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Intolerância: um nome para riscar de 2019

Respeitar o outro é essencial para viver bem em família e sociedade

As irmãs Elizabeth e Eliana se desentenderam na época das eleições, mas logo compreenderam que era preciso buscar a conciliação
As irmãs Elizabeth e Eliana se desentenderam na época das eleições, mas logo compreenderam que era preciso buscar a conciliação
Foto: Marcelo Prest

O ano que passou não vai deixar saudade para muita gente. E mesmo quem teve um bom ano, pessoalmente falando, pôde presenciar fatos desagradáveis ao longo de 2018. Faltou respeito, amor, compreensão, empatia. E sobrou a intolerância.

Aproveitando que um novo ano começa, ouvimos pessoas que sentiram na pele a marca da intolerância para saber como esperam que seja daqui para frente. E fomos atrás de especialistas para tentar entender por que isso acontece e mais: será que dá para riscar essa palavra do ano de 2019?

Para a psicóloga Fernanda Freitas, é preciso, antes de tudo, pensar na definição da palavra tolerância. “Tolerar é dar suporte, respeitar, de alguma maneira admitir a existência de algo ou alguém. Mas não é só respeito. Tem a ver com acreditar e encarar que não sabemos tudo sobre a vida das pessoas e não somos melhores que elas, assim como não somos piores. E não tolerar o outro é ter um pensamento capaz de julgá-lo. E as pessoas não toleram aquilo que consideram diferente delas ou inferior a elas”, explica.

Por causa da intolerância, muita gente não aceitou opiniões e crenças diferentes, rejeitou pessoas com base no gênero, na cor da pele ou na preferência política delas. Difícil imaginar que isso não vá ocorrer novamente só por uma mudança no calendário. “Não existe fórmula mágica, não é ‘virou o ano, todo mundo vai ter paz’. É todo um processo de entender que a gente tem que construir a paz da gente. E isso dá trabalho”, comenta a psicóloga Cássia Rodrigues.

Na política, as eleições mais polarizadas da história do país contribuíram para que a intolerância ganhasse corpo, disseminando ódio e destruindo relações. Por pouco não foi o que aconteceu na família da secretária Elizabeth Luppi, 55 anos. “Tive problema com duas irmãs por causa da política, porque eu defendia um candidato diferente do delas. Teve arranca-rabo no grupo no WhatsApp”, contou ela.

Recado

Felizmente, elas souberam achar o caminho da conciliação. “A gente começou a discutir, mas quando foi para o lado pessoal passei um recadinho no privado, dizendo que debater tudo bem, mas sem ofender. Ela entendeu e ficou tudo bem”, relatou uma das irmãs de Elizabeth, a professora Eliana Almeida, 57 anos.

Para a psicóloga Fernanda, as irmãs agiram certo ao buscar o entendimento. “Há casos em que a relação é mais importante do que a concordância ou a discordância sobre política. Agora, algumas amizades podem não ser retomadas. Não por causa da briga política, mas porque alguma coisa serviu como alerta de que os valores e pensamentos não estavam em sintonia.”

Cássia também viu de perto como as diferenças políticas abalaram as famílias. “Muitos pais levaram para a terapia filhos que não votavam em quem eles estavam votando. Não estavam sabendo lidar e aceitar que eles pensassem de forma tão diferente”, cita a psicóloga.

Foi preciso, segundo Cássia, fazê-los amadurecer a ideia de que as pessoas podem sim pensar diferente, pois foi isso que fez o mundo chegar onde chegou. “Fiz um papel de educadora familiar. Muitos pais não conheciam como os filhos pensavam de fato. Esqueceram que um dia tiveram 23 anos também. É importante ouvir o que o outro tem a dizer e se colocar no lugar dele.”

A intolerância não ficou restrita à mesa da sala de casa. Foi no WhatsApp e nas redes sociais que ela encontrou um terreno fértil para se proliferar.

“Mas 15 anos atrás, pessoas comuns não encontravam muita possibilidade de fazer sua voz ser escutada fora dos ambientes normais. Com o celular, elas conseguiram alcançar o outro lado do Atlântico com suas opiniões. E não estão acostumadas a compreender o efeito que suas falas têm. Uma briga de vizinhos, que antes ficava na vizinhança, hoje vai para a internet e toma dimensão muito maior”, comenta Fernanda.

Por isso, ali é preciso ter um cuidado a mais: “O que é escrito não tem entonação, pode ser interpretado de maneira agressiva. As redes sociais são um espaço coletivo”, destaca.

Vaias ofuscam brilho do Natal em cidade

Billy Fabriny presenciou a intolerância das pessoas que formavam o público na abertura do Natal em Domingos Martins
Billy Fabriny presenciou a intolerância das pessoas que formavam o público na abertura do Natal em Domingos Martins
Foto: Lorena Müller/Prefeitura de Domingos Martins

Era um acontecimento festivo, um espetáculo que marcava a inauguração da decoração natalina na principal praça da cidade de Domingos Martins, na região Serrana do Estado. Estava tudo decorado com muita luz, árvores, enfeites variados. Mas todo esse brilho foi ofuscado pela intolerância.

O fato ocorreu na noite do dia 24 de novembro. Estava tudo preparado para começar, com direito a encenações e coral de crianças. Até que um atraso de 14 minutos serviu de munição para os ataques do público, que começou a vaiar sem parar.

