Gazeta Online

Notícia

Nova regra abre espaço para startups no setor de psicologia

A partir de novembro, CFP vai permitir sessões online; para especialistas, mudança exige adaptação e traz debate ético

-
Foto: Reprodução/Pixabay

Uma nova norma do Conselho Federal de Psicologia (CFP) que passa a vigorar em novembro deve abrir um novo mercado para as startups voltadas para a área no País. Sob a nova regra, psicólogos terão a possibilidade de realizar sessões de terapia online – antes, era possível apenas realizar 20 encontros, o que dificultava o trabalho das empresas iniciantes.

A mudança ocorre após um ano de estudos e observação do mercado . Ainda que vetadas, muitos psicólogos já usavam ferramentas como o Skype para fazer consultas online, especialmente em casos de atendimento com pacientes que tinham se mudado para outros países ou com dificuldades de deslocamento. “A norma estava desgastada”, diz a conselheira Rosane Granzotto, do CFP. “Precisávamos mudar.”

Uma das startups que busca surfar no novo movimento é a Vittude, criada pela engenheira civil Tatiana Pimenta em 2016. De lá para cá, a empresa recebeu R$ 650 mil em aportes e realizou 12 mil consultas; hoje, são 1,5 mil psicólogos e 4 mil pacientes cadastrados – 90% deles nunca havia feito tratamentos antes.

Além de atender pessoas físicas, a empresa também faz parcerias com empresas, oferecendo vouchers para os empregadores distribuírem entre os funcionários. “Há empresas que têm quase mil funcionários afastados por ansiedade ou depressão. É ruim para o empregador e para o INSS ”, diz Tatiana. “Queremos agir antes que seja preciso pedir afastamento.”

MARÉ

A Vittude não está sozinha. Outra startup que atua nesse modelo é a Zenklub, fundada pelo médico Rui Brandão. A empresa tem hoje 5 mil profissionais cadastrados e já realizou mais de 20 mil consultas online. Entre seus investidores, está o fundo especializado em saúde HEALTH+, que aportou R$ 300 mil na empresa. A partir de um questionário e um algoritmo, a Zenklub busca filtrar qual o profissional mais indicado para o paciente. “Tentamos mudar a percepção das pessoas com terapia. Se você não se sentir bem com a primeira experiência, pode falar com outros profissionais. É mais confortável”, diz o fundador.

O uso do algoritmo para direcionar pacientes aos profissionais é algo comum no setor. Após fazer um cadastro, os usuários devem responder algumas questões específicas. Elas são divididas entre aspectos demográficos, como sexo ou região onde mora, e perguntas mais objetivas para o tratamento. Se o paciente sente a necessidade de falar com o profissional de forma frequente, o algoritmo provavelmente excluirá terapeutas freudianos. Se for necessário ser mais ouvido do que interpelado, caem as chances de serem indicados psicólogos junguianos, por exemplo.

> Capitão: pessoas soltaram foguetes na direção de resgatado na ponte

Depois de selecionado o psicólogo, a mecânica é simples: o paciente escolhe o horário e realiza o pagamento pela própria plataforma – a maioria delas aceita cartão de crédito e boleto. As empresas faturam com porcentagens das consultas, variando entre 15% e 30%.

Na hora marcada, é só entrar com um código na sala de conferência e começar a sessão, de 50 minutos. Também é possível fazer a consulta por meio de áudio – mas isso só é permitido quando a conexão de internet não suporta o uso do vídeo.

Outra empresa do setor é a TelaVita, da psicóloga Milene Rosenthal, que oferece sessões com valores entre R$ 80 e R$ 200. Para ela, a teleterapia é o futuro da profissão. “Poucos psicólogos de linha psicanalista atendem por videochamada. Afinal, eles têm uma técnica de não olhar para o paciente e manter certa distância”, diz Milene. “Eles vão precisar achar um meio termo. Se Freud estivesse vivo, tenho certeza de que já estaria atendendo pela internet.”

LINHAS

-
Foto: Reprodução/Pixabay

Algumas vertentes da psicologia se adaptam mais facilmente à web. É o caso da linha analítica, em que o terapeuta busca dialogar com o paciente. Para a psicóloga Jussara Pascualon, adepta dessa linha, as sessões online funcionam bem – hoje, ela já realiza 20% de suas consultas pela TelaVita. “Muitos dos meus pacientes trabalham e se consultam comigo durante o horário de almoço ou após o expediente”, afirma. Mas ela reconhece que é preciso se adaptar. “Tenho buscado novas técnicas: ler expressões e se comunicar pelo rosto é algo essencial na internet.”

Há quem defenda que a experiência online ainda é aquém do ideal. É o caso de Éverton Gonçalves, na profissão há 32 anos. Em 2017, um paciente seu foi morar nos EUA e tentou seguir com o atendimento virtual. “Vi que não era a forma correta, então cessamos.” O CFP reitera que há diferenças. “A tecnologia não recria tudo”, diz Rosane.

Além disso, especialistas do setor alertam para a essência da profissão: o contato entre as pessoas. Sendo uma ciência humana, a psicologia não pode ser usada por meio de inteligência artificial.

É o caso da gaúcha Eurekka, fundada por três psicólogos em 2017. Ela faz a união de diversas tecnologias: inteligência artificial, por meio de um chatbot no app de mensagens Messenger, que aconselha pessoas; apps para reduzir estresse e ansiedade; e terapia online e presencial, realizada na região de Porto Alegre. “Há um conservadorismo na psicologia que a deixa parada no passado”, diz o cofundador Henrique de Souza, de 23 anos. “Queremos mostrar como a tecnologia pode ser uma aliada da psicologia.”

Quando consultado sobre a startup e novas tecnologias, o CFP diz que ainda não há regulação em torno da inteligência artificial, chatbots ou aplicativos. “Não é hora. E a robotização completa de terapia não é psicologia. Tem muito a ser discutido ainda”, diz Rosane Granzotto, do CFP.

“O psicólogo não receita remédio. O medicamento é a própria relação com o profissional”, diz Nelson Fragoso, professor de psicologia do Mackenzie. “É preciso pensar a tecnologia como ferramenta de suporte à terapia.”

No ad for you