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Água alcalina cura doenças? Não caia nessa

Especialistas dizem que benefícios não são comprovados

Mulher bebendo água
Mulher bebendo água
Foto: Shutterstock

Repare na prateleira do mercado, ao lado da garrafinha de água mineral. Provavelmente, você vai encontrar ali, por um preço até três vezes maior, uma ou mais opções da chamada água alcalina.

Na internet, tem muita gente falando dela quase como um milagre em forma de líquido, capaz de trazer a cura de doenças, entre elas o câncer. E não estranhe se um vendedor te parar para oferecer um filtro que alcaliniza a água - que também custa o dobro de um filtro convencional.

A palavra dos médicos, porém, é um balde de água fria (normal mesmo) no assunto. Para eles, a ciência não comprovou nenhum efeito benéfico a esse ponto da água alcalina para a saúde.

Para entender um pouco é preciso recorrer aos ensinamentos lá da escola, das aulas de Química, como lembra o professor de Farmacologia do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), Thiago Melo Costa Pereira. Segundo ele, um conhecimento básico de bioquímica derruba essa tese milagrosa do produto.

“Temos que explicar como funciona o ph. Numa escala, abaixo de 7 o ph é ácido. Acima de 7, ele é alcalino ou básico. A água alcalina tem o ph acima de 7,5”, pontua o professor.

A água alcalina tem um nível de ph mais alto do que a água potável normal. Por isso, muitos acreditam que ela tenha o poder de neutralizar o ácido em nosso corpo, sendo que essa acidez, dizem, é a responsável por causar danos à saúde.

EVIDÊNCIAS

“Não há evidências na literatura ou em artigos científicos que mostrem que o aumento do ph vai trazer benefícios à saúde. Essa hipótese é muito frágil. O nosso corpo faz o ajuste do ph a cada segundo. Então essa ‘ajudinha’ da água alcalina seria mínima. O corpo já faz isso”, afirma Thiago.

A nutricionista Camila Gomes também já observou o marketing pesado das empresas para vender essa promessa. “Há lojas que só trabalham com isso, vendendo filtros de até R$ 500 que transformam a água em água alcalina. Não sabemos até que ponto vale esse investimento”, conta ela.

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O que alguns estudos já mostraram, segundo Camila, é que algumas doenças se desenvolvem mais em um meio ácido.

“Uma dieta muito rica em gordura e açúcar, como frituras e refrigerante, torna o ph do sangue mais ácido. Uma pequena acidez o corpo dá conta de corrigir. Mas esse tipo de alimentação, se for muito frequente, a longo prazo não é benéfica, predispõe o câncer, a osteoporose, por exemplo”.

Então, equilibrar o organismo com uma dieta menos ácida seria um boa escolha. “O que orientamos é a pessoa fazer uma dieta anti-inflamatória, que pode ajudar o corpo a dar conta de regular esse ph. Tem que deixar de comer o que causa essa acidez. Mas não dá para afirmar que corrigir a acidez com água alcalina livrará a pessoa de doenças. O benefício virá com a mudança de alimentação, e não simplesmente bebendo água alcalina”, diz a nutricionista.

LIMÃO

Uma forma de ingerir uma água mais alcalina é pingando umas gotas de suco de limão na bebida. “O limão é uma fruta ácida, mas tem ação alcalinizante no corpo. No estômago, ele entra em contato com enzimas digestivas que tornam o meio mais alcalino. Em jejum, tem uma função desintoxicante, melhorando o funcionamento do intestino”, sugere Camila.

O endocrinologista Albermar Harrigan lamenta que notícias do tipo estejam levando pessoas a acreditarem na cura de doenças graves por meio de hábitos como o consumo de água alcalina. “É pura especulação”, destaca.

A dica dele para uma vida saudável, com menos chance de doenças, passa por beber água sim. “Mas não precisa fazer nada com a água. Só não pode esquecer-se de bebê-la. A água é um líquido neutro justamente para ter equilíbrio em qualquer parte do nosso corpo, em locais onde o PH é básico, como na boca, por exemplo, e em locais como o estômago, onde o PH é ácido”, explica ele.

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