Entrevista

"Se eu tive conquistas, tenho o dever de devolver isso à sociedade"

Programa criado por engenheiro auxilia jovens talentos de baixa renda ao fazer uma ponte para conectá-los a grandes empresas dispostas a aderir à diversidade e adotar cultura mais inclusiva

Divulgação

Uma boa ideia e a vontade de fazer a diferença. Foi com essa combinação que o engenheiro Leizer Vaz Pereira, de 44 anos, criou o Projeto Empodera. Nascido na baixada do Rio de Janeiro, ele teve oportunidades e apoio para crescer na carreira profissional. Ao conseguir, decidiu devolver à sociedade a ajuda que recebeu criando o programa, que auxilia jovens talentos de baixa renda – entre outras minorias –, fazendo uma ponte para conectá-los a grandes empresas dispostas a aderir à diversidade.

Como foi sua história até chegar ao cargo de fundador e diretor executivo do Empodera?

Fui aquele jovem negro da periferia, nasci no Rio de Janeiro, em Caxias. E com poucos privilégios eu consegui quebrar o ciclo de pobreza da minha família. Nasci numa família estruturada, tinha pai e mãe, com valores morais muito fortes, com integridade. E eu sempre gostei muito de estudar. Isso me fez autodidata e consegui superar as dificuldades da escola pública, com uma rede de apoio e bolsas de cursos. Aos 15 anos comecei a trabalhar e depois ingressei na universidade pública. Minha história foi como a de muitos jovens, a diferença é que minha família nunca me limitou. Eu tinha sonhos grandes, com muita determinação e vontade de vencer.

Como foi sair da universidade e ir para o mercado de trabalho?

Eu me formei em Engenharia e passei 20 anos no mercado de tecnologia. Parte da minha carreira foi em engenharia de informações e outra na área comercial. Nos últimos oito anos eu trabalhei como gerente executivo de contas na Cisco Systems, que é companhia transnacional americana. E com os americanos eu aprendi a cultura do give back (devolva), que é pensar: se eu tive conquistas e realizações, eu tenho o dever de devolver isso à sociedade de alguma forma. Seja na doação do meu tempo, do meu conhecimento, apoio financeiro, engajando-se de alguma forma comunitariamente. Vi aquilo com brilho nos olhos.

Como foi colocar a ideia em prática?

Eu viajava muito aos Estados Unidos e quando voltava ao Brasil, via que aqui tinha muito potencial para isso. Mas a gente ainda se limita à doação de roupa velha, aquilo que não lhe serve, a lata de óleo, o cobertor... Que faz, sim, diferença para quem está recebendo, mas fica muito no assistencialismo e não no transformacional. Vivendo em uma sociedade tão desigual, em 2014 resolvi que queria fazer algo para tentar combater essa desigualdade. Procurei uma ONG que cuidasse de acesso a educação e encontrei a Educafro, que cuida do acesso aos jovens, principalmente negros, ao ensino superior. Aquilo me deu muito alegria. Entrei para ser professor de matemática em um dos cursinhos e me animava ver aqueles jovens conseguindo passar no vestibular.

Em pouco tempo na ONG eu fui convidado a acumular a função de coordenador voluntário no Rio, a matriz fica em São Paulo. Passei a dormir noites mais tranquilas porque sabia que eu estava colocando a mão na massa para fazer a diferença. Um ano depois a Coca Cola e White Martins nos convidaram para uma conversa sobre um programa de inclusão racial que eles queriam desenvolver com programas de trainee e estágio para inclusão de negros. Foi um divisor de águas. Porque após 15 ou 20 anos de políticas afirmativas, o acesso à universidade ficou um pouco mais democrático. O desafio agora não era mais a entrada na universidade, mas a saída. Para onde esses jovens estão indo? Está havendo inserção? A chance de um espaço de empoderamento não pode ser só social, mas econômico também.

Nesse momento criou o Empodera ?

Em 2016 me dediquei ao Empodera. Caiu a ficha de que a universidade cuida do técnico e pouco auxilia os jovens na preparação para o mercado de trabalho. Esses jovens de baixa renda que não dominam esses códigos e linguagens, que são os primeiros da família a ter oportunidade, sofrem porque não conseguem sobrepor a um processo seletivo com regras altas. Então nós procuramos entender mais a dificuldade desses jovens na preparação deles. Eu entrei em 2016 com a missão de ajudar as empresas numa cultura mais inclusiva, instrumentá-las em soluções que possam acelerar o desenvolvimento desses programas, ajudando na conexão com esses jovens talentos diversos e não só o jovem branco, de classe média que sempre estudou em escola particular. Para dar representatividade à empresa.

Como funciona o programa?

O Empodera funciona como uma ponte para conectar os jovens talentos diversos às empresas. Hoje somos 26 mil usuários no Brasil. A pessoa se cadastra na plataforma buscando desenvolvimento, educação na carreira, preparação de processo seletivo e acesso às vagas. Ela insere os dados, faz um perfil, inclui o currículo e fica no banco de talentos dedicados a empresas que querem fazer inclusão. Há um filtro por raça, cor, gênero, orientação sexual, deficiência, e estamos incluindo outras minorias como refugiados e transexuais.

