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Realidade virtual vira arma contra as fobias

Tecnologia é testada para tratar medo de altura, por exemplo

O professor Elizeu Borloti testa o simulador de realidade virtual em uma aluna
O professor Elizeu Borloti testa o simulador de realidade virtual em uma aluna
Foto: Ricardo Medeiros

O coração dispara, a boca fica seca, o rosto começa a formigar. É assim que a Ana Maria Guisolfi, 38 anos, se sente quando precisa falar em público. Discursar para uma plateia, aliás, é algo que ela não faz de jeito nenhum. “Eu travo. Tenho bloqueio. Sempre foi assim e não sei explicar o porquê”, admite a analista de Recursos Humanos.

Talvez Ana seja uma forte candidata a participar de um estudo que será feito por pesquisadores do curso de Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), da Faesa e da Universidade Estadual de Londrina. Eles vão testar o uso de realidade virtual no tratamento de fobias.

Para isso, precisam de voluntários, ou seja, pessoas que sofrem de fobia, um tipo de transtorno de ansiedade que consiste num medo exagerado de alguma situação, um animal ou objeto.

No caso desse estudo, além do medo de falar em público, que afeta a Ana, serão tratadas a fobia a lugares fechados e à altura.

Os pesquisadores utilizarão o simulador Virtua Therapy e irão comparar o uso dessa ferramenta tecnológica com a terapia por exposição direta e gradual à situação temida, como explica o professor de Psicologia Elizeu Borloti.

Simulador

“O simulador faz uso de um óculos que permite fazer a pessoa lidar com essas questões de forma segura. Faremos o monitoramento dela verbalmente e com um sensor para poder confirmar o grau de ansiedade que ela vai atingindo. Ela vai sendo exposta aos poucos, de forma gradual às situações. Claro que temos que gerar certo nível de desconforto, o suficiente para produzir mudança, pois só assim a terapia avança. Mas tudo é feito com segurança”, detalha Borloti.

Muitas fobias surgem após um episódio traumático. Mas nem sempre é assim. “Muitas vezes, não há só uma causa, é multicausal. São muitas variáveis ao longo da vida que podem ter contribuído para essa fobia”, observa Luciana Messa, psicóloga clínica e uma das integrantes da pesquisa.

Diferença

Ela ressalta também que nem todo medo se configura uma fobia. “A diferença em relação aos medos comuns é que na fobia há um prejuízo na relações sociais. A pessoa tem dificuldade para fazer as coisas do dia , sente-se mal diante de uma situação e não dá conta de executar alguma atividade que é importante por causa desse medo.”

“É um medo intenso, incapacitante e irracional. Gera muito sofrimento e outros sintomas, como falta de ar, por exemplo. A pessoa geralmente exagera o risco da situação”, complementa Borloti.

A realidade virtual expõe o indivíduo ao problema mais temido, algo difícil de fazer numa terapia convencional. “No caso da fobia de falar em público, a pessoa vai ser treinada para falar sobre determinado tema. Aí, aparece uma imagem na qual ela se vê num palco, diante de uma plateia. Podemos fazer essa plateia de acordo com o medo particular, como falar para pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto, por exemplo. Se for o medo do desprezo do público, mostramos alguns integrantes da plateia deixando o local”, detalha o professor.

A ideia do tratamento, diz, é fazer com que a pessoa consiga lidar com o medo. “Vamos ensinando-a a ter um autocontrole da própria ansiedade e um melhor domínio do desempenho”.

Em pesquisas semelhantes com realidade virtual, os resultados foram satisfatórios, segundo Borloti. “É um recurso tão eficaz quanto as terapias ao vivo, só que é mais barato e seguro. Nele, você trabalha o medo de altura sem precisar pagar uma passagem de avião.”

Na maioria das vezes, de acordo com Luciana Messa, as fobias são tratadas com terapia psicológica. “Em alguns casos, porém, pode haver necessidade de acompanhamento de um psiquiatra, que vai ministrar um medicamento para controle da ansiedade”.

Tecnologia pode ajudar viciados em drogas

Não é de hoje que a realidade virtual deixou de ser coisa de filme de ficção científica e passou a ter grande utilidade para a medicina. Fora do Brasil, pesquisadores já viram benefícios dessa tecnologia para combater o vício em substâncias pesadas, como a heroína. O objetivo é fazer com que o usuário supere a dependência em relação a esse tipo de droga.

