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Cientistas criam técnica capaz de evitar que maçãs escureçam

Avanço de ferramentas de edição genética divide opiniões e gera polêmica sobre regulamentação

Modificação genética feita pela empresa americana Okanagan Specialty Fruits gerou maçãs que retêm melhor o conteúdo nutritivo de antioxidantes e vitamina C
Modificação genética feita pela empresa americana Okanagan Specialty Fruits gerou maçãs que retêm melhor o conteúdo nutritivo de antioxidantes e vitamina C
Foto: Divulgação/Patrick Tregenza

O avanço das ferramentas de edição genética estão promovendo uma revolução silenciosa no campo. Longe do barulho dos transgênicos, agências reguladoras em diversos países, inclusive no Brasil, criaram normas que agilizam a aprovação de organismos geneticamente modificados com o uso das chamadas Técnicas Inovadoras de Melhoramento de Precisão, como o CRISPR-Cas9.

Maçãs que não escurecem após serem cortadas e leveduras que aumentam a produção de etanol estão entre os produtos já disponíveis no mercado. Defensores argumentam que a aplicação da tecnologia pode melhorar a produtividade e as características nutritivas de alimentos, enquanto críticos alertam para os riscos para a saúde e o ambiente.

A polêmica ganhou força no fim do mês passado, com uma decisão da Corte de Justiça da União Europeia que determinou a aplicação das regras dos transgênicos aos organismos geneticamente modificados com técnicas modernas de edição do DNA. A posição foi criticada pelo Secretário de Agricultura dos EUA, que classificou a medida como um “retrocesso”, por “criar barreiras desnecessárias e estigmatizar novas tecnologias”.

No Brasil, a presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), Maria Sueli Felipe Soares, considerou “legítima” a decisão europeia:

— Mas é importante ressaltar que mesmo países membros da UE se posicionaram, cientificamente, de forma semelhante à legislação brasileira e de vários outros países.

> Por que comer maçã dá fome?

Eduardo Romano, pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, explica que o melhoramento genético por mutação, conhecido como mutagênese, é aplicado na produção agropecuária desde a década de 1950. Por radiação ou com a aplicação de agentes químicos, organismos foram selecionados ao longo de décadas e estão presentes nos pratos dos consumidores.

— Mas as técnicas antigas alteravam o DNA de maneira aleatória. Agora, as ferramentas permitem a edição precisa de um gene — explica. — A ideia é mimetizar a natureza. Escolher uma característica da planta e identificar os genes responsáveis, para alterá-los nas plantas comerciais.

NÃO SÃO TRANSGÊNICOS

Por definição, os organismos transgênicos são os que recebem genes de outro organismo. Já as novas técnicas de mutagênese modificam os genes do próprio organismo. Essa diferença fez com que agências reguladoras não classificassem organismos resultantes da mutagênese como transgênicos. Assim, estão isentos dos caros e longos processos de liberação comercial.

— A liberação de um organismo transgênico não custa menos de US$ 50 milhões e pode levar décadas — aponta Romano. — Por isso, os transgênicos ficam limitados a grandes corporações melhorando commodities, para compensar o investimento. As novas ferramentas são mais baratas e, sem a burocracia, abrem espaço para pequenas empresas criarem melhorias em cultivos de menor valor.

No Brasil, a Resolução Normativa 16 da CTNBio, aprovada em janeiro, exige a apresentação de uma carta-consulta para avaliar se o organismo deve ou não ser enquadrado como transgênico. Em junho, duas leveduras desenvolvidas com o uso do CRISPR-Cas9 pela start-up belgo-brasileira GlobalYeast receberam sinal verde para a entrada no mercado. Em laboratório, testes comprovaram aumento entre 2% e 4% na produção de etanol.

— O país produz cerca de 30 bilhões de litros de etanol por ano. Considerando a performance mínima de 2%, são 600 milhões de litros a mais, com o mesmo número de usinas e a mesma cana — afirma Marcelo do Amaral, diretor executivo da GlobalYeast.

Mas, enquanto alguns veem maravilhas, outros veem ameaças. Sarah Agapito, pesquisadora do Centro de Biossegurança GenØk, na Noruega, e delegada do Brasil no âmbito da Convenção das Nações Unidas para Diversidade Biológica, alerta que essas tecnologias são novas, modificam o DNA de forma não natural, e ainda não possuem histórico de uso seguro.

— Uma vez desregulamentados, esses organismos vão ser liberados em larga escala no meio ambiente e chegarão às nossas mesas sem qualquer análise dos potenciais riscos ao meio ambiente e à saúde humana — alerta.

Rosmari Malheiros, secretária de Meio Ambiente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), destacou os riscos para a biodiversidade:

— Se plantam uma semente modificada do meu lado, ela também modifica o meu milho. E atinge não apenas as plantas, como outros organismos que mantêm os ecossistemas balanceados.

MAÇÃS MAIS PRÁTICAS E RESISTENTES

As maçãs são frutas práticas e nutritivas, mas estragam rapidamente após serem cortadas. Em questão de minutos, a enzima polifenoloxidase promove a reação de substâncias químicas conhecidas como polifenóis com o oxigênio do ar, escurecendo o fruto. Para resolver o problema, a empresa de biotecnologia americana Okanagan Specialty Fruits recorreu à engenharia genética para criar uma variedade de maçãs que não escurece.Com o uso de uma técnica chamada RNA de interferência, os pesquisadores conseguiram determinar sequências que inibiam a produção da polifenoloxidase. Então, com essa informação, foram criados genes para “desligar” essas sequências específicas, que foram reinseridos no DNA da planta. Após anos de pesquisas, a companhia conseguiu criar uma maçã sem a enzima.

— As variedades da maçã são desenvolvidas com o silenciamento da enzima que provoca o escurecimento quando as frutas são mordidas, fatiadas ou machucadas — explica Neal Carter, cofundador e presidente da Okanagan Specialty Fruits.

Para comprovar essa característica, a empresa comercializa as maçãs já cortadas em fatias, todas com a aparência saudável, sem sinais de escurecimento. Carter afirma que a maçã geneticamente modificada, batizada como Arctic Apple, tem outra vantagem: a fruta consegue reter o conteúdo nutritivo de antioxidantes e vitamina C que é perdido com o escurecimento.

A ferramenta usada pela empresa é mais antiga, ficando fora da classificação das Técnicas Inovadoras de Melhoramento de Precisão, mas o resultado mostra o potencial da biotecnologia na produção agrícola. Até então, a engenharia genética de organismos era restrita a laboratórios de centros de pesquisas, como a Embrapa, e a grandes companhias. Hoje é possível comprar kits para aplicação do CRISPR-Cas9 por menos de US$ 200. A maçã que não escurece é apenas o primeiro de muitos alimentos geneticamente modificados que chegarão às mesas dos consumidores.

— Se pudermos abraçar a tecnologia que vai nos ajudar a produzir de forma mais eficiente e sustentável os alimentos necessários para alimentar este planeta, poderemos provocar um impacto poderoso na sustentabilidade, tanto do meio ambiente como das populações em todo o mundo — prevê Carter. — A biotecnologia pode beneficiar toda a cadeia de abastecimento alimentar, seja fornecendo características que permitam a cultura com menos insumos, variedades com maior rendimento, menor desperdício ou maior ou maior valor nutricional por porção. A biotecnologia será uma ferramenta chave para mudarmos a forma como alimentamos o mundo.

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