Percebemos na diversidade de gênero que as mulheres entram meio a meio no mercado de trabalho em grande parte, mas a sucessão, o encarreiramento, os papéis sociais, a maternidade e os preconceitos impedem a mulher de chegar no acesso à gerência. Os LGBTs também são pessoas que já estão na empresa, mas pelo ambiente hostil eles não podem falar isso porque não querem comprometer a carreira ou sofrer algum tipo de violência no espaço de trabalho. Agora pessoas negras, de baixa renda, trans e deficientes, sofrem com uma barreira de entrada no processo seletivo que impede que elas cheguem, não só pelo viés inconsciente, mas pelos filtros que são feitos, como as exigências de inglês fluente, universidade federal, domínio de excel... Isso tudo é muito ruim.

Por isso a plataforma é importante?

Sim. Temos programas de mentoria online de carreira de jovens de comunidade e promovemos visitas à empresas. Fazemos grandes conferências no Rio e em São Paulo reunindo mais de 350 jovens para conexão direta a essas grandes empresas que querem participar da feira de recrutamento e capturar talentos para entender melhor como trazer essa inteligência de diversidade para poder acelerar esses programas.

Mesmo sabendo de pesquisas que mostram que negros são minoria nas universidades e nos altos cargos, há quem diga que o sistema de cotas é injusto. Qual sua opinião?

O Brasil entende pouco de políticas afirmativas. Estamos fechados em um conceito de meritocracia. A gente entende de talento e esforço, mas nunca fala de oportunidades iguais. O Brasil é 10° país mais desigual do mundo e agente naturalizou isso. Se existe um ambiente muito desigual, a gente tem que lançar mão de ações afirmativas para acelerar o processo. Porque se deixar naturalmente vai demorar. Nós conseguimos dobrar o número de mulheres em cargos de alta gerência no país, mas se deixar correr solto vai demorar 80 anos para ter igualdade de gênero. Na questão de raça, agora há 5% de negros na alta liderança. Se deixar rolar solto, vai demorar 130 anos. Como diria Betinho, quem tem fome tem pressa.

E o argumento de que somos iguais?

Somos iguais, mas não temos oportunidades iguais. Por isso temos que sensibilizar as pessoas de que precisamos, sim, acelerar o processo. Quem acha que não precisa é porque não tem a pedra no sapato. Há 15 anos de políticas afirmativas e depois não foi aberto novamente uma nova discussão na sociedade. Foi bom? Aconteceu aquilo tudo de ruim que estavam prevendo? A gente que estuda e pesquisa o assunto sabe que foi uma puta política pública. Claro que precisa ser melhorada, mas nos últimos dez anos nós colocamos mais de cinco milhões de pessoas de baixa renda dentro das universidades, sendo metade negros. Então colocamos muito mais negros e pobres em universidade nos últimos 10 anos do que nos últimos 100. Foi bom para a sociedade? O público brasileiro está melhor representado nas universidades? Hoje metade das vagas são destinadas para escolas públicas, pessoas de baixa renda e negros?

Essa negação é preconceituosa?

O Brasil é muito machista, homofóbico e racista. Mas ninguém reconhece isso. Temos que quebrar esses estereótipos que fazem a sociedade enxergar o negro como inferior porque eles só ocupam lugares de serviçais. Do homem achar que a mulher é fraca e que ela não pode trabalhar na alta liderança. De onde saiu isso? Está construído no imaginário e vai refletir no mercado de trabalho. Por isso estamos tentando ajudar, sensibilizando pessoas do bem, inteligentes e que possuem o mínimo de empatia para avançar o respeito no ambiente de trabalho, sem preconceitos e discriminação. Acabou, basta.

Alguns argumentam que cotistas serão maus profissionais.

Para esses argumentos, temos números. A diferença nas notas do Enem entre cotistas e não cotistas é de menos de 5%. O vestibular continua sendo difícil. O que aconteceu é que muita gente que podia entrar na universidade ficava de fora porque tinha a reserva de cursos de elite apenas para elite. Cursos como Administração, Engenharia, Medicina, Marketing... As cotas democratizaram o acesso para quem vem de baixo.

A política de cotas não foi só para colocar o pobre e o negro na universidade, mas para dar a oportunidade para eles estarem em todos os cursos. Quantos nesses negros e de baixa renda conseguiam cursar Medicina? Era muito pouco. Esse número dobrou, melhorou. Mas ainda é pouco em relação ao que deveria ser. Mas ninguém se importava com isso. Ninguém achava anormal o fato de não ver um jovem negro cursando Medicina ou Direito. A gente naturalizou tanto isso que não consegue enxergar o problema. Agora estamos em um momento interessante onde as pessoas estão tendo voz. Isso causa confusão porque há quem não aceite e queira controlar isso. Mas é um caminho sem volta. As minorias então empoderando-se e temos que construir espaço para que todos possam entrar.

É difícil reconhecer privilégios?

Muito. Mas as pessoas precisam entender que vivemos em um país desigual e que ninguém consegue nada sem apoio. Hoje meu filho tem toda uma estrutura. Ele não precisa de cota porque está tendo acesso a tudo. Mas os filhos de milhares de outras famílias de baixa renda e negros precisam para acelerar esse processo. É normal o conflito porque força as pessoas reconhecerem seus privilégios. A luta das cotas era dos negros. Os brancos pobres conseguiram se beneficiar disso e tá ok, temos que lutar por todos. As pessoas não questionam que negros e mulheres são minorias nos grandes cargos. Ninguém fala nada, mas dar oportunidade às minorias é preconceito com as maiorias?

O Brasil é conservador, é uma jornada que vai demorar. Mas é necessário. Queremos que as empresas façam isso não só porque é positivo para o negócio ter diversidade de pensamentos e culturas, porque ideias inspiram inovação, mas queremos que façam isso porque é o certo e o justo. Porém, mudança de cultura é um processo lento. Por isso estamos ajudando essas empresas.

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