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Teve um "branco"? Pode ser epilepsia

Sinais "invisíveis" podem adiar o diagnóstico do problema

Em Vitória, Zoltan Nadasdy mostra o capacete que funciona como máquina de eletroencefalografia portátil.
Em Vitória, Zoltan Nadasdy mostra o capacete que funciona como máquina de eletroencefalografia portátil.
Foto: Marcelo Prest

A pessoa está conversando tranquilamente quando, de repente, fica meio “fora do ar” por uns segundos e depois volta a si, perguntando “o que eu estava falando mesmo?”. Essa espécie de miniapagão pode ser um sintoma de epilepsia.

A epilepsia é um distúrbio que ocorre quando há uma atividade excessiva anormal das células cerebrais. É um problema que atinge cerca de 50 milhões de pessoas no mundo, mas muita gente não sabe que tem e demora a descobrir.

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Em boa parte dos casos, ela provoca convulsões, em que o indivíduo desmaia e fica se debatendo, retorcendo o corpo todo. Mas nem sempre é assim que as crises se manifestam.

Esses sinais “invisíveis” prejudicam o diagnóstico do distúrbio, como destaca o neurocientista Zoltan Nadasdy, pesquisador da na Universidade do Texas, nos Estados Unidos (EUA).

“Sinais assim passam despercebidos pela naturalidade do comportamento. A pessoa passa como desatenta, distraída, quando o que teve foi uma crise epiléptica, algo detectável apenas pelo eletroencefalograma. Muitas crianças são diagnosticadas com Transtorno de Déficit de Atenção quando, na verdade, sofrem de epilepsia”, diz o professor, especialista no assunto, que está em Vitória para um curso em uma faculdade particular da Capital.

Se não for descoberta logo, a epilepsia pode evoluir com o tempo e ter sintomas mais sérios. “Uma crise convulsiva pode acontecer no momento em que a pessoa está dirigindo, causando um acidente grave”, diz Nadasdy.

Segundo o cientista, qualquer pessoa normal pode ter uma crise epiléptica em um momento qualquer da vida. “Pessoas podem desenvolver epilepsia a partir de um problema como um acidente vascular cerebral ou um acidente físico mesmo, com trauma. Há pessoas com predisposição genética e existem ainda outros fatores não muito bem conhecidos, como os que ocorrem com crianças que nunca tiveram nada e passam por uma crise depois de alguns anos”, afirma ele.

ESTÍMULOS

A epilepsia pode ser desencadeada ainda por alguns estímulos externos, como luzes intensas, por exemplo. “Certas frequências de luzes, como as de boates, podem gerar essas crises. Mas muita gente nunca teve epilepsia ao longo da vida por não se expor muito a esses estímulos. Ela pode ter sinais leves e não procurar um médico para fazer o diagnóstico”, pontua o médico.

CAPACETE SEM FIOS AJUDA A DETECTAR DISTÚRBIO

O cientista Zoltan Nadasdy integra uma equipe, na Universidade do Texas, que desenvolveu um capacete que funciona como um aparelho de eletroencefalograma (EEG) portátil. O equipamento se diferencia dos convencionais por ser pequeno, sem fios e funcionar via wireless.

A novidade já recebeu aval da Food and Drug Administration (FDA), a agência norte-americana que equivale à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Brasil, e começa a ser vendido a hospitais e clínicas de todo o mundo a partir de janeiro de 2019.

“O objetivo principal do Projeto Zeto é criar um EEG portátil, que permite que o paciente se mova com facilidade. A máquina torna o exame mais acessível à população que não tem como se deslocar grandes distâncias para se submeter ao procedimento em grandes hospitais. Pode beneficiar a população rural, por exemplo”, explica o pesquisador.

Há projetos parecidos, mas, de acordo com o cientista, este é o único EEG aprovado pela FDA no mundo que utiliza eletrodos secos, sem uso de gel, e que funciona com recolhimento de dados em nuvem.

Por ser conectado a um servidor, um médico no Brasil pode ver o exame sendo feito em tempo real em um paciente em outro país, por exemplo. “Todos os sinais cerebrais são enviados a esse servidor, o que permite que um outro médico, em outro lugar, por meio de um telefone celular, analise esses dados e emita um diagnóstico, como o da epilepsia”, afirma o pesquisador.

O aparelho teria um custo muito mais acessível também, segundo ele. “Em janeiro, começaremos a produzir em grande escala. O equipamento não será vendido. A ideia que é os hospitais o adquiram por meio de uma assinatura, e que o pagamento seja pelas horas de uso do sistema”, explica Zoltan Nadasdy.

SAIBA MAIS

O que é

A epilepsia ocorre quando há uma perturbação das atividades das células nervosas no cérebro. Pode ter causa genética ou ocorrer a partir de uma lesão cerebral adquirida, como traumatismo na cabeça.

Incidência

Ela atinge mais de 50 milhões de pessoas no mundo, e cerca de 3 milhões de brasileiros, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Sinais

Pequenos “desligamentos”, crises de ausência;

Desmaio ou fadiga;

Espasmos musculares;

Convulsões, paralisia temporária.

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