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Excesso de álcool aumenta possibilidade de desenvolver demência

Estudo indica que alcoólatras têm três vezes mais chances de sofrerem com a doença

Cientistas constataram 57.353 casos de demência precoce em indivíduos com menos de 65 anos
Cientistas constataram 57.353 casos de demência precoce em indivíduos com menos de 65 anos
Foto: Carlos Alberto da Silva

O consumo crônico e em excesso do álcool não faz mal apenas ao fígado, mas também ao cérebro, revela estudo publicado esta semana na revista “Lancet Public Health”. Os resultados indicam que o abuso de bebidas alcoólicas está associado com risco três vezes maior de demência, tornando o alcoolismo o principal fator para o declínio cognitivo que pode ser controlado pela alteração no estilo de vida. Por esse motivo, os pesquisadores sugerem a implementação de políticas para o diagnóstico e o tratamento precoce dessa parcela da população para reduzir casos futuros da doença.

"O vínculo entre a demência e desordens no uso do álcool precisa de mais estudos, mas provavelmente é resultado de danos estruturais e funcionais permanentes no cérebro decorrentes da bebida", apontou Michaël Schwarzinger, pesquisador da Rede Interdisciplinar de Economia da Saúde da França e autor principal do estudo. "As desordens do uso do álcool também aumentam os riscos de pressão alta, diabetes, derrame, fibrilação atrial e insuficiência cardíaca, que podem, por sua vez, aumentar o risco de demência vascular. Por fim, a bebida em excesso está associada com o tabaco, a depressão e a baixa escolaridade, que também são fatores de risco para a demência".

Na pesquisa, os cientistas consideraram os 57.353 casos de demência precoce, em indivíduos com menos de 65 anos, diagnosticados pelo sistema de saúde público francês entre 2008 e 2013. Deles, 39% foram atribuídos a danos cerebrais relacionados com o consumo do álcool. Além disso, 18% dos pacientes sofriam de alcoolismo. No total, as desordens relacionadas ao uso do álcool estão associadas a um risco três vezes maior de desenvolvimento da demência.

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Os pesquisadores ressaltam ainda que o alcoolismo está associado com todos os outros fatores de risco independentes para o desenvolvimento da demência, como fumo, pressão alta, diabetes, baixos níveis de escolaridade, depressão e perda de audição. A definição de consumo crônico e em excesso do álcool seguiu recomendações da Organização Mundial da Saúde, que classifica a desordem com o consumo diário de mais de 60 gramas de álcool para homens, cerca de seis drinques, e de mais de 40 gramas para mulheres, cerca de quatro drinques.

"Nossas descobertas sugerem que o peso da demência atribuída a desordens no uso do álcool é muito maior do que se pensava, apontando que o abuso da bebida deve ser considerado como um grande fator de risco para todos os tipos de demência", comentou Schwarzinger. "Várias medidas são necessárias, como a redução da disponibilidade das bebidas, o aumento dos impostos e a proibição da publicidade do álcool, junto com o diagnóstico e o tratamento precoce do alcoolismo".

CONTROVÉRSIA SOBRE CONSUMO MODERADO

A relação entre o consumo de álcool e o declínio cognitivo é tema controverso entre os cientistas. Estudos anteriores já haviam indicado que o abuso da bebida aumentava o risco de demência, mas não tanto quanto o apontado pela pesquisa francesa. Por outro lado, outros estudos indicam que o consumo moderado de vinho tinto pode prevenir a demência.

"À primeira vista, os resultados podem parecer inconsistentes com outros estudos, incluindo alguns que se tornara, notícia recentemente, de que o consumo moderado do álcool está associado com uma melhor 'saúde cognitiva'", analisou Matt Field, professor da Universidade de Liverpool não envolvido na pesquisa. "Mas esses resultados podem ser conciliados porque existe uma grande diferença entre consumo leve e moderado e o alcoolismo".

Contudo, Sara Imarisio, diretora de pesquisas no instituto Alzheimer’s Research, no Reino Unido, alerta que existem estudos apontando que até mesmo o consumo moderado pode ter um impacto negativo na saúde do cérebro.

"As pessoas não devem ficar com a impressão que apenas beber até ser hospitalizado carrega o risco",  destacou Sara. "Apesar de não existir uma forma de prevenir completamente a demência, as melhores evidências atuais indicam que assim como cortar a bebida, estar fisicamente e mentalmente ativo, comer uma dieta saudável e balanceada, não fumar e manter o peso, o colesterol e a pressão em dia são bons caminhos para garantir a saúde do cérebro com a idade".

Para Robert Howard, pesquisador da Universidade College London, o mais surpreendente do estudo “foi o longo tempo que levamos para reconhecer que o abuso e a dependência do álcool são fatores de risco potentes para o desenvolvimento da demência”.

"Nós sabemos há tempos que o álcool é neurotóxico, que a deficiência de tiamina nos alcoólatras prejudica a memória, que condições relacionadas ao álcool, como cirrose e epilepsia, podem danificar o cérebro e que o dano vascular cerebral é acelerado pelo álcool", comentou Howard. "Surpreendentemente, tradicionalmente nós não consideramos o álcool e seu abuso como um fator de risco importante para a demência e estávamos claramente errados nisso".

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