Notícia

Ajuda da Medicina: mulheres realizam o sonho de ser mãe

Elas lutaram muito para ter um filho e agarraram com unhas e dentes tudo que a ciência tinha para oferecer

Simone Pimentel e Heloisa Bittencourt Weber com o filho Francisco, fruto da fertilização in vitro
Simone Pimentel e Heloisa Bittencourt Weber com o filho Francisco, fruto da fertilização in vitro
Foto: Fernando Madeira

Para algumas mulheres, a chegada do bebê não é resultado apenas do desejo íntimo do casal. E sim de meses, talvez anos, de um processo que envolveu exames, pequenas cirurgias, medicamentos, às vezes muitas tentativas e falhas. Elas lutaram muito para ter um filho, insistiram nesse sonho e agarraram com unhas e dentes tudo que a ciência tinha para oferecer.

Neste Dia das Mães, conheça duas histórias de três mães. Sim, vamos mostrar casos de mulheres que estão vivendo as dores e delícias da maternidade graças à Medicina: como a Mariana, agora mãe das gêmeas Laís e Lívia; e a Heloisa e a Simone, mães do Francisco.

Com uma alegria imensa e um brilho especial nos olhos, essas mulheres contam como a técnica da fertilização in vitro mudou para melhor a vida delas. Um caminho longo, doloroso, dispendioso, mas com final feliz.

Louise Brown, a britânica que foi primeira bebé-proveta do mundo, 40 anos atrás, e hoje com dois filhos naturais, dá um conselho às mulheres que precisam da ciência para engravidar, tal como a mãe dela precisou um dia: “Nunca desistam, pois não há nada como a alegria de ser mãe”.

Dose dupla

É o que acabam de descobrir Heloisa Bittencourt Weber, 34 anos, e Simone Pimentel, 41, desde que pegaram o pequeno Francisco nos braços pela primeira vez, no último dia 25 de abril. “Estamos flutuando! Aqui em casa, essa data vai ser sempre em dose dupla! Já estamos brincando com o Francisco que ele vai ter que comprar para sempre dois presentes no Dia das Mães”, comenta Simone.

Elas estão juntas há 13 anos, mas de quatro anos para cá começaram a planejar a vinda do bebê. “Vivíamos já em união estável e desde 2014 tínhamos essa ideia de ter um filho. Assim que liberaram o casamento, nos casamos para facilitar o registro, deixar tudo certinho para o Francisco”, conta Heloisa.

O menino é fruto da técnica da fertilização in vitro (FIV) e nasceu na quinta tentativa. “Foram duas tentativas com cada uma de nós e nada. Na minha terceira tentativa, com o último embrião, deu certo. Pegamos meus óvulos, já que sou mais nova, com material genético de doador anônimo em banco de sêmen”, explica Heloisa.

Antes de nascer, quando ainda era um embrião, o Francisco ainda passou pelas mãos da médica Layza Merizio Borges, especialista em reprodução humana. “A fertilização in vitro vem permitindo que casais homoafetivos realizem o sonho de ter filhos”, observa ela.

Técnicas

Benefício que outros tantos milhões de casais estão aproveitando no mundo inteiro, graças ao avanço das técnicas de reprodução assistida.

“Quando o primeiro ‘bebê de proveta’ foi concebido, taxa de sucesso era em torno de 5%, bem baixa. Com o advento do ultrassom, que até então não existia, e de outros procedimentos mais modernos, a taxa chegou a 50%. Ou seja, aumentou em dez vezes a chance de uma paciente engravidar quando se submete à técnica de reprodução assistida”, destaca Layza Merizio.

Na fertilização in vitro, as células dos ovários são fecundadas pelo espermatozoide fora do corpo, no tubo de ensaio. É um dos processos mais indicados para mulheres com problemas de fertilidade. “Muitos casais chegam ao consultório desgastados emocionalmente. Muitos dizem que é a última esperança, mas têm que estar preparados para uma negativa, cientes de que pode não dar certo na primeira tentativa”, diz a médica.

"Agradeço a Deus e à ciência por realizar esse sonho"

A fisioterapeuta Mariana Vargas com as gêmeas Laís e Lívia, que nasceram graças à fertilização in vitro
A fisioterapeuta Mariana Vargas com as gêmeas Laís e Lívia, que nasceram graças à fertilização in vitro
Foto: Fernando Madeira

“Nossa história é longa mas com um final feliz”, resume a fisioterapeuta Mariana Vargas, 39 anos. A vontade de ser mãe já batia forte no peito há muito tempo, mas ela teve que esperar muito para realizar esse desejo, o que aconteceu às custas de muitas lágrimas. E também de muita esperança.

“Eu e meu marido descobrimos que não conseguiríamos por vias naturais, pois temos problemas de fertilidade. Foram quatro anos tentando. Nosso sonho era construir uma família, ter filhos. Só não imaginávamos essa dificuldade. Era uma enorme pressão da família e interna também. Fizemos microcirurgias e outros tratamentos alternativos. Em 2014, tentamos fertilização in vitro. Era a última alternativa de ter um bebê. Quando você faz um tratamento desse, acha que é o último recurso. E da primeira vez, mas não deu certo, e o mundo desabou”, relembra ela.