Nem todos reagiram da mesma forma. Teve gente que presenciou aquilo e se entristeceu ao ver que nem mesmo uma época especial como o Natal conseguiu amolecer o coração dos mais intolerantes.

“Eu estava lá com minha família e com amigos. Ver aquela cena me incomodou bastante. Era um evento de grande porte, com seres humanos interagindo com máquinas. E houve essa intolerância em relação ao tempo, por causa de um atraso de 14 minutos”, relatou Billy Fabriny, 40 anos, morador local, contador e fotógrafo.

Respeito

Para Billy, faltou, acima de tudo, respeito. “Muita gente estava atuando como voluntária no evento. Tinha uma senhora que era a Mamãe Noel, e ela estava pendurada no céu numa encenação. Ela estava com medo, não é uma pessoa de circo, não tem técnica nem destreza para aquilo. Ela só quis ajudar, e o pessoal vaiando”, contou.

Na hora da apresentação do coral das crianças, outra demonstração de falta de educação. “O coral era improvisado. Cadê o espírito de Natal?”, questiona o morador, que ouviu vaias ainda para o momento de oração. “Uma pessoa comentou do meu lado: ‘Ah! É evento ou culto?’”.

Desapontado, Billy voltou para casa mais cedo, antes do fim da programação. “Saí antes de terminar. Não quis ficar. Ficar ouvindo aquilo machuca”, comentou ele, que sempre teve uma ligação bem próxima com a festa da cidade.

“Em todos os anos estive presente no Natal da cidade. Meu pai, por muitos anos, foi o Papai Noel da Vila. Sempre brinquei que realmente sou filho do Papai Noel. Hoje, meu pai está com Alzheimer, mas ele ainda lembra que era Papai Noel. Tem todo esse lado afetivo para mim. Por isso, me doeu muito ver pessoas vaiando um evento tão bonito, feito com tanto amor. Para mim, isso que ocorreu tirou um pouco o brilho da festa.”

Foi a primeira vez que ele viu algo assim acontecer nesta época. “No Natal passado, a festa tinha uma projeção de imagens no hotel e também teve um atraso, mas ninguém vaiou.”

Felizmente, Billy não foi o único a condenar esse tipo de comportamento. “No dia seguinte, ouvi muita gente comentando que percebeu e que achou feio o que houve”, diz ele.

Porteiro sobre racismo: “Só queria respeito”

Cristiano Oliveira, de 42 anos, ouviu ofensas racistas da moradora do prédio onde trabalhava como porteiro
Cristiano Oliveira, de 42 anos, ouviu ofensas racistas da moradora do prédio onde trabalhava como porteiro
Foto: Fernando Madeira

Quem é vítima da intolerância jamais esquece. Quase um ano depois de vivenciar uma das piores experiências de sua vida, o porteiro Cristiano Oliveira, 43 anos, ainda guarda muita mágoa.

Ele trabalhava em um prédio no Centro de Vitória, mas pediu demissão por causa da discriminação que sofria por parte de uma moradora. Chegou a ir à polícia denunciar a mulher, incentivado por outros condôminos.

Na época, ele disse que se sentiu “um lixo”. “Ainda me sinto assim. Sou uma pessoa boa, sou cristão. Eu posso perdoar, porque sei que guardar rancor não faz bem. Mas quero meus direitos”, comenta Cristiano, que está desempregado desde que deixou o emprego naquele prédio.

Os prejuízos, segundo ele, foram além da discriminação. “Tenho batido em muitas portas atrás de emprego, mas as pessoas me reconhecem e não me aceitam.”

Queixa

Cristiano não esquece o sofrimento que passou no emprego. “Aquela moradora não me suportava, não gostava da minha cor e me criticava o tempo todo. Um dia ela me humilhou na recepção, na frente de outras pessoas. Uma outra moradora que viu tudo depois veio me abraçar, pedir perdão. Chorei na frente dos outros, não aguentei. A síndica viu que eu estava chateado, passando mal até, e me botou no carro e me levou à delegacia, onde fiz a queixa. Depois, pedi para a empresa me tirar de lá, daquele prédio”, relata.

Ele diz que tomou a decisão para dar exemplo aos quatro filhos, todos negros como ele. “Custei a tomar a decisão de denunciar. Tinha vergonha. Mas quis dar exemplo à minha família. Se eu não levanto a cabeça, meus filhos também não vão levantar a deles.”

Segundo o ex-porteiro, a moradora foi indiciada por injúria. Até agora, aconteceu só uma audiência sobre o caso.

DICAS

Respeite as diferenças

Entenda que as pessoas são e pensam de forma diferente e que não há problema nisso. Se não aceita, não precisa conviver, manter uma relação. Mas desprezar e ofender por causa disso é intolerância.

Pense antes

Evite responder por impulso, na raiva. Mesmo que seja ofendido, pare e pense em como pode escrever. Na Internet, tudo ganha dimensão maior e nada fica impune mais.

Mais empatia

Faça o exercício de se colocar do lugar do outro. Isso trará mais compreensão.

Busque o bem

Busque grupos e locais que pensem no bem coletivo, que compartilhem do ideal de harmonia. Doe seu tempo para isso e se aproxime de pessoas realmente necessitadas.

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