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A tradução da realidade: a imprensa e a vocação civilizatória

Enfim, temos um cenário hostil ao jornalismo e sua missão de difundir os valores humanistas em favor da emancipação cidadã.

José Antônio Martinuzzo
Foto: Arquivo - AG

Herdeiro das imemoriais necessidades e hábitos humanos de contar o cotidiano para se vencer o medo e se tecer comunidades as mais diversas, o jornalismo, como hoje o percebemos, germina sob o sol do Iluminismo e estabelece suas raízes no chão da modernidade fertilizada pelos valores republicanos, democráticos e humanísticos.

Ocorre que parece não haver dúvidas de que trevas medievais pairam sobre o século XXI, envenenando o espírito do nosso tempo. Assim, como fica o jornalismo diante da devastação do ambiente que lhe deu berço e animou sua expansão? Situação que ainda se agrava com o redesenho das práticas comunicacionais, patrocinado pela expansão das mídias digitais e o consequente terremoto dela advindo, que sacode os modelos de negócio jornalísticos firmados durante o império das comunicações de massa.

Enfim, temos um cenário hostil ao jornalismo e sua missão de difundir os valores humanistas em favor da emancipação cidadã. Conquistas que a humanidade levou milênios para constituir, a duríssimas penas, dissolvem-se na violência cotidiana de desumanos em hordas crescentes e, para ficarmos no âmbito das comunicações, em posts de arautos poderosos e suas cínicas fake news de alcance planetário, assim como sangram lentamente pelo fio das lâminas malditas de internautas a elaborar, compartilhar e curtir mentiras que gostariam de ver como “verdades” a legitimar seus reinos de perversão, intolerâncias e egoísmo.

Para enfrentarmos os desafios gigantescos que se colocam numa realidade atomizada, pouco razoável e

Selo de 90 anos da Rede Gazeta
Foto: Rede Gazeta

 intolerante com a alteridade que não se vê refletida no espelho de suas bolhas de interação digital, escrava da ignorância patrocinada pelas desconexões entre passado, presente e futuro – essa inelutável trinca por onde transita a vida, no intervalo de uma escuridão à outra –, não é preciso reinventar a roda da civilização, ainda que esta esteja em permanente constituição, desafiada pelo dinamismo da história.

O poeta francês Paul Valéry escreveu que a civilização tem a fragilidade de uma vida. Infelizmente, os valores civilizatórios não se incorporam ao nosso DNA. Cada vez que nasce um indivíduo, avoluma-se a tarefa de todos nós de ensinar o que é ser humano, numa missão hercúlea e extremamente desafiante, cuja falência compromete mesmo a nossa noção de que somos animais inteligentes, capazes de conviver com dignidade. E o jornalismo faz parte, ao lado de nosso maior recurso civilizacional, a educação, do arsenal dessa justa e impositiva luta da humanidade contra a barbárie.

O filósofo Giorgio Agamben reclama um específico comportamento para se pensar a existência, especialmente necessário à era hipnótica, mesmerizante, em que vivemos: trata-se de ser contemporâneo, mas não na acepção de moderno ou atual. Nas palavras do pensador: “Contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro. Todos os tempos são, para quem deles experimenta contemporaneidade, obscuros. Contemporâneo é, justamente, aquele que sabe ver essa obscuridade, que é capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente”.

Eis a natureza e a vocação do verdadeiro jornalismo, ser eternamente contemporâneo de seu tempo, sem a ele aderir totalmente, tendo como farol de atuação as luzes da civilização, colocando-se como um dos fiadores essenciais de sociabilidades fundadas na lealdade, na justiça, na fraternidade, na equidade e na liberdade – em qualquer tempo.

José Antonio Martinuzzo, doutor em Comunicação, pós-doutor em Mídia e Cotidiano, jornalista, professor na Ufes e membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória

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