Emoção

O casal não desistiu e resolveu tentar a fertilização mais uma vez, em outra clínica. “Poderíamos ter desistido porque é um desgaste emocional muito grande. Fomos com muitas dúvidas, muita apreensão, mas tudo deu certo e fomos abençoados por esta dádiva divina de termos duas lindas princesas”, comenta a mãe da Laís e da Lívia, hoje com 1 ano e 9 meses.

A dificuldade para engravidar afeta pelo menos 20% dos casais em idade reprodutiva e os motivos são vários, como explica a ginecologista Layza Merizio, especialista em reprodução humana.

“São muitos os entraves que a mulher encontra para conseguir ser mãe. Se ela quer ser uma profissional bem sucedida, com pós-graduação, isso vai consumindo tempo. E quando ela vai pensar na maternidade, passou a chance”, diz a médica.

Se o desejo ou a estrutura para encarar a maternidade vem mais tarde, os desafios são maiores. “Depois dos 35 anos, já se considera idade avançada para ter filhos. E aí já está tarde para engravidar com os óvulos próprios. A partir dos 40 anos, além da queda na fertilidade, é maior a chance de malformações genéticas nos bebês”, pondera Layza.

Mas a Medicina continua evoluindo e facilitando a vida de casais que pensam em, um dia, fazer a família crescer. “Aquelas que planejam ter uma longa trajetória profissional até alcançar esse objetivo, de serem mães, devem pensar em congelar os óvulos para que, no futuro, possam engravidar aos 40 anos, por exemplo, com óvulos de 35”, orienta a especialista.

“As mulheres precisam ter consciência de que a idade passa e devem procurar cedo um especialista, nem que seja para avaliar reserva de óvulos que têm. Ou podem se arrepender de não ter feito nada enquanto podiam e depois vão precisar de óvulos doados para engravidar. Existem técnicas que podem ajudar a manter a reprodução, mas isso tem que ser avaliado de perto para ter resultado positivo lá na frente”, comenta a ginecologista Isabela Rangel, capacitada na área de reprodução assistida.

Só na clínica onde ela atende, cerca de 200 casais procuram a fertilização in vitro por ano. “A Medicina não faz milagre. Às vezes, não conseguimos ajudar”, diz ela.

Fertilização in vitro: técnica ainda é marcada por preconceitos

A chegada do primeiro “bebê de proveta” ao mundo, em 1978, despertou reações diversas no mundo. Uns celebraram o feito, outros o viram com muitas ressalvas.

Em 1987, no documento “Donum vitae” (“Dom da vida”), Igreja Católica afirmou que a associação do sexo à tecnologia, que ocorre na reprodução assistida e na inseminação artificial, é imoral. A crítica foi reafirmada pelo Papa Francisco em 2014: “Estamos brincando com a vida, e isso é um pecado contra o Criador”, disse o pontífice na ocasião.

Décadas e muitos avanços depois, a técnica da fertilização in vitro continua sendo marcada por preconceito. “São muitas questões pessoais, até religiosas. Muitos casais têm receito de falar que buscaram o procedimento. Preferem sigilo, querem discrição”, observa a ginecologista Layza Merizio, especialista em reprodução humana.

A ginecologista Isabela Rangel, que atua com reprodução assistida, tem a mesma impressão. “Muitas não gostam nem de serem vistas entrando na clínica. A sociedade ainda tem preconceito. Até por isso, há mulheres que demoram a procurar ajuda, acham que se não engravidaram naturalmente, então não era para ser. Elas têm medo do que os outros vão pensar”.

Entenda mais sobre a técnica

Fertilidade: A dificuldade para engravidar afeta pelo menos 20% dos casais em idade reprodutiva

“Bebês de proveta”

Técnica existe há 40 anos

Em julho de 1978, nasceu o primeiro “bebê de proveta" do mundo, a britânica Louise Joy Brown. Desde então, a fertilização in vitro e tecnologias relacionadas geraram cerca de 7 milhões de bebês

No Brasil

O Brasil foi pioneiro na América Latina no uso da fertilização in vitro, com o nascimento da Anna Paula Caldeira em 1984

Evolução

Quando o primero bebê de proveta foi concebido, a taxa de sucesso dessa técnica de reprodução assistida girava em torno de 5%. Hoje, essa taxa é de cerca de 50%

Alto custo

A FIV ainda é inacessível para muitos casais que não podem desembolsar, em média, de R$ 20 mil a R$ 30 mil pelo tratamento. O custo pode ser reduzido se a mulher opta por doar metade dos óvulo que ela produz, abatendo o valor. O custo fica mais alto, porém, para a outra paciente que irá usar esses óvulos ara engravidar

Idade

Para doar os óvulos, a mulher precisa ter no máximo 35 anos, idade a partir da qual as chances de engravidar naturalmente caem progressivamente

Diferenças

Inseminação artificial x fertlização in vitro

Na inseminação, o sêmen do doador é introduzido na mulher no período da ovulação. Na fertilização, os óvulos da mulher são retirados por meio de um processo chamado aspiração e juntados aos espermatozoides em laboratório, com posterior transferência para o útero materno

Chance de múltiplos

Quanto mais jovem a mulher, menos embriões ela precisa implantar e menor a necessidade de ter que recorrer a óvulos de uma outra mulher mais nova. Por isso, é comum mulheres mais velhas terem gravidez múltipla após a fertilização

Fontes: Especialistas entrevistadas, Memória O Globo, Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida e Sistema Nacional de Produção de Embriões

Ver comentários