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Um futuro melhor de presente: o sonho dos jovens para a próxima década

A 10 anos do centenário da Gazeta, perguntamos aos jovens: o que você espera de mudanças? A resposta: um mundo menos desigual e com oportunidades

 Um país mais justo, sustentável e seguro, onde haja mais oportunidade de trabalho e que mulheres e homens sejam tratados igualmente. Esses são alguns dos anseios dos jovens do Espírito Santo para os próximos dez anos, ao fim dos quais a Rede Gazeta vai completar seu 100º aniversário. Conscientes dos desafios que devem enfrentar na década, eles desejam um futuro melhor para a sociedade.

 Para as jovens, a igualdade de gênero está entre as prioridades. Querem salários iguais aos dos homens e mais espaço na política e no mercado. E também ver os índices de violência contra elas diminuírem.

Estudante de Geografia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Beatriz Moreira, de 20 anos, diz que o Brasil tem muito o que avançar em relação à igualdade de gênero. Ela ressalta que a participação feminina na política é pequena e espera que isso mude na próxima década. 

 

 

Beatriz Moreira, 20 anos, entrevistada sobre o que esperar daqui a 10 anos
Foto: Bernardo Coutinho

A percepção da estudante de que faltam mulheres em cargos políticos é comprovada pelo relatório “Global Gender Gap Report – 2017”. O Brasil ocupa a 90ª posição no ranking do Fórum Econômico Mundial que analisa a igualdade entre homens e mulheres em 144 nações. Um dos fatores que fazem o país ficar mal colocado é a baixa inclusão de brasileiras em ministérios e no Legislativo. Dos 513 deputados federais, só 51 são do sexo feminino, ou seja, 10% do total.

“Com uma maior presença das mulheres na política, poderemos continuar lutando por nossos direitos, mas com maior poder de intervenção, além das ruas. Teremos voz para pautas como o direito aos nossos corpos e a equiparação salarial, entre tantas outras”, defende Beatriz.

A estudante de Ciências Sociais da Ufes Lóise Araujo Guimarães, 20, acredita que daqui a uma década as mulheres ainda vão estar lutando por seu espaço, mas haverá uma melhora no cenário político e no mercado de trabalho. “Temos que nos desdobrar ao cuidar da casa, dos filhos e do marido e ainda trabalhar fora recebendo menos pelo mesmo serviço que homens. O aborto é outra questão que não é discutida tanto quanto deveria.”

Ela completa que quer ver não apenas mais mulheres nas plenárias, mas também negros e indígenas. Quando o assunto é a violência sofrida por causa do gênero, apesar de o “Anuário de Segurança Pública – 2018” apontar crescimento de casos de feminicídio no Estado (foram 42 em 2017, sete a mais que no ano anterior, com 35 registros), as duas esperam que as ocorrências diminuam. “Não acredito que o problema seja resolvido até os próximos anos, mas espero que os casos se reduzam e que os homens respeitem mais as mulheres”, ressaltou Lóise.

lóise Araújo Guimarães, entrevistada sobre o que esperar daqui a 10 anos
Foto: Bernardo Coutinho

Educação

A estudante de Ciências Sociais também tem outro forte desejo: mais investimento em educação para a próxima década. Espera que a universidade pública esteja aberta a todos e que as cotas raciais e sociais sejam mais respeitadas.

Carlos Daniel de Jesus Santos, de 18 anos, que cursa o ensino médio, também espera por mais investimentos na área educacional. Ele acredita que somente a partir da educação é que outros problemas serão resolvidos.

Carlos Daniel Santos, 18: "Desejo que em dez anos a gente tenha nos poderes bons políticos, que eles realmente nos representem"
Foto: Bernardo Coutinho

Para ele, quanto mais a educação for valorizada, menos precisará ser investido em segurança pública, por exemplo, porque com aprendizado e formação as pessoas em vulnerabilidade social poderão buscar outras atividades em vez de entrar para o crime.

O jovem também diz que a educação fornece mais consciência ambiental. “É fundamental que a população ajude na preservação do meio ambiente. Precisamos de um país mais sustentável”, afirma.

Mercado de trabalho

 Qual será o meu lugar? Eu vou conseguir um emprego na área em que me formei? Esses são alguns dos questionamentos dos jovens para os próximos dez anos em relação ao mercado de trabalho.

