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Morte súbita: dá para evitar?

Ela ocorre sem aviso prévio. Mas quase sempre há sintomas

Modelo Tales Cotta
Modelo Tales Cotta
Foto: Reprodução/Instagram

A morte do modelo Tales Cotta, no último sábado (27), em um desfile, em São Paulo, é aquele tipo de notícia que choca. Primeiro por ser muito precoce: o rapaz tinha apenas 26 anos. Segundo porque o mal súbito que ele sofreu foi irreversível, sem chance alguma de reversão.

Episódios assim levam a pensar que tipo de ataque pode acontecer em pessoas jovens, aparentemente saudáveis e sem aviso prévio, levando à morte fulminante, em poucos minutos, talvez segundos. Será que é possível prever, de alguma forma, um problema grave desse tipo e mais: dá para evitá-lo?

De acordo com o médico Dalton Précoma, diretor científico da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), a maioria das causas do mal súbito são evitáveis sim e dão sinais, infelizmente ignorados pelas vítimas. Tudo indica, porém, que o caso de Tales tenha sido diferente.

“Mortes súbitas em pessoas com menos de 35 anos são mais ocasionadas por uma doença congênita no coração. A questão é que essa doença pode ser totalmente assintomática até a hora da morte”, explica o cardiologista.

Uma das principais causas do mal súbito é a arritmia, um distúrbio que altera o ritmo do coração, uma desordem na condução elétrica. “É a chamada arritmia maligna, que pode tanto acelerar os batimentos cardíacos quanto deixá-los lentos. O coração fica descoordenado e não bombeia sangue direito, deixando o cérebro sem oxigênio e levando à morte rapidamente”, diz Précoma.

Aparelho

Um desfibrilador poderia atuar reativando o funcionamento do coração. Segundo o médico, às vezes, uma massagem cardíaca feita logo em seguida pode recuperar a pessoa da morte súbita. “E aí, uma vez recuperada, ela poderia receber um aparelho moderno, o cardioversor desfibrilador implantável, que, em caso de outra arritmia grave, dá um choque no coração para reverter aquilo que pode se transformar num mal súbito, como um infarto”.

O ideal mesmo seria conhecer esse risco antes de qualquer ataque. “O alerta vai para quem tem outras histórias de morte súbita na família”, ressalta ele.

A morte súbita, diz o médico, pode ser uma manifestação de vários outros quadros. “O infarto do miocárdio responde por em torno de 70% dos casos. Mas a morte súbita pode ser resultado de um acidente vascular cerebral, uma embolia pulmonar, um aneurisma da aorta”.

Doenças cardiovasculares matam 300 mil pessoas por ano no Brasil e 41 milhões de pessoas por ano no mundo. Aquelas com idades entre 50 e 70 anos são as mais suscetíveis a esse tipo de ocorrência. Mas sobretudo as que têm algum fator de risco.

“São basicamente sete os maiores fatores de risco: colesterol alto, pressão alta, diabetes, obesidade, estresse, sedentarismo e tabagismo. E quanto mais fatores a pessoa tiver, maior o risco de sofrer um mal súbito, que pode ser fatal”, cita Précoma.

Problemas que podem ficar silenciosos por anos. “Há pessoas que não sentem nada. Mas têm um ou outro fator de risco, como o diabetes. Ter diabetes equivale a um risco de uma pessoa que já infartou. Tem que fazer os exames de rotina e tratar a doença. Um teste de esforço pode detectar um entupimento que não é grave ainda. Mas vale destacar que a coronária não precisa estar muito obstruída para causar o problema. Pequenas placas podem romper. 70% dos infartos são por ruptura da placa de gordura”, aponta.

AVISOS

 

 

É preciso levar a sério certos avisos de que algo não vai bem com a saúde, segundo Précoma: “Se sentir uma dor no peito, uma pressão, enquanto caminha, tem que procurar logo um médico. É um aviso. Se não valorizar isso, não der importância, um dia pode levar a um infarto. Quando há dor é porque o coração já está entupido da metade em diante. Por isso, na primeira vez de um sintoma como esse, o melhor é já procurar ajuda”.

Falta de ar durante um exercício, palpitação, uma dor que se irradia pelo braço, ombro ou para a mandíbula, uma sensação de forte azia são outros sinais que merecem a devida atenção. “Em alguns casos, a primeira manifestação da doença já se dá com morte súbita. O infarto é a primeira manifestação da doença coronariana, com 80% de risco de ser fulminante”, destaca o cardiologista Diogo Barreto, coordenador do serviço de cardiologia do Hospital Evangélico, em Vila Velha, e professor universitário.

