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Pesquisa sugere que evolução favorece 'sobrevivência do mais preguiçoso'

Descoberta teve como base a análise de quase 300 espécies de moluscos; cientistas ainda estudam se isso pode se aplicar também a outros animais

Cientistas avaliam que, quanto mais alta a taxa de energia que o corpo demanda para se manter vivo, maior é o risco de extinção
Foto: Pixabay

Se você tem um filho de mais de 30 anos que mal lava a própria louça e que está longe de levar uma vida independente, não precisa temer tanto. Pelo menos, é o que dizem cientistas. Um novo amplo estudo sobre gastrópodes e bivalves fósseis — tipos de moluscos — do Oceano Atlântico sugere que a preguiça pode ser uma boa estratégia para a sobrevivência de indivíduos e até de espécies inteiras.

Os resultados foram publicados nesta terça-feira, dia 21, no "Proceedings of the Royal Society B" por uma equipe baseada na Universidade do Kansas, nos EUA.

Analisando um período de cerca de 5 milhões de anos desde o Plioceno até o presente, os pesquisadores estudaram 299 espécies e mediram suas taxas metabólicas — isto é, a quantidade de energia de que essas espécies precisavam para viver suas vidas diárias. Eles descobriram, então, que taxas metabólicas mais altas são um preditor confiável para medir a probabilidade de extinção.

— Nós nos perguntamos: "seria possível saber a probabilidade de extinção de uma espécie com base na sua absorção de energia?" — lembra Luke Strotz, principal autor do estudo e pesquisador de pós-doutorado do Instituto de Biodiversidade e Museu de História Natural da Universidade do Kansas. — O que encontramos foi uma diferença marcante entre as espécies de moluscos que foram extintas nos últimos 5 milhões de anos e as que ainda estão por aí. As que foram extintas tendem a ter taxas metabólicas mais altas do que as que ainda estão vivas.

'MAIS PREGUIÇOSO', E NÃO 'MAIS APTO'

Um dos coautores do estudo, Bruce Lieberman, que é professor de ecologia e biologia evolutiva na mesma universidade, destaca que o termo "sobrevivência do mais apto", na verdade, poderia ser substituído por "sobrevivência do mais preguiçoso":

— Talvez, no longo prazo, a melhor estratégia evolutiva para os animais seja ser lassitudinoso e lento: quanto mais baixa a taxa metabólica, maior a probabilidade de que as espécies sobrevivam. Então, em vez de "sobrevivência dos mais aptos", talvez uma metáfora melhor para a história da vida seja "a sobrevivência dos mais preguiçosos", ou, pelo menos, "a sobrevivência dos mais lentos".

Assinam também o estudo os pesquisadores Julien Kimmig, da Universidade do Kansas, e Erin Saupe, da Universidade de Oxford, na Inglaterra.

Os pesquisadores acreditam que o trabalho pode ter implicações importantes na previsão de quais espécies podem desaparecer no curto prazo, diante da iminente mudança climática.

— A taxa metabólica não é o fator determinante para a extinção. Há muitos fatores em jogo. Mas nossos resultados dizem que a taxa metabólica de um organismo é um componente importante para avaliara a probabilidade de extinção. Portanto, é mais uma "ferramenta" na "caixa de ferramentas" — analisa Strotz. — Isso aumentará nossa compreensão dos mecanismos que impulsionam a extinção e nos ajudará a determinar melhor a probabilidade de uma espécie ser extinta.

QUANTO MAIOR O HABITAT, MENOR O RISCO DE EXTINÇÃO

Segundo os dados que a equipe encontrou, uma taxa metabólica elevada é um bom indicador da probabilidade de extinção especialmente quando as espécies estão confinadas a um habitat menor. No entanto, ela funciona menos quando se trata de uma espécie espalhada por uma ampla área geográfica do oceano.

— Descobrimos que as espécies que estão amplamente distribuídas não mostram a mesma relação entre a extinção e a taxa metabólica que as espécies com uma distribuição escassa — conta Strotz. — A área que uma espécie ocupa é um componente importante da sua probabilidade de extinção. Espécies concentradas em um só local parecem muito mais propensas a serem extintas.

Segundo Strotz, a escolha de usar moluscos para estudar o fenômeno se deve aos amplos dados disponíveis sobre espécies vivas e extintas de moluscos.

— São necessários conjuntos de dados muito grandes — explica ele. — A razão pela qual escolhemos o Atlântico Ocidental como área de estudo é porque temos excelentes conjuntos de dados que registram a distribuição de moluscos fósseis e vivos desta região. Eu usei muito material fóssil de coleções em todo os EUA.

Para o autor, um acompanhamento dessa linha de investigação será estabelecer em que medida a taxa metabólica tem influência sobre as taxas de extinção de outros tipos de animais.

— Nós vemos esses resultados como "generalizáveis" para outros grupos, pelo menos dentro do ambiente marinho — afirma Strotz. — Alguns dos próximos passos são expandi-los para outros animais, para ver se o resultado é consistente com algumas coisas que sabemos sobre outros grupos. Há uma questão de saber se isso é apenas um fenômeno de moluscos. Há alguma justificativa, dado o tamanho desse conjunto de dados e o longo período de tempo que ele cobre, que é generalizável, mas ainda será preciso estudar para ver se isso pode ser aplicado a vertebrados, a animais que vivem em em terra.

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