgir em 1953 (‘Sinfonia Amazônica’, de Anélio Latini), um trabalho autoral feito por um cara que não tinha investidores. Até os anos 1990, muita coisa era feita só para a publicidade”, contou o cineasta, roteirista e produtor, que também já foi presidente-fundador da Associação Brasileira de Cinema de Animação.
Crise e retomada
Em 1990, a animação brasileira, que até então navegava em águas tranquilas, sofreu um impacto. Com o governo Collor, veio o fim da Embrafilme (o que equivale, hoje, à Ancine) e os investimentos no audiovisual caíram drasticamente.
Porém, em 1993, houve uma reação por parte dos realizadores: a criação do Anima Mundi, festival criado para dar um “gás” no mercado da animação. Aos poucos, o interesse no ofício começou a crescer novamente. No início dos anos 2000, com a mudança de governo e a criação da Ancine, o cenário teve, então, uma reviravolta.
“Nessa época, surgiram os primeiros editais e houve uma mudança de paradigma, o audiovisual começou a ser olhado de maneira diferente“, relatou o animador e diretor Arnaldo Galvão.
E, em 2016, veio um dos marcos nesses 100 anos de história: o longa “O Menino e O Mundo” (2014), de Alê Abreu, concorreu ao Oscar de Melhor Animação.
Hoje e no futuro
O início dos anos 1990 foi praticamente nulo para a animação independente brasileira. Com a criação do Anima Mundi em 1993, uma lenta retomada foi dada, com seu ápice no início dos anos 2000.
“A gente resolveu criar um evento que empurrasse a animação para cima. O Anima Mundi é, hoje, um dos festivais de animação com maior público no mundo”, comenta Cesar Coelho, diretor de animação e um dos criadores do festival. “Com os editais da Ancine no início dos anos 2000, a animação brasileira explodiu. Começou a produzir para a TV e exportar animação e animadores”, completa.
Cesar reforça esse crescimento na televisão e também no cinema – hoje, são 25 longas só em produção –, com um comparativo: até dois anos atrás, mais de 20 séries animadas produzidas aqui estavam no ar, hoje, são mais de 45. Neste contexto, temos como exemplo os desenhos Peixonauta” e “Meu Amigãozão”. Este último, nasceu de um curta-metragem e faz sucesso até hoje, tanto por aqui quanto lá fora.
“Muitas coisas bacanas nasceram de curtas. Às vezes eles ficam um pouco de lado, mas temos que dar importância a eles”, pontua o animador Arnaldo Galvão.
Mercado
Para a produtora Candida Luz Liberato, integrante da Associação Brasileira de Cinema de Animação, a animação vive um bom momento, mas ainda há muito a se fazer para manter a ascensão.
“Temos um conteúdo adulto, não só para crianças. Fazemos linguagem para todas as idades. A animação é o ovo de ouro, com uma capacidade enorme de exportação. O audiovisual fatura mais do que o turismo, precisamos ter consciência do potencial que temos nas mãos”, afirma. “Temos que descentralizar e sair do eixo Rio-São Paulo. O futuro depende de nós. A receita do bolo não sabemos, mas o mercado é bom para nós.”
Já Cesar Coelho destaca ainda a sustentabilidade e a formação como os maiores desafios. “Primeiro, precisamos de investimentos em equipe, estrutura e equipamentos. Outro desafio é a necessidade de termos boas escolas de animação com cursos intensivos”, ressalta.
Há 40 anos no ramo, Otto Guerra, cineasta cujo trabalho é voltado para a adaptação de quadrinhos, concorda que o mercado é favorável para a animação brasileira, mas demonstra preocupação com o futuro.
“A questão do fomento me preocupa, pois pode acabar a qualquer momento por questões políticas. Mas o universo da animação está assombrado com a animação brasileira. A saída é termos nossa própria identidade. Temos uma mistura genial que surpreende a todos.”
100 anos de animação no Brasil
1917
“O Kaiser”: é lançado o curta de Álvaro Martins (Seth), considerado o primeiro desenho animado brasileiro.
1928
“Macaco Feio, Macaco Bonito”: Luiz Seel e João Stamato lançam o curta, animação brasileira mais antiga com cópia preservada.
1939
“As Aventuras de Virgulino”: Luiz Sá cria a série de curtas, que ficou perdida por anos.
1953
“Sinfonia Amazônica”: Anélio Latini lança o primeiro longa de animação brasileiro. Em preto e branco, teve mais de 500 mil desenhos feitos à mão.
1960
Ascensão: o mercado de animação cresce, mas com foco na publicidade (comerciais).
1972
“Piconzé”: Ypê Nakashima lança o segundo longa brasileiro de animação, primeiro colorido do país.
1990
Década de crise: a animação brasileira sofre com o governo Collor, a falta de incentivo e o fim da Embrafilme.
1993
Anima Mundi: o festival é criado para fortalecer o mercado.
1996
“Cassiopeia”: Clovis Vieira lança o primeiro longa de animação em 3D.
2013
“Minhocas”: Paolo Conti e Arthur Medeiros lançam o primeiro longa nacional feito em stop motion.
2016
“O Menino e o Mundo”: o longa de Alê Abreu é indicado ao Oscar.
* A jornalista viajou à convite do Minas Gerais Audiovisual Expo.