Por isso, melhor não esperar por sintomas. “É importante lembrar que pessoas sedentárias devem procurar um especialista e fazer uma avaliação cardiológica antes de começar qualquer atividade física”, afirma Barreto.

Exames de rotina, como hemogramas e testes de esforço na esteira, continuam sendo fundamentais e podem detectar um entupimento importante. “Pode ser indicado fazer um escore de cálcio coronariano, que é uma tomografia capaz de identificar se há uma calcificação nas artérias, o que é sinal de depósito de gordura antiga acumulada. E tem o cateterismo, se exames intermediários estiverem alterados”, observa Dalton Précoma.

Pessoas magras e de aparência saudável podem esconder um problema sério, genético ou adquirido por maus hábitos de vida. “Se a pessoa tem alguém da família, de primeiro grau, que teve infarto abaixo de 55 anos para homem e abaixo de 65 para mulher, ela tem um risco maior de sofrer a mesma coisa”, diz o cardiologista.

DOR NAS COSTAS AVISOU QUE HAVIA ALGO DE ERRADO

Dimas com o neto Pedro Augusto: alívio após susto
Dimas com o neto Pedro Augusto: alívio após susto
Foto: Acervo pessoal

Dimas tem 56 anos, é magro, não fuma, não bebe, não come muita gordura e nunca fica parado. Ninguém diria que ele era um candidato a sofrer um infarto. Foi o que quase aconteceu. Quase.

Uma dor esquisita nas costas foi o sinal. “Começou uns 10 meses atrás. Doía quando eu fazia uma caminhada mais longa ou subia um morro”, lembra Dimas Augusto Salles Baptista, que mora em Vargem Alta, no Sul do Estado.

Ainda jovem, ele está longe de se aposentar. Trabalha como fiscal de obras no município vizinho, Cachoeiro de Itapemirim, além de ajudar a administrar uma loja de roupas e acompanhar reformas de casas. Ou seja, atividade não falta. “Sempre pratiquei esporte. Só parei de jogar bola com 49 anos por causa do joelho”.

Mas Dimas nem imaginava que aquela dor tinha a ver com o coração. “Primeiro, achei que era estômago. Fiz endoscopia, tomei antibióticos. Depois, fui a um ortopedista, tirei um raio-x da coluna e não tinha nada. Mas o médico achou que podia ser algo muscular. Então, fiz fisioterapia por um tempo”, conta Dimas.

ATÍPICA

E a dor continuava. Por sorte, tem uma cardiologista em casa, que desconfiou e achou por bem investigar mais aquilo. “Era uma dor completamente atípica, que confundia. Mas meu pai não tinha os fatores de risco”, comentou Larissa, 32 anos, a médica da família.

Tinha algo sim que preocupava: casos de infarto na família. “A família do meu pai quase toda faleceu por problema cardíaco. Meu pai morreu aos 64 anos de infarto. Acabei nem conhecendo meus tios, mas soube que vários tiveram problemas no coração”, diz Dimas.

Ele seguiu a recomendação da filha, que pediu novos exames de rotina. O teste ergométrico já mostrou uma alteração, e o cateterismo confirmou: aquele coração estava em perigo. “Uma das artérias principais estava totalmente obstruída. E outras duas tinham 40% ou 60% de entupimento. Eu poderia ter tido um infarto”, analisa o fiscal.

Com um stent no peito, Dimas ainda se recupera do procedimento. Ele, que não tomava nenhum remédio, agora vai ter que manter a medicação. Mas está cheio de planos. “Vou voltar a me exercitar mais, mas pisar no freio em relação ao estresse. Quero ter uma vida longa”, afirma ele.

O fato de ter uma vida ativa pode ser a razão de o fiscal estar vivo hoje contando essa história. “Os médicos disseram que os exercícios me salvaram porque eles fizeram o coração ter ramificações, que irrigaram a parte que estava mais entupida”, relata.

A atividade física é reconhecidamente uma das melhores amigas do coração, como lembra o cardiologista e professor universitário Diogo Barreto. “Ela melhora o condicionamento cardiovascular em geral, pois ajuda na angiogênese, que é o desenvolvimento de novos vasos sanguíneos”.

Pelo mesmo motivo, o famoso goleiro espanhol Iker Casillas, de 37 anos, certamente não morreu depois do infarto que sofreu durante um treino, na última quarta-feira (1). “Atletas não estão isentos de doenças coronarianas. Mas quando têm, até por um aspecto genético, é de forma mais branda, diferentemente de um sedentário”, ressalta o médico.

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