Apesar da preocupação com o futuro, eles acreditam que, em uma década, a situação no Espírito Santo poderá ser contrária à dos dias atuais. Mas destacam que, para o Estado caminhar nos trilhos, há muitos desafios.

“Se conseguirmos reverter o quadro político e econômico e voltar a crescer, as oportunidades serão consequência”, avalia Beatriz. Ela pontua: “A garantia ao acesso e permanência na universidade será fundamental para dar mais oportunidades para os jovens”.

Aluno do ensino fundamental, João Guilherme Bezerra, 14, quer cursar Medicina no futuro, mas está preocupado com a possibilidade de, na próxima década, o país registrar altos índices de desemprego. E também segue atento aos serviços que vêm sendo substituídos pela inteligência artificial.

João Guilherme Bezerra, estudante, 14 anos: "Espero que até lá, em dez anos, tenha espaço no mercado de trabalho para mim"
Foto: Bernardo Coutinho

 “Hoje, há muita gente que estuda, é formado, mas não consegue emprego por falta de oportunidade. Espero que até lá tenha espaço no mercado de trabalho para mim”, diz.

Matheus Sena Guimarães de Lima, 18, hoje no ensino médio, quer estar inserido no mercado como cientista social ou psicólogo, mas demonstra estar apreensivo com a próxima década. Diz que até lá existem dois desafios: conquistar um espaço na universidade pública e se inserir no mercado.

“Meu espaço e de muitos outros jovens só estará garantido com uma boa formação, mas isso é incerto devido ao corte de verba e bolsas nas universidades. O profissional sempre precisou se destacar, mas, no futuro, a qualificação profissional deve ser ainda mais importante”, afirma o estudante.

Tecnologia

O sociólogo e professor da Universidade Vila Velha (UVV) Rafael Rezende ressalta que a invasão da tecnologia em todas as áreas da vida alterou a mentalidade das pessoas, os formatos de relacionamentos, os hábitos de consumo e até as profissões. Isso refletiu no mercado de trabalho, segundo ele.

De acordo com Rezende, muitos postos de trabalho estão desaparecendo, e novas atividades profissionais e econômicas vêm sendo criadas. Essas novidades e mudanças ocorrem devido à transição da era industrial para a era digital.

“Todas as transformações que temos vivido têm causado medo e ansiedade em muitas pessoas, já não temos mais certeza de nada. Mas há inúmeras oportunidades que se apresentam neste momento de transição. As respostas positivas dependem de a juventude aprender a usar as ferramentas tecnológicas disponíveis, com o objetivo de produzir sua própria independência profissional. Quem quiser entrar no mercado de trabalho deverá empreender”, aconselha.

Cenário político

A incerteza sobre o futuro dos jovens muito tem a ver com o que ocorre no cenário político e econômico. “Espero que eu consiga me inserir no mercado de trabalho o quanto antes. Mas fiquei preocupado com a perspectiva que tinha para o futuro após a aprovação da PEC do Teto de Gastos (Proposta de Emenda da Constituição 241, que fixou um limite para despesas públicas por 20 anos) e da reforma trabalhista. A situação ficou difícil, mas podemos mudar isso. Estamos em ano eleitoral, devemos escolher bem nossos representantes”, ressalta Matheus.

Matheus Sena Guimarães, 18, pede espaço no ensino superior
Foto: Bernardo Coutinho

Rafael Rezende pontua que o Estado deve contribuir para que os jovens consigam conquistar os objetivos da próxima década. “Deve-se criar as condições econômicas e educacionais propícias para que os jovens desenvolvam habilidades e independência, oferecendo educação inovadora, diminuindo tributos dos pequenos empreendedores e desburocratizando todo o processo”, enumera.

Iara Mari Reis, 16, crê que vai realizar seus planos de vida
Foto: Bernardo Coutinho

Apesar de todos os desafios e incertezas, há algo a se admirar nos jovens: a esperança. Estudante do ensino médio, Iara Mari Reis, 16, salienta que é preciso acreditar e correr atrás para conseguir uma oportunidade. “Pode ser difícil o mercado, e a vontade de desistência vai ser grande. No entanto, vou impor minhas metas, lutar pelo que eu quero sem prejudicar ninguém. Sempre terá alguém para abrir uma porta.”

 

 

 

 

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