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Seguindo essa linha, a Ufes pretende descobrir se é possível ter os mesmos efeitos benéficos em usuários de crack. “Vamos desenvolver futuramente. Não temos estudos no Brasil usando realidade virtual para tratar usuários de crack. Só há resultados com viciados em heroína, em outros países”, afirma o professor de Psicologia da Ufes e pesquisador Elizeu Borloti.

Nesses estudos, segundo o professor, os pacientes são submetidos, por meio de uma tecnologia de realidade virtual, a cenas que podem servir de “gatilhos” para recaídas.

“O paciente é colocado diante de cenas que simulam locais ou situações que despertam a vontade de usar a droga. Por exemplo, a imagem de um bar parecido com o local onde a pessoa comprava a droga. A ideia é recriar cenas para fazer com que a pessoa fique menos sensível aos sintomas de fissura. Com o tempo de tratamento, os sintomas vão ficando menores, até que ela não tenha fissura nenhuma”, explicou Borloti.

Fabrícia Morais, 41 anos, tem medo de altura
Fabrícia Morais, 41 anos, tem medo de altura
Foto: Marcelo Prest

O medo de altura faz com que a universitária Fabrícia Morais, 41 anos, deixe de fazer muita coisa. Andar de avião é um sufoco. Elevador panorâmico, nem pensar! Ela, portanto, é uma potencial participante da pesquisa. “Desde criança tenho medo de altura. Não subia em balanços, nem em roda-gigante. Já dei passagens aéreas para outras pessoas com medo de andar de avião. Até consigo hoje em dia, mas só me sento no corredor e tento pensar em outras coisas. Me dá taquicardia até”.

A PESQUISA

Projeto

O projeto de pesquisa pretende avaliar um programa de intervenção psicoterapêutica para pessoas com medo e fobia de falar em público, de lugares fechados e de altura.

A tecnologia

Será utilizada uma tecnologia de realidade virtual. O simulador Virtua Therapy permite que o paciente vivencie a situação temida por meio de imagens ou vídeos.

Voluntários

A pesquisa será feita com pessoas com idade acima de 18 anos que não estejam fazendo outro tratamento psicológico ou medicamentoso para as fobias que serão tratadas.

Pesquisadores

São da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), da Faesa e da Universidade Estadual de Londrina.

Como se inscrever

Mais informações pelo telefone (27) 99847-2854, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h.

MEDO DE QUÊ?

O que são?

Fobias são um tipo de transtorno de ansiedade e caracterizadas por um medo exagerado de alguma situação, animal ou objeto.

Alguns tipos

- O medo de lugares fechados é também conhecido como claustrofobia. É quando a pessoa não suporta ficar em ambientes como elevadores, saladas fechadas sem saída fácil, corredores estreitos, entre outros.

- O medo de altura pode ser chamado de acrofobia, que é quando a pessoa sente-se mal ao ficar em locais altos, especialmente quando não há proteção.

- Já no medo de falar em público (ou glossofobia), o indivíduo tem uma ansiedade apenas diante da ideia de ter que se comunicar com qualquer grupo.

Fobias curiosas

Aracnofobia: medo de aranha

Alectorofobia: medo exagerado de galinhas

Hemofobia: quando a visão de sangue pode fazer a pessoa até desmaiar

Gefirofobia: horror a pontes

Coulrofobia: medo de palhaços

Heliofobia: medo irracional do sol

Dendrofobia:medo de florestas e árvores

Onfalofobia: medo de umbigos

Nictofobia: medo do escuro

Diferença

Não é qualquer medo que se configura uma fobia. Para ser fobia, uma diferença é que a pessoa passa a ter um medo irracional de algo, a ponto de ter sua liberdade e sua vida social prejudicadas. Ela se sente mal diante de certas situações, a ponto de ter um grande sofrimento, com sintomas como náusea, falta de ar, por exemplo. Fica impossível lidar com a situação.

Causas

Uma fobia pode surgir após um episódio traumático, de grande estresse. Por exemplo, uma pessoa pode desenvolver fobia social após sofrer um assalto. Ela passa a ter medo de locais com muitas pessoas ou medo de andar na rua. Mas as fobias podem ter múltiplas causas também.

Diagnóstico

O diagnóstico de uma fobia deve ser feito por um médico. Mas ao ir a um psicólogo a pessoa tem grande chance de sair de lá sabendo que tem fobia.

Tratamento

O tratamento consiste em terapia com psicólogo e, em alguns casos, há necessidade de acompanhamento psiquiátrico, com uso de medicamentos para controlar a ansiedade e facilitar a terapia.

 

 

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